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“Magnésio: O Mineral Calmante — Como Sua Deficiência Pode Mimetizar Hiperatividade e Ansiedade”

Por: Daliane Oliveira
Psicopedagoga e Cientista — Uma Sherlock Holmes da Aprendizagem


O Mistério Chega ao Consultório

A mãe chegou ao consultório com aquele olhar de quem já tinha ouvido de tudo. “Meu filho não para quieto. A escola vive reclamando, disse que ele tem TDAH, que precisa de medicação. Mas eu não quero medicar sem ter certeza.”

O menino, 8 anos, não parava quieto na cadeira. Mexia as pernas, batucava na mesa, levantava para pegar um brinquedo, sentava, levantava de novo. Hiperatividade em estado puro.

Mas algo chamou minha atenção. A cada poucos minutos, ele reclamava: “Mãe, minha perna está doendo.” E esfregava a panturrilha. Em outro momento: “Mãe, meu olho está tremendo.” A pálpebra esquerda realmente tremia.

Perguntei à mãe: “Ele sempre tem essas queixas?”

“Tem. Principalmente à noite. Diz que as pernas não deixam ele dormir, que precisa ficar mexendo. Já levei em ortopedista, fizemos exames, tudo normal. Disseram que é ‘dor do crescimento’.”

Comecei minha investigação pela alimentação.

“O que ele costuma comer durante o dia?”

“Café da manhã: leite com achocolatado e pão com manteiga. Na escola, come o lanche que a gente manda: biscoito, suco de caixinha, salgadinho. Almoço: arroz, feijão, frango empanado, purê de batata. À tarde, mais biscoito. Jantar: repete o almoço. Fruta? Só banana de vez em quando. Verdura? Não gosta.”

Uma dieta rica em carboidratos refinados, pobre em vegetais verde-escuros, legumes e oleaginosas. O padrão se repetia: uma criança hiperativa, com cãibras, tremores nas pálpebras, pernas inquietas à noite. Todos os sinais apontavam para um suspeito: magnésio.


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A Investigação: O Mineral Calmante

O magnésio é um mineral essencial, participante de mais de 300 reações enzimáticas no organismo . No cérebro, ele tem um papel fundamental: atua como um “calmante natural”, regulando a excitabilidade dos neurônios.

O Mecanismo: Como o Magnésio Age no Cérebro

O magnésio regula os receptores NMDA, estruturas cerebrais que controlam a entrada de cálcio nos neurônios. Quando há deficiência de magnésio, esses receptores ficam hiperexcitáveis, permitindo entrada excessiva de cálcio .

O resultado:

  • Neurônios “disparam” mais do que deveriam
  • O cérebro fica em estado de alerta constante
  • A criança não consegue relaxar, mesmo quando quer

O Papel na Hiperatividade

A literatura científica documenta que a deficiência de magnésio está associada a :

SintomaExplicação
Agitação motoraSistema nervoso hiperexcitável
ImpulsividadeDificuldade de frear respostas
IrritabilidadeBaixa tolerância à frustração
Dificuldade de concentraçãoCérebro “disperso” por hiperexcitação
InsôniaIncapacidade de “desligar” à noite

Os Sinais Físicos Inconfundíveis

O magnésio também atua nos músculos. Sua deficiência deixa marcas físicas que são verdadeiras pistas para o detetive atento :

Sinal FísicoDescrição
Cãibras frequentesPrincipalmente à noite, nas panturrilhas
Tremores nas pálpebrasContração involuntária (blefaroespasmo)
Síndrome das pernas inquietasNecessidade imperiosa de mexer as pernas ao deitar
Tensão muscularCriança “dura”, que não relaxa
Dificuldade para dormirLeva horas para pegar no sono
Despertar noturnoAcorda várias vezes durante a noite

O menino do caso apresentava todos esses sinais. E sua dieta era pobre nas principais fontes de magnésio.


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O Disfarce Perfeito

A deficiência de magnésio pode mimetizar diversos transtornos, especialmente TDAH e transtornos de ansiedade .

Sintomas que se Sobrepoem

SintomaParece TDAHParece AnsiedadeÉ Deficiência de Magnésio
Agitação✓ (hiperexcitação neuronal)
Impulsividade✓ (falta de freio inibitório)
Irritabilidade✓ (sistema nervoso instável)
Dificuldade de concentração✓ (cérebro disperso)
Insônia✓ (incapacidade de relaxar)
Tensão muscular✓ (falta de relaxamento)

Estudos Clínicos

Uma revisão publicada na Neural Plasticity destacou que a suplementação de magnésio tem mostrado benefícios em crianças com TDAH, especialmente quando combinada com vitamina B6 .

Pesquisadores sugerem que a deficiência de magnésio pode ser um dos fatores subjacentes aos sintomas de hiperatividade em algumas crianças — não porque tenham TDAH, mas porque seus neurônios estão “superaquecidos” pela falta do mineral calmante.


A Reviravolta

Sugeri à mãe que procurássemos um pediatra para avaliar a possibilidade de deficiência de magnésio. Os exames laboratoriais revelaram:

  • Magnésio sérico: 1,6 mg/dL (valores de referência: 1,7-2,2 mg/dL — no limite inferior)
  • Magnésio eritrocitário: baixo (medida mais sensível do estoque corporal)

O pediatra prescreveu suplementação de magnésio (na forma de bisglicinato, melhor absorvida) e orientações dietéticas.

Quatro semanas depois, a mãe voltou com um relato surpreendente:

“Não acredito. Ele está mais calmo. Não reclama mais das pernas à noite, está dormindo melhor. A professora disse que ele consegue ficar sentado durante a aula. Ainda é um menino ativo, mas não daquele jeito descontrolado. Era só magnésio?”

Não era “só magnésio”. Era um cérebro que finalmente recebia o mineral necessário para regular sua excitabilidade. Era uma criança que seria medicada para TDAH se ninguém tivesse olhado para suas cãibras e tremores.


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O Guia do Detetive

1. Observe os Sinais Físicos

Pergunte e observe:

  • A criança reclama de cãibras frequentes?
  • Tem tremores nas pálpebras ou em outros músculos?
  • Mexe as pernas sem parar à noite (síndrome das pernas inquietas)?
  • Demora para dormir, acorda várias vezes?
  • Tem tensão muscular constante?

2. Investigue a Alimentação

Pergunte sobre o consumo de alimentos ricos em magnésio :

AlimentoTeor de Magnésio
Vegetais verde-escuros (couve, espinafre, brócolis)Alto
Sementes (abóbora, gergelim, girassol)Altíssimo
Castanhas, nozes, amêndoasAlto
Aveia, quinoa, trigo sarracenoMédio
Banana prataMédio
Feijão, lentilha, grão-de-bicoMédio

3. Conheça os Fatores que Aumentam a Perda de Magnésio

  • Refrigerantes (o fósforo compete com o magnésio)
  • Açúcar refinado (aumenta excreção renal)
  • Estresse crônico (aumenta consumo de magnésio)
  • Uso de medicamentos (diuréticos, alguns antibióticos)
  • Atividade física intensa (perda pelo suor)

4. Peça os Exames Certos

  • Magnésio sérico: mede o magnésio no sangue (pode ser normal mesmo com deficiência tecidual)
  • Magnésio eritrocitário: mede o estoque intracelular (mais sensível)
  • Magnésio urinário de 24h: avalia perda excessiva

5. Observe a Relação com o Sono

A insônia é um dos sinais mais precoces de deficiência de magnésio . Crianças que demoram a dormir, acordam várias vezes ou têm sono agitado devem ser investigadas.


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O Papel da Alimentação na Prevenção

Alimentos Campeões em Magnésio

Para incluir no dia a dia:

  1. Sementes de abóbora: 1 colher de sopa tem cerca de 150 mg de magnésio
  2. Amêndoas e castanhas: punhado diário como lanche
  3. Espinafre refogado: 1 concha média tem cerca de 80 mg
  4. Banana prata: 1 unidade média tem cerca de 30 mg
  5. Aveia: 2 colheres de sopa no café da manhã

Estratégias para Crianças Seletivas

  • Sementes de abóbora trituradas podem ser adicionadas a iogurtes, frutas, vitaminas
  • Castanhas podem virar “farinha” para empanar frango ou peixe
  • Espinafre pode ser batido em sucos verdes com frutas doces
  • Aveia pode ser usada em mingaus, panquecas, bolos

A Conclusão

Aquele menino de 8 anos estava prestes a receber um diagnóstico de TDAH e iniciar medicação. Sua hiperatividade era real, seus sintomas preenchiam critérios. Mas algo não se encaixava: as cãibras, os tremores, as pernas inquietas.

Ele não tinha TDAH. Ele tinha um cérebro hiperexcitável pela falta de magnésio. Seus neurônios “disparavam” sem controle porque faltava o mineral que regula os receptores NMDA. Seus músculos doíam porque faltava magnésio para relaxar. Seu sono era ruim porque seu sistema nervoso não conseguia “desligar”.

Este caso nos ensina uma lição fundamental: antes de rotular uma criança com TDAH ou ansiedade, investigue se há sinais físicos de deficiência de magnésio.

O magnésio é um dos grandes imitadores dos transtornos do neurodesenvolvimento. Ele se veste de hiperatividade, de impulsividade, de irritabilidade, e engana profissionais experientes que não olham para as pistas que o corpo oferece.

Como psicopedagoga e cientista, meu papel é desmascarar esses impostores. Porque atrás de cada criança chamada de “hiperativa” ou “ansiosa” pode haver um cérebro pedindo o mineral calmante que precisa para finalmente encontrar paz.


E você, já pensou quantos casos de “hiperatividade” podem ser, na verdade, gritos de um cérebro sem magnésio para se acalmar? Compartilhe este post com outros detetives da aprendizagem e vamos espalhar essa investigação.

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Referências

  • Boyle, N.B., et al. (2017). The Effects of Magnesium Supplementation on Subjective Anxiety and Stress—A Systematic Review. Nutrients, 9(5), 429.
  • Starobrat-Hermelin, B., & Kozielec, T. (1997). The effects of magnesium physiological supplementation on hyperactivity in children with attention deficit hyperactivity disorder (ADHD). Magnesium Research, 10(2), 149-156.
  • Mousain-Bosc, M., et al. (2006). Improvement of neurobehavioral disorders in children supplemented with magnesium-vitamin B6. Magnesium Research, 19(1), 46-52.
  • Mah, J., & Pitre, T. (2021). Oral magnesium supplementation for insomnia in older adults: a systematic review. Sleep Medicine, 79, 29-36.
  • Sociedade Brasileira de Pediatria. (2023). Deficiências de micronutrientes na infância.

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