Estudo de Caso: “Quando a Timidez se confunde com Autismo: A História de Sofia”
Olá Colegas hoje vamos aprender “O Caso Sofia” mais um estudo de caso utilizando meu Protocolo Homes Oliver – desenvolvido por mim Pp. Daliane Oliveira após 20 anos de estudos, pesquisas e muita dedicação com aplicação na prática com Crianças e Adolescentes na África do Sul/Kênia e vários estados do Brasil. Vou compartilhar com vocês minhas experiências e um modo eficiente de identificar, Avaliar e Intervir em nossas analises profissionais. Vamos nessa 🙂
1. IDENTIFICAÇÃO
- Nome: Sofia (pseudônimo)
- Idade: 5 anos e 8 meses
- Série: Pré-II (Educação Infantil)
- Queixa principal: “Não interage com as crianças, não responde quando chamada e tem interesses restritos. A escola sugeriu avaliação para TEA (Transtorno do Espectro Autista).”
2. QUEIXA INICIAL: UMA SUSPEITA PRECIPITADA
Entrevista Inicial com os Pais
Relato da família:
- Sofia é “muito na dela” na escola
- Não participa das atividades em grupo
- Às vezes parece “surda” (não responde ao nome)
- Interesse obsessivo por dinossauros
- Fala pouco na escola, mas em casa é “conversadeira”
- Frase impactante da mãe: “A professora disse que pode ser autismo porque ela não olha nos olhos das outras crianças.”
Expectativas: Os pais estão assustados e confusos. A mãe questiona: “Ela é tão carinhosa em casa, como pode ser autismo?”
Exploração inicial:
- Quando começou? “Desde que entrou na escola, aos 4 anos.”
- Quando NÃO ocorre? “Em casa, com primos que conhece desde bebê, no parque quando não tem muita gente.”
- Contexto: Escola com 25 crianças por turma, professora jovem e pouco experiente, ambiente muito estimulante.
Primeiro alerta profissional: A suspeita de TEA surgiu exclusivamente no ambiente escolar, sem manifestações consistentes em outros contextos.
3. AVALIAÇÃO MULTIDIMENSIONAL: DESCONSTRUINDO RÓTULOS
A. ASPETOS BIOLÓGICOS E DE SAÚDE
Avaliação sensorial (frequentemente negligenciada):
- Audição: Teste comportamental mostra respostas inconsistentes a sons ambientais, mas perfeita à voz suave da mãe
- Visão: Exame revela hipermetropia leve não corrigida (“ela vê borrado de perto”)
- Processamento sensorial: Questionário sensorial aponta hipersensibilidade auditiva (nota 9/10) e tátil (nota 8/10)
- Sono: Normal, mas demora a pegar no sono em ambientes novos
Desenvolvimento neuropsicomotor:
- Marcos de linguagem: Primeiras palavras aos 11 meses, frases aos 2 anos
- Contato ocular: Excelente com familiares, evitativo com estranhos
- Brincadeira simbólica: Rica e elaborada em casa, inexistente na escola
- Ponto crucial: Todas as “bandeiras vermelhas” para TEA são situacionais
B. ASPECTOS FAMILIARES E TEMPERAMENTAIS
Histórico familiar (entrevista detalhada):
- Pai descreve a si mesmo como “extremamente tímido na infância”
- Mãe relata: “Eu também era assim, até os 10 anos não falava com estranhos”
- Irmão mais velho (10 anos): “Normal”, extrovertido
- Estilo parental: Protetor, família pouco expansiva socialmente
Temperamento (entrevista com escalas):
- Traço de inibição comportamental acentuado
- Alta sensibilidade emocional
- Tendência a “congelar” em situações novas
- Não é patologia: É variante normal de personalidade
Eventos significativos:
- Mudança de cidade aos 3 anos (perdeu a única amiguinha)
- Entrada na escola atual com 4 anos (adaptação traumática)
- Nenhum trauma grave, mas acumulo de pequenos estressores
C. CONTEXTO ESCOLAR: O AMBIENTE QUE PATOLOGIZA
Observação em sala (2 períodos completos):
- Ambiente: Sala colorida demais, música alta constante, 24 crianças
- Professora: Fala alto, gestos expansivos, toque frequente nas crianças
- Sofia: Senta no canto, ombros contraídos, olhar fixo no colo
- Momento revelador: Quando a música para, ela relaxa visivelmente
Entrevista com professora:
- “Ela não é como as outras crianças”
- “Precisa se socializar mais”
- “Às vezes acho que está no mundo dela”
- Viés confirmatório: Professora já “diagnosticou” e interpreta tudo pela lente do autismo
Análise pedagógica:
- Atividades sempre em grande grupo
- Exigência de contato físico constante (rodinhas apertadas)
- Nenhum respeito por estilo interacional mais reservado
- Falha grave: Nunca tentaram adaptação antes de sugerir diagnóstico
D. DESENVOLVIMENTO SOCIAL E COMUNICATIVO
Avaliação em múltiplos contextos:
- Em casa (filmagem): Conversa fluente, brincadeira criativa, contato ocular perfeito, compartilha interesses
- Na clínica (sessão individual): Reservada inicialmente, depois interage bem, mostra interesse por dinossauros
- No parque (observação naturalística): Observa 15 minutos, depois se aproxima de uma criança calmamente
- Escola: Quase nenhuma interação espontânea
Habilidades sociais (avaliação estruturada):
- Reconhecimento de emoções: 90% de acerto (acima da média)
- Teoria da mente: Testes apropriados para idade
- Linguagem pragmática: Adequada em contextos familiares
- Defasagem: Exclusivamente em contextos de alta demanda social/ruído
Interesses especiais:
- Dinossauros: Conhece 30 espécies, características, períodos
- Não é restrito: Usa dinossauros para conectar-se (empresta livros, desenha para presentear)
- Diferencial crucial: O interesse é socialmente utilizável, não isolante
4. INTEGRAÇÃO DOS DADOS: O QUEBRA-CABEÇA REAL
Triangulação Reveladora:
| Comportamento | Casa | Escola | Clínica |
|---|---|---|---|
| Contato ocular | Excelente | Evitativo | Bom (após 20min) |
| Interação social | Ativa | Quase nula | Progressiva |
| Interesses | Compartilhados | Julgados obsessivos | Vistos como conhecimento |
| Resposta ao nome | Imediata | Inconstante | Após adaptação |
Linha do Tempo Desenvolvimental:
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0-3 anos: Desenvolvimento típico em ambiente familiar protegido
3 anos: Mudança de cidade (primeiro estressor)
4 anos: Entrada na escola (ambiente sensorialmente hostil)
4a6m: Primeira queixa escolar ("isolada")
5 anos: Interesse por dinossauros se intensifica
5a6m: Suspeita formal de TEA pela escola
5a8m: Avaliação multidisciplinar
Fatores que Mimetizam TEA:
- Hipersensibilidade sensorial (auditiva principalmente) → retraimento como defesa
- Temperamento inibido geneticamente determinado → confundido com déficit social
- Ansiedade social de desenvolvimento → evitação interpretada como falta de interesse
- Ambiente escolar inadequado → sobrecarga sensorial causa “shutdown”
- Problema visual não corrigido → dificuldade em reconhecer expressões à distância
- Viés do observador → professora vê autismo onde há timidez
- Interesse especial → comum em crianças com alta capacidade, não patognomônico de TEA
- Expectativas inadequadas → exige-se de uma criança de 5 anos habilidades sociais de adulto
5. HIPÓTESE DIAGNÓSTICA
Formulação Diagnóstica:
Condição Primária:
- Transtorno de Ansiedade Social (F40.1) de início na infância
- Padrão Temperamental de Inibição Comportamental (traço constitucional)
- Hipersensibilidade Sensorial (processamento sensorial atípico, não TEA)
Condições Secundárias:
- Estresse Pós-Traumático (leve) relacionado a experiências escolares negativas
- Problema visual (hipermetropia) contribuindo para dificuldades de engajamento
Diagnósticos Excluídos:
- Transtorno do Espectro Autista (F84.0): Critérios não preenchidos (déficits sociais não são pervasivos, comunicação preservada em contextos seguros, não há padrões restritos/repetitivos além do interesse por dinossauros que é socialmente utilizável)
- Mutismo Seletivo (F94.0): Fala em múltiplos contextos, apenas reduzida em situações ansiogênicas
- Deficiência Intelectual: Desenvolvimento cognitivo adequado à idade
Razões para Exclusão de TEA:
- Especificidade contextual: Os “sintomas” só ocorrem na escola
- Intencionalidade social preservada: Em contextos seguros, busca interação
- Comunicação não-verbal adequada: Gestos, expressões faciais, contato ocular são normais fora da escola
- Flexibilidade comportamental: Aceita mudanças de rotina em casa sem crise
- Jogo simbólico desenvolvido: Brincadeiras criativas e complexas no ambiente familiar
- Teoria da mente intacta: Compreende emoções, intenções, pensamentos dos outros
- Hiper-reatividade sensorial como causa primária, não comórbida
Conceituação do Caso:
Sofia é uma criança com temperamento inibido constitucional e hipersensibilidade sensorial que, ao ser inserida em um ambiente escolar superestimulante e pouco acolhedor, desenvolveu ansiedade social significativa. Seu retraimento é uma resposta adaptativa a um ambiente percebido como ameaçador, não um déficit neurodesenvolvimental. Seu interesse por dinossauros representa tanto uma válvula de escape do estresse quanto uma fonte de competência em um ambiente onde se sente incompetente socialmente.
6. PLANO DE INTERVENÇÃO MULTIFOCAL
A. Adaptações Imediatas na Escola:
- Canto silencioso: Espaço com fones de atenuação de ruído
- Parceiro fixo: Uma colega calma para atividades em dupla
- Professora: Treinamento em comunicação não-ameaçadora
- Atividades: Alternar grande grupo com pequeno grupo
B. Intervenções Terapêuticas:
- Terapia cognitivo-comportamental infantil: Para ansiedade social
- Integração sensorial: Com terapeuta ocupacional
- Oftalmologista: Correção da hipermetropia
- Orientação parental: Como apoiar sem superproteger
C. Apoio à Família:
- Despatologização: Entender temperamento como variante normal
- Socialização gradual: Encontros fora da escola com 1-2 crianças
- Valorização dos interesses: Usar dinossauros como ponte social
- Colaboração escola-família: Diário de comunicação
7. PROGNÓSTICO E ACOMPANHAMENTO
Expectativa: Melhora significativa em 2-3 meses com as adaptações ambientais
Marcadores de evolução:
- Redução do estresse físico na escola (ombros relaxados)
- Aumento progressivo de interações
- Uso do canto silencioso como estratégia, não como refúgio permanente
Reavaliação: Em 6 meses para rediscutir necessidades
Para Pensar!
Este caso exemplifica o perigo da patologização da timidez e da pressão por diagnósticos rápidos em ambientes educacionais. Sofia estava sendo “moldada” para caber no diagnóstico de TEA, quando na verdade precisava de um ambiente moldado para seu temperamento.
A lição mais importante: nem tudo que parece autismo é autismo. Às vezes, é apenas uma criança sensível tentando sobreviver em um mundo barulhento. Diagnosticar corretamente não é apenas uma questão de precisão clínica, mas de ética e respeito à diversidade humana.
O que Sofia tinha não era um transtorno, mas um temperamento que colidia com um ambiente. E enquanto é mais fácil medicar uma criança ou rotulá-la do que transformar um ambiente, nossa obrigação é lembrar: quando você ouvir cascos, pense em cavalos, não em zebras. Mas lembre-se que alguns cavalos são apenas mais sensíveis ao barulho.
