Psicopedagogia

O menino que não era TDAH: o que a avaliação tradicional não viu?

Antes de começarmos, é importante dizer o que esta série é e o que ela não é.

Não é um espaço para ensinar diagnóstico. Psicopedagogos e neuropsicopedagogos não diagnosticam. Nosso trabalho é levantar hipóteses, investigar, intervir e encaminhar para que profissionais da área médica possam, se for o caso, fechar um diagnóstico.

É um espaço para falar do que fazemos entre a queixa e o encaminhamento. Do raciocínio clínico que não aparece nos manuais. Das decisões que tomamos quando a hipótese inicial não se sustenta, quando o instrumento não dá resposta, e quando percebemos que os fatores que mais afetam a aprendizagem não estão sendo avaliados.

Os casos publicados aqui são recebidos por e-mail, anonimizados, e publicados com autorização. Nenhum dado permite identificação.


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A pergunta que mudou tudo!

Recebi este caso por e-mail. Vou chamar o menino de M. Ele tinha 9 anos, estava no 4º ano, e chegou ao consultório da colega que me escreveu com uma pasta de encaminhamentos.

Na primeira sessão, M. entrou na sala, sentou na cadeira, olhou para a psicopedagoga e disse:

“Eu não sou burro, sabe? Eu só não consigo fazer na hora que eles querem.”

A escola escreveu: “déficit de atenção, não acompanha a turma, não termina as atividades, vive no mundo da lua”. A mãe já havia lido três livros sobre TDAH. O pai já havia decidido que era “falta de limite”. A tia, professora, já havia dito que “é só preguiça”.

Todo mundo já tinha uma hipótese. Menos a profissional que iria atendê-lo.


O que a avaliação tradicional mostrou?

A colega fez o que a formação orienta. Anamnese detalhada, observação estruturada, tarefas de atenção sustentada, memória de trabalho, controle inibitório, velocidade de processamento.

O que apareceu:

  • Atenção sustentada: cerca de 6 a 8 minutos em atividades dirigidas. Abaixo do esperado.
  • Memória de trabalho: preservada quando a tarefa tinha sentido. Comprometida quando era cópia ou ditado.
  • Impulsividade motora: nenhuma. M. não levantava da cadeira, não interrompia.
  • Hiperfoco: impressionante quando o tema era do interesse dele. Ficou 40 minutos montando um esqueleto de Tiranossauro.
  • Produção escrita: muito abaixo do esperado. Frases curtas, recusa, às vezes choro.

Quatro sessões. Dois instrumentos aplicados. E a hipótese continuava sem se fechar.

Foi aí que algo mudou. A colega começou a se perguntar: “O que eu não estou avaliando?”


O que a avaliação tradicional não viu?

A pergunta que poucos fazem: o que está acontecendo na vida dessa criança que pode estar produzindo esses sintomas?

A colega decidiu investigar. Não com instrumentos. Com conversa. Com perguntas que ninguém havia feito.

Sobre o sono:

Perguntou à mãe: “A que horas M. dorme? Ele acorda descansado?”

A resposta: M. dormia às 23h, às vezes meia-noite. Acordava às 6h para ir à escola. Sete horas de sono, no máximo. Para uma criança de 9 anos, que precisa de 9 a 11 horas.

A literatura sobre privação de sono em crianças é clara: sono insuficiente ou fragmentado está associado a hiperatividade, desatenção, problemas de conduta e prejuízo cognitivo que podem ser facilmente confundidos com TDAH . Crianças sonolentas podem parecer desatentas, impulsivas ou “no mundo da lua” .

Perguntou: “Quanto tempo M. passa em telas por dia?”

A resposta: 4 a 5 horas. Tablet à noite, celular na hora de dormir.

Estudos recentes mostram que o uso excessivo de telas está associado à redução da atenção, concentração, memória e desempenho escolar . Além disso, a exposição a telas antes de dormir fragmenta o sono, criando um ciclo: menos sono, mais irritabilidade, mais telas para “acalmar”, menos sono ainda .

Sobre a alimentação:

Perguntou: “O que M. come no café da manhã? No almoço? Ele come frutas, verduras?”

A resposta: café da manhã era leite com achocolatado e pão. Almoço, muitas vezes, era na escola, e ele “não comia direito”. À noite, comia bem. Nenhuma fruta, nenhum vegetal, nenhuma proteína consistente durante o dia.

A nutrição tem papel fundamental na arquitetura e função do cérebro em desenvolvimento. Tanto a desnutrição quanto a alimentação desequilibrada podem prejudicar o neurodesenvolvimento, com consequências para cognição, comportamento e bem-estar emocional . Estudos mostram correlação entre estado nutricional e desempenho cognitivo .

Sobre o ambiente familiar:

Perguntou, com cuidado: “Como está a relação de vocês em casa? Tem acontecido algo diferente?”

A mãe ficou em silêncio. Depois contou: o pai de M. havia perdido o emprego há seis meses. A casa estava tensa. Discussões frequentes. M. presenciava tudo.

A exposição à violência familiar — mesmo a violência psicológica, mesmo sem agressão física — está associada a disfunção executiva e problemas de atenção em crianças . Crianças expostas a conflitos parentais podem apresentar problemas de aprendizagem, dificuldades de concentração e diminuição do rendimento escolar .


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O que apareceu na oitava sessão?

Com essas informações, a colega voltou a conversar com M. — não sobre os testes, mas sobre a vida.

Na oitava sessão, ele contou: no 2º ano, foi chamado à frente da sala para ler em voz alta. Errou uma palavra. A professora riu. Os colegas riram. Ele nunca mais leu em voz alta. Nunca mais escreveu sem apagar. Nunca mais levantou a mão.

E agora?

O quadro não era TDAH. Era uma combinação de fatores que ninguém havia avaliado:

  • Privação crônica de sono
  • Uso excessivo de telas (que piorava o sono)
  • Alimentação inadequada
  • Ambiente familiar tenso
  • Experiência de vergonha escolar não elaborada

A “desatenção” era, em parte, sonolência diurna — consequência direta do sono insuficiente . A “irritabilidade” era, em parte, efeito das telas e do estresse familiar. A recusa em escrever era evitação ativa com base em vergonha.


Como foram organizadas as novas sessões?

A partir da oitava sessão, o plano mudou completamente.

Sessões 8 a 10: Investigação aprofundada dos fatores contextuais

  • Entrevista estruturada com os pais sobre sono, alimentação, telas e dinâmica familiar.
  • Orientações práticas: higiene do sono (horário fixo, sem telas 1h antes de dormir), alimentação (café da manhã reforçado, lancheira com fruta), redução gradual de telas.
  • Encaminhamento para nutricionista e para psicólogo (para o menino e para os pais).

Sessões 11 a 15: Intervenção psicopedagógica focada

  • Reconstrução da relação de M. com a escrita: atividades curtas, sem correção vermelha, com valorização do processo.
  • Trabalho de exposição gradual: primeiro escrever para a psicopedagoga, depois para a mãe, depois para a professora.
  • Estratégias de autorregulação: pausas programadas, organização visual de tarefas.

Sessões 16 a 20: Reavaliação e ajuste

  • Com o sono melhorando e a alimentação ajustada, a atenção sustentada de M. aumentou significativamente.
  • Com a intervenção psicopedagógica, a produção escrita melhorou.
  • O encaminhamento para psicologia ajudou a elaborar a vergonha escolar.

O que se aprendeu com esse caso?

O que se aprendeu:

  • Que sono, alimentação, telas e ambiente familiar não são “fatores secundários”. São parte central da avaliação .
  • Que a ausência de hipótese fechada não é fracasso clínico — é sinal de que algo não foi investigado.
  • Que o psicopedagogo não diagnostica. Ele investiga, intervém, encaminha e acompanha.
  • Que perguntar sobre a vida da criança — e não apenas sobre o desempenho dela — é parte do trabalho.

O que ainda não se sabe:

  • O que teria acontecido se a colega tivesse cedido à pressão e tratado o caso como TDAH desde a quarta sessão.
  • Quantos M. existem por aí, tratados como TDAH, quando a causa está no sono, na tela, na alimentação ou na casa.
  • Se a escola, de fato, sustentou as adaptações sugeridas depois que o caso saiu do consultório.

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Para você, que está no meio de um caso que não fecha?

Este post não é sobre “acertar”. É sobre o que se faz quando não se sabe.

Durante seis semanas, a colega que enviou este caso se sentiu incompetente. Achou que o problema era ela. Que não sabia aplicar os instrumentos direito.

Hoje ela sabe que o problema não era ela. Era a avaliação incompleta. Era a pergunta que não foi feita. Era o fator que ninguém considerou.

Nem todo caso tem um nome. E o nosso trabalho não é dar um nome. É investigar tudo o que pode estar por trás do sintoma. E encaminhar para quem de direito quando o nome for necessário.

Se você está agora no meio de um caso que não fecha, este post é para você. Não para te dar uma resposta. Para te lembrar de perguntar: “O que eu ainda não avaliei?”


Checklist para avaliação ampliada

A colega que enviou este caso pediu que eu compartilhasse o checklist que ela passou a usar depois dessa experiência:

  • Sono: Quantas horas por noite? Acorda descansado? Tem pesadelos? Ronca? Usa telas antes de dormir?
  • Telas: Quantas horas por dia? Que tipo de conteúdo? Onde usa (quarto, sala)? Tem acesso à noite?
  • Alimentação: Café da manhã? Almoço? Jantar? Come frutas e verduras? Bebe água?
  • Ambiente familiar: Há conflitos? Mudanças recentes (mudança, perda de emprego, separação, luto)? Como é a rotina da casa?
  • Escola: Como é a relação com a professora? Já passou por alguma situação de vergonha ou humilhação? Como é a relação com os colegas?

E você?

Já atendeu um caso que parecia X e era Y? Já percebeu que o sintoma estava no sono, na tela ou na casa? Já parou de aplicar instrumentos para poder escutar?

Escreve nos comentários. Ou me manda por e-mail. Casos que não fecham não deveriam ser vividos sozinhos.

Se você quiser enviar seu caso para esta série, escreva para o e-mail do blog com o assunto “Casos que Não Fecham”. Todos os dados serão anonimizados e publicados somente com sua autorização.

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