Psicopedagogia

Os Distúrbios do Sono que Ninguém Diagnostica – Quando Parassonias, Insônia e Bruxismo Imitam TDAH #5

Essas queixas são frequentemente relatadas pelos pais nas consultas de psicopedagogia, mas raramente são conectadas ao que a criança apresenta na escola: desatenção, irritabilidade, queda no rendimento, dificuldade de concentração. Cada um desses sintomas noturnos pode ser um sinal de que o sono da criança não está cumprindo sua função de restaurar o cérebro — e o resultado é uma série de sintomas que os profissionais confundem com TDAH.

Nos capítulos anteriores, falamos sobre privação de sono, apneia e jet lag social. Agora, vamos mergulhar nos distúrbios do sono que ocorrem durante a noite e que ninguém investiga porque parecem “coisa de criança”.

Estudos recentes mostram que até 66% das crianças diagnosticadas com TDAH apresentam sinais clínicos de distúrbios do sono, e 40% têm parassonias relatadas pelos cuidadores. Apenas 10% passaram por estudos formais do sono. E, em 6 dos 9 casos que já estavam em uso de metilfenidato, os sintomas comportamentais melhoraram significativamente após o manejo dos distúrbios do sono, permitindo a redução ou suspensão da medicação.

Este capítulo vai te mostrar como os distúrbios do sono mais comuns na infância — insônia, terror noturno, sonambulismo, bruxismo e síndrome das pernas inquietas — podem estar sabotando o cérebro da criança todas as noites, e como identificá-los na anamnese psicopedagógica.


“Recebi um menino de 7 anos com um encaminhamento escolar: ‘Déficit de atenção, hiperatividade, possível TDAH. Encaminhar para avaliação neuropsicológica.’ A mãe estava exausta: ‘Ele não para quieto, não presta atenção, e a professora diz que ele vive no mundo da lua.’

Na anamnese, investiguei o sono. A mãe mencionou, quase como um detalhe: ‘Ele range os dentes à noite, e às vezes grita dormindo. Mas isso é normal, né? Meu marido também range.’

Perguntei: ‘Ele acorda cansado?’ — ‘Sim, sempre.’
‘Ele tem dificuldade de concentração pela manhã?’ — ‘Muito.’
‘Ele fica irritado e impaciente durante o dia?’ — ‘Sim, por qualquer coisa.’

Expliquei à mãe: ‘O bruxismo noturno e os episódios de terror noturno estão fragmentando o sono do seu filho. Ele pode até dormir 9 horas, mas o cérebro não descansa. Ele acorda como se tivesse dormido 4.’

Encaminhei o menino a um médico do sono. A polissonografia revelou um índice de despertares elevado, com episódios de bruxismo e terror noturno. O tratamento incluiu higiene do sono rigorosa, acompanhamento odontológico para o bruxismo e, posteriormente, avaliação de um otorrinolaringologista (que identificou rinite alérgica não tratada). Em três meses, o rendimento escolar melhorou, e a agitação diurna diminuiu significativamente. Ele não tinha TDAH. Ele tinha um cérebro que estava sendo despertado dezenas de vezes por noite.”


Existem vários distúrbios do sono que podem mimetizar os sintomas do TDAH. Vamos explorar cada um deles.

O que é: A insônia é definida pela dificuldade de iniciar o sono, de mantê-lo por um período adequado, ou pelo despertar muito precoce — com prejuízos ao dia seguinte. Pode afetar crianças e adolescentes, e até bebês de seis meses.

Sinais de alerta:

  • Demora mais de 30 minutos para pegar no sono.
  • Acorda várias vezes durante a noite.
  • Acorda muito cedo e não consegue voltar a dormir.
  • Está irritado, impaciente e com baixa tolerância à frustração durante o dia.
  • Tem perda momentânea de coordenação motora (tropeça, cai com facilidade).

O que a ciência diz: A insônia crônica pode gerar prejuízos para o aprendizado e queda no desempenho escolar. “A insônia parece muito com os sintomas de déficit de atenção e hiperatividade na infância”, descreve a médica do sono Ana Elisa Ribeiro, da UFMG. Crianças com insônia não demonstram cansaço como adultos — não cochilam nem ficam lentas. Ao invés disso, ficam irritadas, impacientes e com propensão ao choro.

Como se confunde com TDAH: A irritabilidade, a impulsividade e a dificuldade de concentração da privação de sono são quase idênticas aos sintomas do TDAH. A diferença está no contexto: a criança com TDAH apresenta desatenção em todos os contextos, enquanto a criança com insônia piora pela manhã e melhora após um bom descanso.


O que é: O terror noturno é uma parassonia do sono não-REM (movimento não rápido dos olhos), ou seja, não está relacionado a pesadelos ou sonhos ruins. Acontece na primeira metade da noite e é caracterizado por episódios de despertar brusco, nos quais a criança fica sentada na cama, gritando ou chorando com grande angústia.

Sinais de alerta:

  • A criança grita, chora ou se debate durante o sono, parecendo aterrorizada.
  • Os olhos podem estar abertos, mas ela não reconhece os pais e não responde a tentativas de acalmá-la.
  • O episódio dura de alguns segundos a vários minutos.
  • A criança não se lembra de nada na manhã seguinte.
  • Os pais relatam que tentar acordá-la pode prolongar o episódio.

O que a ciência diz: O terror noturno geralmente se inicia após os 4 anos de idade. A prevalência é de aproximadamente 6,5% em crianças. Embora seja considerado um fenômeno normal do desenvolvimento, quando ocorre com frequência, pode fragmentar o sono e gerar sonolência diurna, déficit de memória, alterações de humor e diminuição da concentração.

Como se confunde com TDAH: A fragmentação do sono causada pelos terrores noturnos frequentes leva a sintomas diurnos de desatenção, irritabilidade e baixa tolerância à frustração — exatamente o quadro que leva ao encaminhamento por suspeita de TDAH.


O que é: O sonambulismo é uma parassonia do sono não-REM que se manifesta predominantemente em escolares (7 a 12 anos) e diminui sua incidência com a idade. A criança se levanta durante o sono e realiza ações que podem mimetizar atos cotidianos, desde comportamentos simples até ações inadequadas.

Sinais de alerta:

  • A criança se levanta da cama durante o sono e anda pela casa.
  • Pode realizar ações como abrir portas, mexer em objetos ou até urinar em locais inadequados.
  • Os olhos podem estar abertos, mas ela não responde a comandos.
  • Ao acordar, não se lembra de nada.
  • Pode retornar para a cama sozinha ou despertar durante o episódio.

O que a ciência diz: O sonambulismo afeta até 17% das crianças. Um estudo com crianças de 6 a 12 anos mostrou que crianças com sonambulismo tinham maior probabilidade de ter problemas de aprendizagem e sonolência diurna excessiva. Outro estudo com 28 pacientes com sonambulismo frequente revelou que apraxia ideomotora, aprendizagem, comportamento e área emocional estavam prejudicados.

Como se confunde com TDAH: A sonolência diurna excessiva, a dificuldade de concentração e os problemas de aprendizagem associados ao sonambulismo frequente são frequentemente interpretados como sintomas de TDAH ou de transtorno de aprendizagem.


O que é: O bruxismo do sono é um movimento mandibular involuntário com ranger de dentes durante o sono. A prevalência em crianças é alta e pode levar a despertares frequentes com alteração do funcionamento diurno.

Sinais de alerta:

  • Ranger de dentes durante o sono (o barulho pode ser ouvido pelos pais).
  • Desgaste dos dentes, sensibilidade dentária ou dor na mandíbula.
  • Dor de cabeça ao acordar.
  • Sono agitado e despertares frequentes.
  • Irritabilidade e dificuldade de concentração durante o dia.

O que a ciência diz: Um estudo com crianças com bruxismo do sono revelou que 40% apresentaram escores elevados na Achenbach Child Behavior Checklist, indicando problemas significativos de atenção e comportamento. Os dados sugerem que crianças com bruxismo têm um índice de despertares mais alto, o que pode estar associado a uma maior incidência de problemas de atenção e comportamento. Outro estudo mostrou que crianças com bruxismo do sono eram mais propensas a serem percebidas pelos pais como hiperativas e de mau humor, com deterioração do desempenho acadêmico.

Como se confunde com TDAH: O bruxismo do sono fragmenta o sono e gera despertares frequentes. A criança acorda cansada, irritada e com dificuldade de concentração — sintomas que se sobrepõem quase perfeitamente ao TDAH.


O que é: A síndrome das pernas inquietas é um distúrbio sensório-motor que causa uma necessidade irresistível de mover as pernas, geralmente acompanhada de sensações desagradáveis (formigamento, queimação, ardor). Os sintomas pioram à noite e ao repouso.

Sinais de alerta:

  • A criança se queixa de sensações estranhas nas pernas (formigamento, “bichinhos”, dor).
  • Precisa mover as pernas constantemente para aliviar o desconforto.
  • Os sintomas pioram à noite e ao ficar parada.
  • Tem dificuldade de pegar no sono por causa do desconforto.
  • Durante o dia, pode parecer inquieta e agitada.

O que a ciência diz: Estudos recentes mostram uma associação entre a SPI pediátrica e o TDAH, com sintomas compartilhados como inquietação e dificuldade de concentração, o que torna o diagnóstico diferencial desafiador. Crianças com SPI e TDAH compartilham um problema comum: deficiência de dopamina. A SPI afeta as pernas de forma localizada, enquanto o TDAH causa uma sensação generalizada de necessidade de movimento. Crianças com SPI frequentemente não são diagnosticadas porque há falta de conhecimento sobre a doença, e os sintomas podem ser atribuídos ao TDAH.

Como se confunde com TDAH: A inquietação motora, a dificuldade de concentração e a agitação diurna da SPI são praticamente indistinguíveis do TDAH. A diferença é que a SPI tem um padrão circadiano (piora à noite) e está localizada nas pernas.


O que são: As parassonias são eventos físicos ou sensações indesejáveis que ocorrem durante o sono REM, o sono não-REM ou nas transições do sono. A faixa etária pediátrica é o principal grupo afetado.

Prevalência: As parassonias são extremamente comuns na infância:

  • Despertar confusional: prevalência de 17,3% em crianças de 3 a 13 anos.
  • Sonambulismo: até 17% das crianças.
  • Terror noturno: até 6,5% das crianças.
  • Enurese (xixi na cama): 15-20% das crianças até 5 anos.
  • Parassonias em geral: 88% de uma coorte manifestou pelo menos uma parassonia durante o período do estudo.

O que a ciência diz: Um estudo populacional com crianças em idade escolar mostrou que crianças com parassonias tinham maior prevalência de outros distúrbios do sono e problemas de aprendizagem. As parassonias estão associadas a um maior número de despertares, o que fragmenta o sono e prejudica a consolidação da memória.

Como se confunde com TDAH: A fragmentação do sono causada por parassonias gera sonolência diurna, irritabilidade, desatenção e dificuldade de aprendizagem — um quadro que se confunde facilmente com TDAH.


A sobreposição de sintomas entre os distúrbios do sono e o TDAH é tão grande que muitos especialistas defendem que a avaliação do sono deveria ser obrigatória em todo protocolo de diagnóstico de TDAH.

SintomaTDAH VerdadeiroDistúrbio do Sono
DesatençãoPresente em todos os contextos.Piora pela manhã, melhora após um bom descanso.
HiperatividadePresente de forma constante.Pode ser uma compensação para o cansaço ou sintoma da SPI.
IrritabilidadePresente.Sintoma central da privação de sono.
Dificuldade de aprendizagemPresente.A memória não é consolidada. O que é estudado se perde.
Resposta a estimulantes (Ritalina)Melhora.Piora ou não tem efeito (o problema é o sono, não a neuroquímica).
Histórico de ronco, terror noturno, sonambulismo, bruxismoNão é um marcador típico.Marcador fortíssimo.
Melhora com férias ou fins de semanaPode melhorar ligeiramente.Melhora significativamente quando a rotina de sono é mais regular.

O erro clínico mais comum: A criança recebe o diagnóstico de TDAH e inicia o tratamento com metilfenidato, mas os sintomas persistem porque a causa raiz — o distúrbio do sono não diagnosticado — nunca foi tratada. Estudos mostram que o uso de metilfenidato sem avaliação adequada do sono pode levar ao sobretratamento ou ao mascaramento de comorbidades tratáveis.


Aqui, seu papel é investigativo e orientador. Você não vai tratar o distúrbio do sono, mas vai identificá-lo e fazer o encaminhamento correto.

  1. “Seu filho range os dentes durante o sono?”
  2. “Ele grita, chora ou se debate dormindo, sem lembrar de nada depois?”
  3. “Ele se levanta da cama durante o sono?”
  4. “Ele se queixa de formigamento ou desconforto nas pernas à noite?”
  5. “Ele demora para pegar no sono? Quanto tempo?”
  6. “Ele acorda várias vezes durante a noite?”
  7. “Ele tem xixi na cama (enurese)?”
  8. “Ele acorda cansado, mesmo tendo dormido o suficiente?”

  1. Registre no prontuário de forma objetiva.
  2. Explique à família que os distúrbios do sono podem fragmentar o sono e gerar sintomas diurnos que se parecem com TDAH.
  3. Oriente a família a manter um “Diário do Sono” por 7 a 14 dias, registrando:
    • Horário de dormir e acordar.
    • Episódios de terror noturno, sonambulismo, bruxismo.
    • Despertares noturnos.
    • Nível de cansaço pela manhã.
  4. Encaminhe ao médico do sono se houver sinais de distúrbios significativos. A polissonografia é o exame padrão-ouro para diagnosticar parassonias e outros distúrbios do sono.
  5. Durante as sessões: Se a criança estiver nitidamente sonolenta, não force a atividade cognitiva. Faça uma pausa, ofereça água, peça para ela se levantar e dar alguns passos.

O que você NÃO PODE fazer:

  • Diagnosticar insônia, parassonias ou SPI. Isso é função do médico do sono.
  • Prescrever melatonina, ferro ou outros suplementos.
  • Culpar os pais por “deixarem” a criança dormir mal. Eduque sem julgamento.

A Regra de Ouro: “O Diário do Sono”

Mantenha um registro por 14 dias com as seguintes informações:

  • Horário de dormir e horário de acordar.
  • Episódios noturnos: terror, sonambulismo, bruxismo, xixi na cama.
  • Despertares: quantas vezes a criança acorda.
  • Nível de cansaço pela manhã: de 0 a 10.
  • Comportamento diurno: irritabilidade, concentração, desempenho escolar.

Leve esse diário para o médico do sono. Ele ajudará a identificar o padrão e a direcionar a investigação.

DistúrbioO que fazer em casaO que NÃO fazer
InsôniaEstabelecer rotina de relaxamento antes de dormir (leitura, banho morno, música calma). Manter horários regulares.Usar telas na hora de dormir. Forçar a criança a dormir mais cedo do que o corpo dela permite.
Terror NoturnoNão tentar acordar a criança durante o episódio. Apenas garantir que ela esteja segura e esperar que o episódio passe.Gritar, sacudir ou acender luzes fortes. Isso pode prolongar o episódio.
SonambulismoGarantir que o ambiente seja seguro (portas trancadas, objetos cortantes guardados, escadas bloqueadas). Conduzir a criança de volta à cama com suavidade.Acordar a criança. Isso pode causar confusão e desorientação.
BruxismoConsultar um odontopediatra. Considerar uso de placa de mordida noturna (se indicado pelo dentista).Ignorar o problema. O bruxismo pode causar desgaste dentário e dor mandibular.
SPIInvestigar deficiência de ferro com um médico. Estabelecer rotina de relaxamento antes de dormir.Ignorar as queixas da criança. A SPI é real e causa sofrimento.

O que FAZERO que NÃO FAZER
Estabelecer horários regulares para dormir e acordar, incluindo fins de semana.Deixar a criança dormir em horários muito diferentes nos fins de semana.
Criar rotina de relaxamento antes de dormir (leitura, banho morno, conversa calma).Usar telas (celular, tablet, TV) na hora de dormir.
Manter o quarto escuro, silencioso e fresco.Deixar a TV ligada ou o celular no quarto.
Incentivar atividade física durante o dia (mas não perto da hora de dormir).Dar refeições pesadas ou com açúcar perto da hora de dormir.

Peça para os pais fazerem este experimento:

“Por 14 dias, mantenha um ‘Diário do Sono’ com as seguintes informações:

  • Horário de dormir e acordar.
  • Episódios noturnos (terror, sonambulismo, bruxismo, xixi na cama).
  • Despertares noturnos (quantas vezes).
  • Nível de cansaço pela manhã (0 a 10).
  • Comportamento diurno (irritabilidade, concentração, desempenho).

Ao final de 14 dias, leve o diário para um médico do sono ou otorrinolaringologista. Isso ajudará a identificar o padrão e a direcionar a investigação.”


A escola e o consultório estão cheios de crianças que são chamadas de “preguiçosas”, “desatentas”, “inquietas” ou “desafiadoras”.

Quantas dessas crianças, na verdade, estão lutando contra um distúrbio do sono que ninguém diagnosticou?

O terror noturno, o sonambulismo, o bruxismo e a SPI não são “coisa de criança”. São distúrbios que fragmentam o sono, impedem a consolidação da memória e geram sintomas diurnos que se parecem com TDAH.

Como psicopedagogos, pais e educadores, nosso dever é levantar a cabeça, olhar além do laudo, e perguntar:

“Como é o sono dessa criança? O que acontece durante a noite?”

Porque antes de ensinar frações, a gente precisa garantir que o cérebro tenha uma noite de sono reparador para gravá-las.


Desmontamos os distúrbios do sono que ninguém diagnostica e vimos como eles podem imitar o TDAH. No próximo capítulo, vamos explorar “O Sono e o Controle Inibitório: Por que a Criança Fica Irritada e Impulsiva” — a relação entre a privação de sono e a hiperatividade da amígdala, levando a comportamentos que se parecem com TDAH e TOD.

▶️ Leia o Capítulo 6 na próxima [inserir dia da semana]


Compartilhe este post. Se você conhece uma criança que range os dentes, grita dormindo, anda pela casa à noite ou se queixa de pernas inquietas, compartilhe este texto com os pais. Talvez a solução para a dificuldade de aprendizagem dela não esteja no remédio, mas no quarto e na rotina de sono.

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