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O Luto Silencioso” — O impacto do diagnóstico na saúde mental dos pais. – Post 1

O diagnóstico chega!

O diagnóstico de um transtorno do neurodesenvolvimento — seja ele Transtorno do Espectro Autista (TEA), Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) ou um transtorno específico de aprendizagem — raramente chega sozinho.

Ele chega acompanhado de um turbilhão que poucos descrevem. Não há como transmitir a experiência de ouvir que seu filho tem uma condição que o acompanhará pela vida inteira. A literatura especializada tem documentado consistentemente que a descoberta de um diagnóstico como TEA, TDAH ou transtorno de aprendizagem afeta profundamente o cotidiano familiar, podendo provocar prejuízos na saúde emocional dos pais e modificar as dinâmicas familiares .

Antes mesmo de qualquer intervenção na criança, há um processo que precisa ser nomeado. Os profissionais de saúde mental têm chamado esse processo de luto silencioso .

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O que significa esse luto?

O luto não é sobre a criança que existe. É sobre as expectativas que precisam ser revisitadas. Muitos pais acolhem o diagnóstico vivenciando um processo que pode envolver tristeza, medo, raiva e culpa — e, como alertam os especialistas, nada disso significa falta de amor .

Trata-se de abandonar a imagem que se tinha construído para o futuro do filho. As projeções sobre a faculdade, a profissão, a independência, os netos, a velhice — tudo isso precisa ser reavaliado. Não porque o futuro deixou de existir, mas porque ele será diferente do que se imaginava.

Aceitar o diagnóstico, como aponta a literatura, não é desistir do filho. É, nas palavras de profissionais da área, “abandonar uma luta injusta contra a realidade e abrir espaço para um cuidado mais claro, eficaz e humano” .

O preço na saúde mental dos pais

Os números ajudam a dimensionar o que tantas famílias vivenciam em silêncio. Estudos indicam que as famílias de crianças com transtornos do neurodesenvolvimento são mais propensas a sofrer estresse, ansiedade, depressão e dores crônicas, além de apresentar dificuldades na realização de tarefas diárias em comparação a famílias sem filhos com essas condições .

Pesquisas brasileiras trazem dados ainda mais específicos. Um estudo conduzido com 221 cuidadores de crianças com Transtorno do Espectro Autista revelou que:

  • 50,5% dos cuidadores apresentavam suporte familiar considerado leve
  • 54,4% relataram necessidade de tratamento psicológico
  • Houve correlação inversa entre suporte familiar e sofrimento psíquico — quanto menos apoio a família recebia, piores eram os sintomas de ansiedade, depressão e estresse entre os cuidadores 

Outro estudo, realizado com famílias de crianças com TDAH durante o período pandêmico, encontrou médias significativamente mais altas de depressão, ansiedade e estresse em pais e cuidadores quando comparados a grupos de controle. Mais impressionante: 60% da amostra apresentava sintomas sugestivos de Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT) .

Para efeito de comparação, a prevalência ao longo da vida do TEPT na população geral de adolescentes nos Estados Unidos é de cerca de 5% — ou seja, pais de crianças com TDAH apresentaram taxas 12 vezes maiores de sintomas compatíveis com esse transtorno .

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O impacto na relação pais-filhos

A presença de sofrimento psíquico nos pais não é um fenômeno isolado. Ela repercute diretamente no desenvolvimento da criança. Estudos em psicopatologia do desenvolvimento mostram que filhos de mães com indicadores de depressão apresentam maior frequência de problemas internalizantes — um conjunto de dificuldades que inclui ansiedade, depressão, retraimento social, reatividade emocional e queixas somáticas sem causa médica aparente .

Pesquisas da Universidade Federal da Bahia encontraram diferenças significativas entre filhos de mães com e sem indicadores de depressão, especialmente na chamada síndrome de reatividade emocional — caracterizada por mudanças repentinas de humor, preocupações excessivas e dificuldade para lidar com pessoas e situações desconhecidas .

Esses achados sugerem um ciclo que se retroalimenta: o estresse do diagnóstico afeta a saúde mental dos pais; a saúde mental comprometida dos pais afeta o desenvolvimento emocional da criança; e as dificuldades da criança, por sua vez, aumentam o estresse parental. Este não é um ciclo de culpados. É um ciclo de sobrecarga que precisa ser reconhecido para ser interrompido.

Ninguém te contou que…

  • O luto não é falta de amor. É a difícil tarefa de reconstruir expectativas para o futuro .
  • Mais da metade dos cuidadores precisa de apoio psicológico e não recebe. O estudo brasileiro citado mostrou que 54,4% dos cuidadores relataram necessidade de tratamento — mas o acesso nem sempre é garantido .
  • Estresse pós-traumático em pais de crianças com TDAH atingiu 60% em um estudo. Esse número é significativamente mais alto do que na população geral .
  • A depressão materna afeta diretamente os filhos, aumentando problemas como ansiedade, retraimento social e reatividade emocional .
  • Não há “preparo” para esse diagnóstico. A maioria das famílias recebe a notícia sem orientação sobre o que virá a seguir — emocional, financeira e relacionalmente.

Se você se identificou….

Se você leu até aqui e reconheceu sua própria experiência, alguns pontos merecem ser ditos sem rodeios:

  1. O que você sente é comum. Tristeza, raiva, medo, culpa — todas essas emoções são relatadas por pais e mães em situação semelhante à sua . Você não está “sofrendo demais” ou “sendo fraco”. Está reagindo a uma mudança de vida significativa.
  2. Buscar ajuda para você não é negligência com seu filho. Cuidar da própria saúde mental é, paradoxalmente, uma das formas mais eficazes de ajudar a criança. Pais emocionalmente esgotados têm menos paciência, menos energia e menos recursos para oferecer o suporte de que a criança precisa.
  3. O luto tem um tempo. Respeitar o próprio processo emocional não é “se vitimizar”. A literatura especializada aponta que, quando o luto é reconhecido e elaborado, os pais conseguem reconstruir expectativas e se tornar aliados mais eficazes do desenvolvimento da criança .
  4. Suporte familiar faz diferença. O estudo citado mostrou correlação inversa entre suporte familiar e sofrimento psíquico. Buscar redes de apoio — grupos de pais, associações, terapia familiar — não é sinal de fraqueza. É uma estratégia baseada em evidências .

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