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Síndrome do Atraso das Fases do Sono (SAFS)

Baseado em evidências científicas da neurologia, cronobiologia e saúde pública, essa situação — conhecida como Síndrome do Atraso das Fases do Sono (SAFS) quando patológica, ou como “cronotipo vespertino extremo” — tem consequências multifacetadas e significativas para a saúde física e mental.

O que está acontecendo no corpo (a base biológica)

  1. Desalinhamento Circadiano Total: O indivíduo vive em constante “jet lag social”. Seu relógio biológico interno (que dita a liberação de melatonina, cortisol, pico de alerta, temperatura corporal mínima) está defasado em várias horas em relação ao ciclo claro/escuro natural e às demandas sociais (horário de trabalho/escola).
  2. Supressão de Melatonina pela Luz: Dormir durante o dia significa tentar dormir em um ambiente frequentemente claro. A luz, especialmente a azul do espectro solar, é o principal inibidor da secreção de melatonina. O corpo recebe o sinal contrário ao necessário: “é dia, fique alerta”.
  3. Interrupção dos Ritmos de Cortisol: O cortisol, que naturalmente tem seu pico ao amanhecer para nos preparar para o dia, é liberado em horários anômalos, contribuindo para um despertar difícil e sonolência diurna.

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Consequências em Todos os Aspectos (Baseadas em Pesquisas)

A) Saúde do Sono e Funcionamento Diurno:

  • Má Qualidade do Sono: Mesmo dormindo muitas horas, o sono é menor em sono de ondas lentas (restaurador) e REM, mais fragmentado e superficial devido ao conflito com o ciclo de luz. A pessoa raramente acorda revigorada.
  • Sonolência Diurna Excessiva: Dormir de dia é inerentemente menos reparador. A sonolência compromete concentração, memória de trabalho e tempo de reação.
  • Déficit de Sono Crônico: A necessidade de se adaptar a compromissos matutinos (escola, trabalho) frequentemente leva a pessoa a dormir menos do que precisa, acumulando uma dívida de sono severa.

B) Saúde Física:

  • Metabolismo e Peso: O desalinhamento circadiano prejudica a regulação da glicose e da insulina, aumentando o risco de resistência à insulina, diabetes tipo 2 e obesidade. Hormônios que regulam fome (grelina) e saciedade (leptina) são desregulados, aumentando a fome, especialmente por alimentos calóricos à noite.
  • Sistema Cardiovascular: Trabalho por turnos noturnos (um modelo de desalinhamento semelhante) é classificado pela OMS como provavelmente cancerígeno e está fortemente associado a maior risco de hipertensão, doença arterial coronariana e acidente vascular cerebral.
  • Sistema Imunológico: A produção e liberação de citocinas (moléculas do sistema imunológico) seguem um ritmo circadiano. A desregulação pode levar a inflamação crônica de baixo grau e resposta imunológica menos eficaz.
  • Função Gastrointestinal: O ritmo da motilidade intestinal e secreção enzimática é perturbado, aumentando a incidência de sintomas como refluxo gastroesofágico, indigestão e constipação.

C) Saúde Mental e Cognição:

  • Risco Psiquiátrico Elevado: Estudos longitudinais mostram associação robusta entre padrões de sono irregulares/desalinhados e maior incidência de depressão maior, transtorno bipolar, transtornos de ansiedade e uso de substâncias. A causa é bidirecional: o desalinhamento contribui para a doença, e a doença piora o sono.
  • Comprometimento Cognitivo: Funções executivas (tomada de decisão, planejamento, controle de impulsos), atenção sustentada, memória e velocidade de processamento são prejudicadas. É semelhante a um estado de embriaguez leve crônica.
  • Isolamento Social e Estresse: Viver fora da programação social padrão gera estresse psicossocial crônico, sentimento de exclusão, dificuldade em manter relacionamentos e cumprir obrigações familiares/sociais.

D) Aspectos Sociais e Profissionais:

  • Preconceito e Estigmatização: Frequentemente são erroneamente rotulados como “preguiçosos”, “indisciplinados” ou “anti-sociais”, quando há uma forte base biológica.
  • Dificuldade Acadêmica e Profissional: O desempenho em horários matutinos é subótimo, podendo levar a baixo rendimento, faltas e maior risco de acidentes de trabalho ou trânsito.
  • Acesso a Serviços de Saúde: A dificuldade de comparecer a consultas médicas no horário comercial pode levar ao abandono do cuidado preventivo.

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Quando é um Transtorno (Síndrome do Atraso das Fases do Sono – SAFS)?

Nem todo mundo que prefere dormir tarde tem a SAFS. O diagnóstico (segundo a Classificação Internacional de Distúrbios do Sono) requer:

  1. Um atraso significativo e intratável no horário principal do sono.
  2. Queixas de insônia ao tentar dormir no horário convencional e dificuldade para acordar cedo.
  3. Sintomas presentes por mais de 3 meses.
  4. Quando o indivíduo pode seguir seu horário atrasado (ex.: nas férias), o sono é de qualidade e duração normais, e não há sonolência diurna excessiva. Essa é a chave: o problema é o desalinhamento, não a capacidade de dormir em si.

Abordagens Científicas para Tratamento/Modulação

O tratamento, supervisionado por médico especialista em sono, visa re-alinhar gradualmente o ritmo circadiano:

  1. Fototerapia (Terapia com Luz): Exposição a luz brilhante de amplo espectro (10.000 lux) logo após o despertar programado (mesmo que ainda esteja escuro) para sinalizar “início do dia” ao cérebro.
  2. Melatonina Cronometrada: Administração de melatonina de liberação imediata (0.3 a 0.5 mg) 4 a 6 horas antes do horário de sono desejado, para sinalizar o início da noite biológica.
  3. Higiene do Sono Rigorosa: Ambiente absolutamente escuro e silencioso para dormir de dia (uso de máscara, blackout), rotinas fixas, evitar luzes fortes (especialmente telas) antes do horário de sono desejado.
  4. Cronoterapia: Protocolo de atraso progressivo do horário de dormir (cerca de 1-2 horas por dia) até chegar ao horário desejado. É um tratamento clássico, mas que requer supervisão e comprometimento.

Conclusão Assertiva: Viver em um padrão “noite-dia” invertido em uma sociedade diurna não é uma simples preferência. É um estado de desregulação fisiológica crônica que impacta negativamente praticamente todos os sistemas do organismo, da saúde cardiovascular e metabólica à função cognitiva e saúde mental, além de gerar um ônus social significativo. A intervenção requer reconhecimento do componente biológico e estratégias baseadas em evidência para promover o realinhamento circadiano.

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