NeuropsicopedagogiaPsicopedagogia

Seletividade Alimentar ou um Sintoma Mascarado? O Perigo de Confundir um Paladar Restrito com um Transtorno do Neurodesenvolvimento

Por: Daliane Oliveira
Psicopedagoga e Cientista — Uma Sherlock Holmes da Aprendizagem

Olá Colegas hoje vamos continuar aprendendo sobre o 2º Eixo: Alimentação do Protocolo Homes Oliver – desenvolvido por mim Pp. Daliane Oliveira após 20 anos de estudos, pesquisas e muita dedicação com aplicação na prática com Crianças e Adolescentes na África do Sul/Kênia e vários estados do Brasil. Vou compartilhar com vocês minhas experiências e um modo eficiente de identificar, Avaliar e Intervir em nossas analises profissionais. Vamos nessa 🙂


O Primeiro Atendimento: Quando a Mãe Já Tinha Todas as Respostas

A pequena Sofia, 6 anos, entrou no consultório de mãos dadas com a mãe, mas com o olhar fixo no chão. Não cumprimentou, não olhou ao redor, não demonstrou qualquer interesse pelos brinquedos da sala de espera.

A mãe, Fernanda, sentou-se e começou a falar antes mesmo de eu formular a primeira pergunta.

“Dra., eu já pesquisei muito. A Sofia tem sinais claros de TEA. Ela não come quase nada, só arroz, macarrão sem molho, frango empanado e iogurte de morango. Se misturar o feijão com o arroz, ela não come. Se colocar um vegetal no prato, ela tem crise. A escola disse que ela é muito na dela, não interage, fica isolada. Já li que autistas têm seletividade alimentar. A senhora pode confirmar meu diagnóstico?”

Fernanda era uma mãe-investigadora, dessas que passam noites lendo, participam de grupos em redes sociais, já decoraram os critérios do DSM-5. Ela não veio buscar respostas — veio buscar validação.

E ali começava o meu trabalho de detetive: separar os fatos das conclusões precipitadas.


A Investigação: O Que Estava Por Trás do Paladar Restrito de Sofia

Comecei ouvindo Sofia. Não com perguntas diretas, mas observando. Enquanto a mãe falava, Sofia pegou um livro de figuras e folheou rapidamente, sem se deter em nenhuma página. Depois largou o livro e ficou olhando para as próprias mãos.

“Ela sempre foi assim?”, perguntei.

“Não, dra. Até os 2 anos, ela comia de tudo. Mamava bem, comeu frutas, verduras, tudo. Depois de uma broncopneumonia grave, com internação, ela voltou diferente. Parou de comer. E foi piorando com o tempo.”

A informação acendeu um alerta. Histórias de seletividade alimentar que surgem após um evento traumático (como uma internação, um episódio de engasgo, uma intoxicação) seguem uma pista diferente do TEA, cujos sinais costumam estar presentes desde os primeiros anos de vida .

Continuei investigando.

“E a interação social? Ela sempre foi isolada?”

“Na verdade, antes ela era mais sociável. Tinha amiguinhos na escola, fazia aniversário com festa. Depois que começou a ter crises na hora de comer, a gente parou de ir a festas, de viajar, de almoçar fora. Ela começou a ficar mais ansiosa, mais retraída. Acho que foi por causa do isolamento.”

Outra peça importante: o isolamento social de Sofia parecia ser consequência da seletividade alimentar, não causa. A família, para evitar o sofrimento da criança e o constrangimento social, reduziu as saídas. E Sofia, privada dessas experiências, foi perdendo habilidades sociais .


O Que a Ciência Revela: Seletividade Alimentar não é Exclusividade do TEA

Vamos colocar os óculos de cientista e entender o que a literatura médica diz sobre esse tema.

O que é Seletividade Alimentar?

A seletividade alimentar é uma alteração no comportamento alimentar em que a pessoa resiste a experimentar novos alimentos (novofobia), fica angustiada quando encorajada a comer alimentos diferentes e pode apresentar náusea ou vômito ao se deparar com a necessidade de comer novos alimentos .

A pessoa pode selecionar alimentos por cor, textura, cheiro ou aspecto. Por exemplo, crianças que rejeitam todos os alimentos da cor vermelha ou todos de textura pastosa. Às vezes, a própria disposição do alimento interfere: se o ovo for colocado por cima do arroz, a criança não come; se misturar arroz com feijão, ela recusa .

TARE (ARFID): O Diagnóstico que Explica Casos como o de Sofia

Em 2013, o DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais) introduziu uma nova categoria diagnóstica: o Transtorno Alimentar Restritivo/Evitativo (TARE) , conhecido internacionalmente como ARFID (Avoidant Restrictive Food Intake Disorder) .

O TARE é caracterizado pelo fracasso persistente em satisfazer as necessidades nutricionais e/ou energéticas, associado a um ou mais dos seguintes critérios :

  1. Perda de peso significativa (ou insucesso em obter o ganho de peso esperado)
  2. Deficiência nutricional significativa
  3. Dependência de alimentação enteral ou suplementos nutricionais
  4. Interferência marcante no funcionamento psicossocial

Critérios de exclusão fundamentais: O transtorno não é explicado por indisponibilidade de alimento ou prática cultural, não ocorre durante curso de anorexia ou bulimia, e não há alterações na imagem corporal .

Os Três Subgrupos do TARE

A literatura descreve três subgrupos com características distintas :

SubgrupoCaracterísticaExemplo
Grupo IRecusa por pouco apetite ou desinteresse por alimentoCriança que “esquece” de comer, não sente fome, come muito pouco
Grupo IIRecusa devido a propriedades sensoriais do alimentoRecusa por cor, textura, cheiro, temperatura — o caso de Sofia
Grupo IIIRecusa por medo das consequências negativasMedo de engasgar, vomitar, ter dor após comer (geralmente após evento traumático)

Sofia se encaixava perfeitamente no Grupo II: sua recusa alimentar era secundária a questões sensoriais, agravadas após a internação traumática.

A Relação com o TEA: O Que os Estudos Dizem

É verdade que existe associação entre TEA e seletividade alimentar. Crianças com TEA apresentam grande incidência de alterações de processamento sensorial, o que explica a recusa alimentar por texturas, cores e cheiros . Estima-se que pessoas com TEA tenham 5 vezes mais chance de desenvolver TARE quando comparadas com pares sem o transtorno .

No entanto, é igualmente verdade que:

  1. Nem toda seletividade alimentar é TEA — o TARE pode ocorrer em pessoas sem qualquer transtorno do neurodesenvolvimento .
  2. A seletividade alimentar pode mimetizar sintomas de TEA, especialmente em crianças pequenas, levando a diagnósticos precipitados.
  3. O TARE pode causar deficiências nutricionais que, por sua vez, prejudicam o desenvolvimento cerebral, criando um ciclo vicioso que agrava dificuldades sociais e cognitivas .

O Disfarce: Como a Seletividade Alimentar Pode Simular TEA

A confusão diagnóstica acontece porque os sintomas se sobrepõem perigosamente.

Comportamentos que podem ser Confundidos

ComportamentoPode ser TEAPode ser TARE com Consequências Nutricionais
Isolamento socialDificuldade inata de interaçãoA família evita eventos sociais por vergonha ou para não expor a criança; a criança perde prática social 
IrritabilidadeDisregulação emocional do TEADeficiência de zinco e ferro afeta neurotransmissores, causando irritabilidade 
Dificuldade de concentraçãoSintoma central do TEADesnutrição proteico-calórica reduz número de neurônios e prejudica atenção 
Baixo rendimento escolarPode estar associado ao TEADeficiências de vitaminas do complexo B, ferro e zinco comprometem cognição 
Comportamento ritualísticoRigidez cognitiva do TEAA criança desenvolve rituais alimentares como mecanismo de defesa contra a ansiedade 

O Efeito Cascata: Quando a Seletividade Alimentar Causa Déficits Secundários

Este é o ponto central da investigação: a seletividade alimentar severa pode causar deficiências nutricionais tão graves que passam a produzir sintomas neurológicos secundários .

A tabela abaixo, baseada em literatura especializada, mostra o que acontece :

Nutriente DeficienteConsequência NeurológicaSintoma Observado
Energia totalDéficit mental em criançasAtraso cognitivo global
FerroDesenvolvimento mental alentecidoDificuldade de aprendizagem
ZincoDesenvolvimento motor alentecido, depressãoAtraso motor, apatia
Vitaminas B6, B12, FolatosDisfunções cognitivas, neuropatiasLentidão de raciocínio, fadiga
IodoCretinismo, baixo rendimento intelectualDéficit cognitivo severo

O encéfalo constitui apenas 2% da massa corpórea, mas consome 20 a 25% da energia do organismo. A má alimentação na infância reduz a quantidade de neurônios encefálicos .

Traduzindo: uma criança com seletividade alimentar severa pode, com o tempo, desenvolver déficits cognitivos secundários à desnutrição, que serão interpretados como parte de um transtorno do neurodesenvolvimento.


O Sofrimento Invisível: O Impacto Psicossocial do TARE

Um dos aspectos mais marcantes do TARE é a interferência no funcionamento psicossocial .

A alimentação é, culturalmente, uma das principais formas de socialização. Crianças com TARE ficam impossibilitadas de participar de eventos em família ou entre amigos: festas de aniversário (onde o bolo e os salgadinhos são centrais), almoços de domingo, viagens, passeios escolares .

O resultado é um isolamento progressivo que :

  • Impacta as relações sociais
  • Gera sofrimento emocional na criança
  • Causa ansiedade intensa nos pais
  • Pode levar a problemas de autoestima e imagem corporal (mesmo não sendo a causa primária)

O Dr. Mauro Fisberg, pediatra e nutrólogo coordenador do Centro de Excelência em Nutrição e Dificuldades Alimentares (CENDA), alerta para o sofrimento dos pais que têm crianças que não comem — um sofrimento real, intenso, e muitas vezes invisível para os profissionais de saúde .


A Reviravolta: Quando o Diagnóstico Correto Mudou Tudo

Com base na história de Sofia — seletividade alimentar de início após evento traumático, sem outros marcos de desenvolvimento alterados nos primeiros anos —, sugeri uma abordagem diferente.

Primeiro, encaminhei para uma equipe multidisciplinar especializada em seletividade alimentar, composta por :

  • Nutricionista infantil: para avaliar deficiências e iniciar suplementação
  • Terapeuta ocupacional: especialista em integração sensorial
  • Fonoaudiólogo: para avaliar motricidade oral
  • Psicólogo: para trabalhar a ansiedade alimentar

Segundo, pedi exames para investigar deficiências nutricionais. O resultado mostrou:

  • Ferro e zinco: no limite inferior (já impactando cognição)
  • Vitamina B12: baixa (comprometendo energia e humor)
  • Estado nutricional geral: abaixo do ideal para idade

Iniciamos a intervenção:

  1. Suplementação nutricional para corrigir deficiências
  2. Terapia de integração sensorial para dessensibilização gradual
  3. Terapia alimentar com exposição gradual e positiva
  4. Orientação parental para manejo das refeições em casa

Três meses depois, Sofia era outra criança.

Sua irritabilidade diminuiu — agora sabemos que era a deficiência de zinco. Sua energia aumentou — a B12 fazia falta. Sua atenção melhorou — o ferro voltou aos níveis adequados. E, mais importante: com a melhora da alimentação, a família voltou a sair, a frequentar festas, a viver socialmente. E Sofia, exposta a mais interações, desenvolveu habilidades sociais que antes estavam atrofiadas.

Sofia não tinha TEA. Sofia tinha TARE, e o TARE estava causando deficiências nutricionais que simulavam sintomas de TEA.


O Guia do Detetive: Como Diferenciar TARE de TEA

Para você, profissional ou pai/mãe que suspeita que a seletividade alimentar pode estar mascarando um quadro mais simples (ou mais complexo), elaborei um guia de investigação.

1. Observe a História do Início

Perguntas-chave:

  • A seletividade alimentar sempre existiu ou começou após algum evento (internação, engasgo, doença)?
  • Os marcos do desenvolvimento (sorriso social, contato visual, linguagem) estavam adequados nos primeiros anos?
  • Existe história de problemas gastrointestinais precoces (refluxo, cólicas intensas, alergias)?

Pista de TARE: início após evento traumático, desenvolvimento inicial típico .

Pista de TEA: sinais presentes desde os primeiros meses, atraso em múltiplos marcos .

2. Observe o Padrão da Recusa

O TARE (Grupo II) é caracterizado por recusa baseada em propriedades sensoriais :

  • Textura (só alimentos crocantes, ou só pastosos)
  • Cor (só alimentos brancos/amarelos)
  • Temperatura (só frios, ou só quentes)
  • Marca/embalagem específica
  • Modo de apresentação (não pode misturar)

3. Investigue o Impacto Nutricional

Crianças com TARE podem apresentar :

  • Perda de peso ou baixo ganho ponderal
  • Deficiências nutricionais específicas (ferro, zinco, B12)
  • Dependência de suplementos para sobreviver

Atenção: Essas deficiências, uma vez instaladas, produzem sintomas neurológicos que podem ser confundidos com transtornos .

4. Observe o Componente Ansioso

Crianças com TARE frequentemente apresentam :

  • Reações intensas de nojo, ansiedade ou pânico diante de novos alimentos
  • Medo de engasgar, vomitar ou sentir dor
  • Ansiedade antecipatória em situações que envolvem comida

5. Avalie a Presença ou Ausência de Distorção de Imagem

Diferentemente da anorexia nervosa, no TARE não há distorção da imagem corporal. Os pacientes têm consciência do baixo peso e, em muitos casos, desejam ganhar peso .

6. Peça os Exames Certos

Antes de fechar qualquer diagnóstico de transtorno do neurodesenvolvimento em criança com seletividade alimentar severa, investigue:

  • Hemograma completo
  • Ferritina
  • Zinco sérico
  • Vitamina B12
  • Folato
  • Vitamina D
  • Avaliação do estado nutricional (curvas de crescimento)

7. Encaminhe para Equipe Multidisciplinar

O tratamento do TARE exige olhar multiprofissional :

ProfissionalAtuação
NutricionistaAvaliação nutricional, suplementação, orientação dietética
Terapeuta OcupacionalIntegração sensorial, dessensibilização
FonoaudiólogoMotricidade oral, mastigação, deglutição
PsicólogoAnsiedade, terapia comportamental
Pediatra/NutrólogoCoordenação do caso, supervisão clínica

A Prevenção: Como Evitar que Outros Casos Passem Despercebidos

A seletividade alimentar é mais comum do que se imagina. Estudos populacionais mostram prevalência de 3,2% de TARE em crianças entre 8 e 13 anos, com predomínio do subtipo sensorial (60,9%) .

Em serviços de gastroenterologia infantil, a prevalência chega a 1,5%, sendo 67% dos casos do sexo masculino .

Fatores de Risco para TARE 

  • História pregressa de condições médicas gastrointestinais (refluxo, alergias)
  • Eventos traumáticos relacionados à alimentação (engasgo, internação)
  • Transtornos do neurodesenvolvimento (TEA, TDAH) — mas não exclusivamente
  • Transtornos de ansiedade

Quando Procurar Ajuda

Segundo especialistas do Hospital das Clínicas da USP, a seletividade alimentar deve ser tratada assim que começa a aparecer. Se não houver intervenção precoce adequada, pode se intensificar e se perpetuar na vida adulta .

Sinais de alerta incluem :

  • Reações intensas de nojo, ansiedade ou pânico diante de alimentos
  • Ingestão muito restrita ou ausente de grupos alimentares inteiros
  • Forte preferência ou aversão por texturas, cores ou odores específicos
  • Baixo crescimento ou perda de peso

A Conclusão do Caso

Sofia passou meses sendo observada por uma mãe atenta que, baseada em informações da internet, concluiu que a filha tinha TEA. A escola já olhava para a menina com desconfiança. O isolamento social crescia. E ninguém havia perguntado: e se a seletividade alimentar não for um sintoma, mas a causa de tudo?

O caso de Sofia nos ensina uma lição fundamental: antes de rotular uma criança com um transtorno do neurodesenvolvimento baseado na seletividade alimentar, investigue se essa seletividade não é, ela própria, um transtorno primário — o TARE.

E mais: investigue se as deficiências nutricionais causadas pela seletividade não estão, elas mesmas, produzindo sintomas neurológicos que simulam o transtorno que se suspeita.

A seletividade alimentar é uma das grandes imitadoras dos transtornos do neurodesenvolvimento. Ela se veste de TEA, de TDAH, de transtorno de ansiedade, e engana profissionais experientes — e mães amorosas que só querem o melhor para seus filhos.

Como psicopedagoga e cientista, meu papel é desmascarar esses impostores. Porque atrás de cada criança chamada de “estranha” ou “isolada” pode haver um cérebro faminto pelos nutrientes que precisa para se desenvolver — e uma família que precisa de orientação, não de rótulos.


Para Saber Mais: Referências Científicas

  • Almeida, M.M.M.S., et al. (2022). Transtorno alimentar restritivo evitativo/ARFIRD: o que é esse transtorno alimentar? Residência Pediátrica, 12(2). 
  • Teixeira, M.J., et al. (2017). Nutrição em doenças neurológicas. In: Waitzberg, D.L. Nutrição Oral, Enteral e Parenteral na Prática Clínica. Rio de Janeiro: Atheneu. 
  • Hospital das Clínicas da USP. (2025). Seletividade alimentar: o que é, sinais e como tratar. 
  • Stimular Clínica Multidisciplinar. (2025). Tratamento da Seletividade Alimentar na Stimular: Abordagem Multidisciplinar. 
  • Drauzio Varella. (2025). Distúrbios alimentares na infância podem impactar o desenvolvimento ao longo da vida. 
  • Cassimiro Marques, S. Seletividade alimentar e TEA. Incantata Psicologia. 

E você, já pensou quantos casos de “suspeita de TEA” podem ser, na verdade, gritos de um cérebro subnutrido por uma seletividade alimentar não tratada? Compartilhe este post com outros detetives da aprendizagem e vamos espalhar essa investigação.

No próximo caso: “A Conexão Intestino-Cérebro: Quando a Disbiose e a Má Absorção de Nutrientes Criem um Quadro de ‘Pseudodislexia'”

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *