“O Cérebro Inflamado: Como o Consumo Excessivo de Açúcar e Ultraprocessados Pode Mimetizar Sintomas de Ansiedade e Déficit de Atenção”
Por: Daliane Oliveira
Psicopedagoga e Cientista — Uma Sherlock Holmes da Aprendizagem
Olá Colegas hoje vamos continuar aprendendo sobre o 2º Eixo: Alimentação do Protocolo Homes Oliver – desenvolvido por mim Pp. Daliane Oliveira após 20 anos de estudos, pesquisas e muita dedicação com aplicação na prática com Crianças e Adolescentes na África do Sul/Kênia e vários estados do Brasil. Vou compartilhar com vocês minhas experiências e um modo eficiente de identificar, Avaliar e Intervir em nossas analises profissionais. Vamos nessa 🙂
O Mistério Chega ao Consultório
Quando conheci Júlia, 14 anos, suas mãos não paravam quietas. Elas giravam um anel no dedo, depois batucavam na mesa, depois puxavam uma mecha do cabelo. Seus olhos, grandes e expressivos, percorriam a sala como se procurassem uma saída de emergência.
A mãe, Carla, sentou-se ao lado da filha com a expressão de quem já percorreu um longo calvário. “Ela não consegue mais ir para a escola. Tem crise de ansência quase todo dia. Já levamos em psiquiatra, psicóloga, e o diagnóstico é transtorno de ansiedade generalizada. Começou um remédio, mas estamos com medo porque ela só tem 14 anos.”
Júlia foi diagnosticada com transtorno de ansiedade generalizada aos 13 anos. Tomava escitalopram há seis meses, mas os sintomas persistiam: taquicardia antes das provas, insônia, irritabilidade, crises de choro sem motivo aparente. A escola, que antes era um lugar onde ela se destacava, tornou-se um território hostil.
“A psiquiatra disse que é genético, que ela vai precisar de medicação por muito tempo”, completou a mãe.
Eu ouvia atentamente, mas meu olhar de detetive já percorria outros caminhos. Júlia era uma menina de corpo magro, mas com uma característica que me chamou atenção: a pele oleosa, com acne inflamada, e um cansaço que transparecia mesmo nos momentos em que ela tentava parecer bem.
“Júlia, me conta uma coisa: o que você costuma comer durante o dia?”
Ela olhou para a mãe, depois para mim. “De manhã, não dá tempo, tomo um iogurte daqueles de garrafinha ou como uma barra de cereal. Na escola, compro um refrigerante e um salgadinho na cantina. Almoço em casa, mas como pouco. À tarde, mais refrigerante, e à noite como alguma coisa enquanto veio TV, tipo biscoito ou chocolate.”
A mãe complementou: “Ela vive pedindo ifood também. Delivery de hambúrguer, pizza, essas coisas.”
Foi ali que as peças começaram a se encaixar. Júlia não tinha apenas um transtorno de ansiedade. Júlia tinha um cérebro inflamado por uma dieta que era um verdadeiro combustível para o fogo silencioso que consumia sua saúde mental.
A Investigação: O Que a Ciência Revela Sobre Açúcar, Inflamação e Ansiedade
Vamos colocar os óculos de cientista e mergulhar nos mecanismos que explicam como o açúcar e os ultraprocessados podem sequestrar o cérebro de uma criança ou adolescente.
A Descoberta Alarmante de 2026
Em fevereiro de 2026, uma revisão sistemática com meta-análise publicada no Journal of Human Nutrition and Dietetics trouxe um alerta que deveria estar em todas as salas de aula e consultórios do país .
Pesquisadores da Universidade de Bournemouth, no Reino Unido, analisaram estudos publicados entre 2000 e 2025 com adolescentes de 10 a 19 anos. A conclusão foi estarrecedora:
Adolescentes que consomem bebidas açucaradas regularmente têm 34% mais risco de desenvolver transtornos de ansiedade .
Dos nove estudos analisados, sete encontraram associação positiva significativa entre o consumo dessas bebidas e sintomas de ansiedade. E mais: os dois estudos que acompanharam os adolescentes por um ano identificaram que o consumo inicial de bebidas açucaradas estava associado a sintomas de ansiedade no futuro — um efeito persistente ao longo do tempo .
A Dra. Chloe Casey, coautora do estudo, destacou um ponto crucial: “A maioria das iniciativas de saúde pública tem enfatizado as consequências físicas de maus hábitos alimentares, como obesidade e diabetes tipo 2. No entanto, as implicações da dieta para a saúde mental têm sido pouco exploradas” .
Mas o que explica essa associação? Como o açúcar pode causar ansiedade?
O Mecanismo: Inflamação Cerebral e Ansiedade
A inflamação é um mecanismo natural de defesa do nosso organismo. Ela nos ajuda a combater infecções e cicatrizar ferimentos . No entanto, quando a inflamação se torna crônica e silenciosa, ela deixa de ser protetora e passa a ser destrutiva, danificando gradualmente células, tecidos e órgãos .
O excesso de açúcares e farinha branca na dieta leva a um descontrole nos mediadores inflamatórios, gerando um estado inflamatório crônico . E esse estado inflamatório afeta diretamente o cérebro.
Como o açúcar inflama o cérebro:
A pesquisa sugere que existe uma forte relação entre o alto consumo de açúcar, comportamentos alterados e má regulação emocional. Embora a ingestão de açúcar possa melhorar o humor momentaneamente, o consumo crônico tem sido associado ao aumento do risco de problemas de saúde mental .
O Efeito no Cérebro em Desenvolvimento
O cérebro de crianças e adolescentes está em pleno desenvolvimento. Apesar de representar apenas 2% do peso do corpo humano, ele consome cerca de 20% de toda a energia que produzimos — e esse número é ainda maior durante a infância e adolescência .
Quando uma criança ou adolescente consome excesso de açúcar, o impacto no cérebro em desenvolvimento é ainda mais severo:
- Prejuízo na aprendizagem e memória: Estudos em animais de laboratório sugerem que o alto consumo de açúcar prejudica a aprendizagem e a memória. A ingestão diária de bebidas açucaradas durante a adolescência está associada a pior desempenho em tarefas de aprendizagem e memória na idade adulta .
- Alterações na microbiota intestinal: Pesquisadores sugerem que esses déficits podem ser devidos a alterações nas bactérias intestinais causadas pelo açúcar .
- Impacto no QI: Um estudo com 1.300 crianças europeias revelou que aquelas com alta ingestão de fast food tiveram 10% menos pontuação em testes de QI .
O Papel dos Aditivos Químicos
Além do açúcar, os alimentos ultraprocessados contêm uma série de aditivos químicos que também afetam o cérebro:
A professora Lina Begdache, cientista da nutrição com foco em neurociência da Universidade Binghamton, resume: “Considerando o crescente conjunto de evidências, a doçura aparentemente irresistível do açúcar pode traduzir-se num resultado amargo para o cérebro em desenvolvimento” .
O Caso de Júlia: A Reviravolta
Com base no histórico alimentar de Júlia, sugeri à mãe que fizéssemos uma investigação mais aprofundada. Pedi exames de sangue com marcadores inflamatórios e, se possível, uma avaliação com nutricionista especializada.
Os exames revelaram:
- PCR (Proteína C Reativa): elevada, indicando processo inflamatório sistêmico
- Glicemia de jejum: normal, mas com picos pós-prandiais (após as refeições) sugestivos de instabilidade
- Vitamina D: baixa (importante para regulação inflamatória)
- Zinco sérico: 68 mcg/dL (no limite inferior)
Encaminhei Júlia a uma nutróloga, que propôs um plano de intervenção:
- Redução drástica de açúcares e ultraprocessados: especialmente refrigerantes, salgadinhos e fast food.
- Aumento de alimentos anti-inflamatórios: peixes ricos em ômega-3 (salmão, sardinha), frutas vermelhas, vegetais verde-escuros, castanhas, cúrcuma e gengibre .
- Suplementação direcionada: ômega-3, vitamina D e zinco, por um período inicial.
- Acompanhamento psicológico mantido, mas com foco também nas mudanças alimentares.
Três meses depois, a transformação era visível. Júlia entrou no consultório com um sorriso, a pele mais limpa, os olhos mais tranquilos. A mãe não cabia em si de contentamento:
“As crises diminuíram muito. Ela voltou para a escola, está conseguindo acompanhar. A psiquiatra até reduziu a dose do remédio. E o mais incrível: ela mesma diz que percebe quando come alguma coisa muito doce, porque no dia seguinte fica mais irritada. Ela está aprendendo a se conhecer.”
Júlia não tinha apenas um transtorno de ansiedade. Júlia tinha um cérebro inflamado por uma dieta que a ciência já comprovou estar associada a 34% mais risco de ansiedade .
O Disfarce Perfeito: Sintomas de Ansiedade que Podem ser Nutricionais
A ansiedade é real, e os transtornos de ansiedade são condições sérias que afetam milhões de crianças e adolescentes. Em 2023, estimou-se que uma em cada cinco crianças e jovens apresentava algum transtorno mental, sendo a ansiedade uma das condições mais relatadas .
No Brasil, a população jovem lidera as internações por causa de saúde mental: 579,5 casos por 100 mil habitantes, segundo levantamento da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) .
Mas o que a ciência está nos mostrando é que, em muitos casos, a alimentação pode estar alimentando o fogo da ansiedade, criando sintomas que imitam perfeitamente os transtornos psiquiátricos ou agravando quadros pré-existentes.
Sintomas que podem ser Influenciados pela Dieta
| Sintoma | Pode ser Ansiedade… | …Ou Pode ser Inflamação por Açúcar? |
|---|---|---|
| Taquicardia antes de provas | Resposta ao estresse antecipado | Picos glicêmicos seguidos de quedas bruscas (hipoglicemia reativa) causam liberação de adrenalina |
| Insônia | Preocupações excessivas | Açúcar à noite causa instabilidade glicêmica, prejudicando o sono |
| Irritabilidade constante | Hiperexcitação do sistema nervoso | Inflamação cerebral afeta regulação emocional |
| Crises de choro sem motivo aparente | Desregulação emocional | Neurotransmissores desequilibrados por falta de nutrientes e excesso de toxinas |
| Dificuldade de concentração | Sintoma clássico de ansiedade | Cérebro inflamado processa informações mais lentamente |
| Fadiga | Desgaste emocional | Inflamação consome energia que deveria ser usada para funções cognitivas |
A pesquisadora Chloe Casey alerta: “Embora não possamos confirmar nesta fase qual é a causa direta, este estudo identificou uma ligação preocupante entre o consumo de bebidas açucaradas e transtornos de ansiedade em jovens” .
E a via pode ser de mão dupla: jovens que já sofrem com sintomas de ansiedade podem buscar consumir mais bebidas açucaradas para lidar com o problema, criando um ciclo vicioso .
O Eixo Intestino-Cérebro: A Conexão que Explica Tudo
Um dos campos mais fascinantes da neurociência moderna é o estudo do eixo intestino-cérebro. A microbiota intestinal, constituída por bilhões de microrganismos, comunica-se com o cérebro através de vias nervosas e metabólicas, influenciando diretamente o desenvolvimento do sistema nervoso e a regulação emocional .
Como o Intestino Influencia o Cérebro
- Produção de neurotransmissores: Cerca de 90% da serotonina (o neurotransmissor do bem-estar) é produzida no intestino. Um intestino saudável produz serotonina adequadamente; um intestino inflamado, não .
- Barreira intestinal: Alimentos ultraprocessados danificam a parede intestinal, causando um fenômeno chamado “aumento da permeabilidade intestinal” ou “intestino permeável”. Isso permite que toxinas entrem na corrente sanguínea e cheguem ao cérebro .
- Inflamação sistêmica: Um intestino doente gera inflamação que afeta todo o corpo, inclusive o cérebro.
Alimentos que Curam o Intestino (e o Cérebro)
A alimentação anti-inflamatória é baseada em alimentos que promovem a saúde intestinal e reduzem a inflamação cerebral :
Estudos demonstram que probióticos e prebióticos têm potencial para melhorar o desenvolvimento cognitivo e emocional, regulando a microbiota e reduzindo a inflamação .
O Guia do Detetive: Como Investigar a Inflamação Cerebral por Alimentação
Para você, profissional ou pai/mãe que suspeita que a ansiedade ou os sintomas de desatenção podem ter raízes nutricionais, elaborei um guia prático.
1. Observe os Sinais Físicos
A inflamação crônica deixa marcas no corpo. Observe se a criança/adolescente apresenta:
- Pele oleosa, acne inflamada (especialmente em adolescentes)
- Olheiras profundas (mesmo dormindo adequadamente)
- Cansaço constante, falta de disposição
- Ganho de peso ou dificuldade para emagrecer
- Queda de cabelo, unhas fracas
- Infecções frequentes (imunidade baixa)
- Problemas digestivos (gases, intestino preso ou solto)
2. Investigue a História Alimentar
Pergunte detalhadamente sobre o consumo diário:
- Bebe refrigerante ou suco de caixinha? Quantas vezes por semana?
- Come salgadinhos, biscoitos recheados, fast food? Com que frequência?
- Toma café da manhã adequadamente ou “pula” refeições?
- Consome frutas, verduras e legumes diariamente?
- Come peixes ricos em ômega-3?
- Bebe água ou substitui por bebidas açucaradas?
3. Observe o Padrão dos Sintomas
- Os sintomas pioram depois de finais de semana ou festas (quando o consumo de açúcar aumenta)?
- Há relação entre o que a criança come e como ela se sente emocionalmente?
- A criança tem “fissura” por doces ou ultraprocessados? (pode ser sinal de desequilíbrio)
4. Peça os Exames Certos
- Hemograma completo (avalia anemia e infecções)
- PCR (Proteína C Reativa) ou VHS (marcadores inflamatórios)
- Glicemia e insulina em jejum (avalia resistência à insulina)
- Vitamina D (importante para regulação inflamatória)
- Zinco sérico (deficiência comum)
- Perfil lipídico completo
5. Trabalhe em Rede
O psicopedagogo não trata a inflamação, mas pode levantar a suspeita e encaminhar para:
- Nutricionista (para reeducação alimentar)
- Nutrólogo ou endocrinologista (para avaliação e suplementação)
- Psiquiatra (se a medicação for necessária, mas com olhar também para a dieta)
O Que a Ciência Recomenda: Uma Dieta Anti-inflamatória para o Cérebro
O Children’s Hospital da Philadelphia (CHOP), um dos maiores centros de tratamento para crianças nos Estados Unidos, publicou recomendações para uma dieta anti-inflamatória infantil baseada na combinação das dietas mediterrânea e asiática .
Princípios Básicos
- Comida de verdade, quanto menos industrializado, melhor
- Aumentar consumo de gorduras boas: castanhas e suas pastas, peixes, abacate, nozes, sementes
- Incluir proteínas vegetais e animais de qualidade
- Carboidratos de baixo índice glicêmico: grãos integrais, legumes
- Frutas, verduras e legumes muito coloridos
- Alimentação com atenção plena: comer devagar, sem distrações
Alimentos para Incluir
Alimentos para Evitar
- Refrigerantes, sucos de caixinha, bebidas energéticas
- Salgadinhos de pacote, biscoitos recheados, fast food
- Açúcar refinado, doces industrializados
- Carnes processadas (salsicha, linguiça, bacon, presunto)
- Farinha branca e carboidratos refinados
A Conclusão do Caso
Júlia passou meses sendo tratada exclusivamente com medicação para ansiedade. Sua família ouviu que o transtorno era genético, que ela precisaria de remédios por muito tempo, que a culpa era do cérebro dela.
Mas Júlia não tinha apenas um transtorno de ansiedade. Júlia tinha um cérebro inflamado por uma dieta que a ciência já comprovou estar associada a 34% mais risco de ansiedade.
Seu cérebro não conseguia se acalmar porque a amígdala, a central do medo, estava superativada pelo excesso de açúcar. Sua serotonina não era produzida adequadamente porque seu intestino, inflamado pelos ultraprocessados, não dava conta do recado. Suas emoções oscilavam porque seus neurotransmissores estavam desequilibrados por falta de nutrientes e excesso de toxinas.
Este caso nos ensina uma lição fundamental: antes de aceitar que um transtorno de ansiedade é apenas “genético” ou “químico”, investigue se o cérebro dessa criança ou adolescente não está, literalmente, em chamas.
A inflamação cerebral por má alimentação é uma das grandes imitadoras dos transtornos psiquiátricos. Ela se veste de ansiedade, de depressão, de déficit de atenção, e engana profissionais experientes que não olham para o prato.
Como psicopedagoga e cientista, meu papel é desmascarar esses impostores. Porque atrás de cada adolescente chamado de “ansioso” ou “desatento” pode haver um cérebro pedindo socorro — um socorro que começa no intestino e termina na regulação emocional.
Para Saber Mais: Referências Científicas
- Khaled, K., et al. (2026). “Sugar-sweetened beverages and anxiety disorders in adolescents: A systematic review and meta-analysis.” Journal of Human Nutrition and Dietetics.
- Begdache, L. (2025). “How does excess sugar affect the developing brain throughout childhood and adolescence?” The Conversation.
- Children’s Hospital of Philadelphia (CHOP). “Anti-Inflammatory Diet for Children.”
- São Camilo. “Impacto da alimentação ultraprocessada no desenvolvimento cognitivo infantil.”
- Cohen Kadosh, K., et al. (2021). “Nutritional Support of Neurodevelopment and Cognitive Function in Infants and Young Children.” Nutrients.
E você, já pensou quantos casos de “ansiedade” ou “TDAH” podem ser, na verdade, gritos de um cérebro inflamado? Compartilhe este post com outros detetives da aprendizagem e vamos espalhar essa investigação.
No próximo caso: “Seletividade Alimentar ou um Sintoma Mascarado? O Perigo de Confundir um Paladar Restrito com um Transtorno do Neurodesenvolvimento”
