A menina que “não tinha limites”: quando a hipótese de TOD escondia uma casa em silêncio!
Um caso recebido por e-mail que mostra como a violência doméstica não física pode produzir sintomas que imitam transtornos de conduta. Anonimizado e publicado com autorização.
Esta série é um espaço para falar do que fazemos entre a queixa e o encaminhamento. Do raciocínio clínico que não aparece nos manuais. Das decisões que tomamos quando a hipótese inicial não se sustenta, quando o instrumento não dá resposta, e quando percebemos que os fatores que mais afetam a aprendizagem não estão sendo avaliados.
Psicopedagogos e neuropsicopedagogos não diagnosticam. Nosso trabalho é levantar hipóteses, investigar, intervir e encaminhar para que profissionais da área médica possam, se for o caso, fechar um diagnóstico.
Os casos publicados aqui são recebidos por e-mail, anonimizados, e publicados com autorização. Nenhum dado permite identificação.
A queixa que chegou pronta!
Recebi este caso por e-mail. Vou chamar a menina de A. Ela tinha 7 anos, estava no 2º ano, e chegou ao consultório da colega que me escreveu com uma pasta de encaminhamentos e uma expressão que a acompanhava em todos os documentos: “não tem limites”.
A escola escreveu: “desafia a professora, agride colegas, não aceita regras, responde mal, não para quieta”. A palavra “agressiva” aparecia quatro vezes. A palavra “limite” aparecia seis.
A mãe, na primeira conversa telefônica, disse: “Eu já tentei de tudo. Ela não me obedece. Em casa é a mesma coisa. Eu falo, ela grita. Eu grito, ela bate o pé. Eu não sei mais o que fazer.”
O pai não participou da primeira conversa. “Ele trabalha muito”, justificou a mãe.
A hipótese que chegou pronta era: Transtorno Opositivo-Desafiador (TOD).
O que a avaliação tradicional mostrou?
A colega fez o que a formação orienta. Anamnese com a mãe. Observação estruturada. Tarefas de atenção, memória, controle inibitório. Escalas de comportamento respondidas pela mãe e pela professora.
O que apareceu:
- Controle inibitório: dificuldade clara. A. interrompia, não esperava a vez, respondia antes de a pergunta terminar.
- Atenção sustentada: comprometida. Cerca de 5 minutos em atividades dirigidas.
- Comportamento observado na sessão: A. não era agressiva com a psicopedagoga. Não desafiava. Não gritava. Era agitada, mas afetuosa. Pedia colo. Perguntava se a psicopedagoga ia “sumir como a mamãe”.
- Escala de comportamento (professora): índices elevados em agressividade, oposição e hiperatividade.
- Escala de comportamento (mãe): índices elevados em agressividade e oposição. Mas um item chamou atenção: “A criança parece triste ou infeliz” — marcado como “muito verdadeiro”. A mãe hesitou antes de responder.
Quatro sessões. A hipótese de TOD parecia se confirmar. Mas algo não fechava.
A. não era agressiva com a psicopedagoga. Não desafiava. Não gritava. Ela pedia colo.
O que a avaliação tradicional não viu?
A colega começou a se perguntar: “Por que ela é agressiva na escola e em casa, mas não aqui?”
A resposta que veio — depois de muitas conversas — foi: porque aqui ela se sentia segura.
E isso mudou tudo.
Sobre o ambiente familiar:
A colega perguntou, com cuidado, sobre a dinâmica em casa. A mãe, depois de um longo silêncio, contou: o pai de A. não era violento fisicamente. Nunca bateu na filha. Nunca bateu nela. Mas gritava. Gritava com a mãe. Gritava com A. Gritava com o irmão mais velho. A casa vivia em um estado de tensão permanente, onde qualquer coisa podia virar explosão.
A literatura sobre exposição à violência doméstica — mesmo a violência psicológica, mesmo a violência entre os pais, mesmo sem agressão física direta à criança — é clara: crianças expostas a hostilidade familiar crônica apresentam dificuldade de concentração, problemas de rendimento escolar, comportamentos agressivos, hiperatividade e ansiedade .
O que os professores viam como “falta de limites” era, na verdade, um sistema nervoso em estado de alerta permanente. Uma criança que vive em um ambiente imprevisível não aprende a se autorregular. Ela aprende a reagir antes de ser atingida. Ela aprende que o mundo é um lugar onde é preciso gritar para ser ouvida.
Sobre o sono:
A colega perguntou: “Como A. dorme?”
A resposta: mal. Acordava várias vezes à noite. Tinha pesadelos frequentes. Às vezes ia para a cama dos pais. A literatura documenta que crianças expostas à violência familiar apresentam alterações do sono, pesadelos e dificuldade para dormir . E a privação de sono, por sua vez, agrava a desregulação emocional, a impulsividade e a dificuldade de atenção .
Sobre a fala da mãe:
Em um momento, a mãe disse algo que a colega anotou e levou para supervisão: “Ela é igual ao pai. Grita pra conseguir o que quer.”
A colega perguntou: “E o que acontece quando o pai grita?”
A mãe ficou em silêncio. Depois: “Ele consegue o que quer.”
A. não tinha TOD. A. tinha aprendido, observando, que gritar funciona. Não porque ela era “opositora”, mas porque aquele era o modelo de comunicação que a casa oferecia .
O que apareceu na sexta sessão?
Na sexta sessão, A. desenhou uma família. Três bonecos. A mãe, o irmão e ela. O pai não estava. Quando a psicopedagoga perguntou onde estava o pai, A. disse: “Ele tá no trabalho. Ele só volta pra brigar.”
Depois, pegou uma borracha e apagou a mãe do desenho. Disse: “A mamãe some quando ele briga.”
A literatura sobre violência doméstica e desenvolvimento infantil descreve exatamente esse padrão: crianças expostas a conflitos parentais crônicos apresentam ansiedade de separação, medo de abandono e dificuldade de confiar em adultos . A frase “Ela pergunta se a psicopedagoga vai sumir como a mamãe” não era um detalhe afetivo. Era um sintoma clínico.
Como foram organizadas as novas sessões?
A partir da sexta sessão, o plano mudou completamente.
Sessões 6 a 8: Investigação aprofundada dos fatores contextuais
- Entrevista com a mãe sobre dinâmica familiar, sono, rotina e rede de apoio.
- Solicitação — sem pressão — de que o pai participasse de pelo menos uma sessão. Ele não compareceu. A mãe trouxe a informação: “ele disse que não tem tempo para isso”.
- Encaminhamento para psicologia infantil (para A.) e para psicologia de família (para os pais).
- Comunicação ao pediatra que acompanhava o caso, com relato dos fatores contextuais identificados.
Sessões 9 a 15: Intervenção psicopedagógica focada
- Trabalho de regulação emocional: identificar sinais corporais de raiva e medo, criar “lugar seguro” imaginário, praticar respiração e pausa.
- Construção de vínculo terapêutico como experiência corretiva: A. precisava experimentar uma relação adulta previsível, onde não havia gritos e onde suas necessidades eram ouvidas.
- Atividades de autorregulação: jogos com regras claras e mediação, onde ela pudesse praticar esperar, perder e lidar com frustração sem ser punida.
- Paralelamente, orientação à mãe: como criar momentos de previsibilidade na rotina, como responder a comportamentos de oposição sem escalada, como se proteger emocionalmente dentro de uma casa tensa.
Sessões 16 a 20: Reavaliação
- Com a terapia infantil em andamento e a mãe começando a fazer psicoterapia individual, A. começou a dormir melhor.
- A agressividade na escola diminuiu — não porque ela “aprendeu a ter limites”, mas porque o nível de alerta interno baixou.
- A. ainda tinha dificuldades. A casa ainda era tensa. O pai ainda não participava. Mas A. tinha, agora, um lugar onde não precisava lutar para existir.
O que se aprendeu com esse caso?
O que se aprendeu:
- Que “falta de limites” é um sintoma, não um diagnóstico. E que ele pode esconder violência doméstica não física, exposição a conflitos parentais crônicos, medo de abandono e privação de sono .
- Que a criança que não é agressiva no consultório mas é agressiva na escola pode estar dizendo: “Aqui eu me sinto segura. Lá, não.”
- Que o psicopedagogo não diagnostica TOD. Ele investiga o contexto, levanta hipóteses, intervém no que é de sua competência e encaminha para psicologia, psiquiatria e serviços de proteção quando necessário.
- Que avaliar a criança sem avaliar a casa é avaliar metade do problema.
O que ainda não se sabe:
- O que teria acontecido se a colega tivesse fechado a hipótese de TOD na quarta sessão e encaminhado para psiquiatria direto. Quantas A. são medicadas por comportamentos que são, na verdade, respostas a um ambiente insustentável.
- Se o pai teria participado se a escola tivesse feito uma denúncia formal ao Conselho Tutelar. Se a mãe teria encontrado coragem para sair antes. Se A. teria tido mais tempo de infância.
- Quantas crianças como A. são expostas a violência doméstica e nunca são vistas — porque na escola se comportam bem, tiram notas boas, são “perfeitas”. A literatura aponta que muitas crianças vítimas de violência familiar passam despercebidas justamente por serem responsáveis, quietas e aplicadas . A. era o outro lado: a que chama atenção pelo comportamento. Mas as duas estão sofrendo.
Para você, que está no meio de um caso que não fecha
Este post não é sobre “acertar”. É sobre o que se faz quando o sintoma que chega não é o sintoma que importa.
Durante quatro sessões, a colega que enviou este caso pensou em TOD. Fez o que era esperado. Aplicou o que era esperado. E quase perdeu a menina atrás do diagnóstico.
Hoje ela sabe: o diagnóstico que chegou pronto era o diagnóstico que escondia a casa. E o trabalho dela não era tratar TOD. Era escutar A.
Nem todo caso tem um nome. E o nosso trabalho não é dar um nome. É perguntar: “O que está acontecendo na vida dessa criança que produz esse sintoma?”
Se você está agora no meio de um caso que não fecha, este post é para você. Não para te dar uma resposta. Para te lembrar de perguntar: “O que essa criança está tentando me dizer com o que ela faz?”
Checklist para avaliação ampliada: violência doméstica e contexto familiar.
A colega que enviou este caso compartilhou o checklist que passou a usar depois dessa experiência:
- Conflitos em casa: Há discussões frequentes entre os adultos? A criança presencia? Há gritos, ameaças, portas batendo?
- Participação do pai/mãe não acompanhante: Quem participa da rotina? Quem está ausente? Por quê?
- Sono: A criança dorme bem? Acorda à noite? Tem pesadelos? Vai para a cama dos pais?
- Medo de abandono: A criança pergunta se você vai embora? Apaga figuras de familiares nos desenhos? Fala de “sumir”?
- Discrepância de comportamento: A criança é agressiva em um contexto e não em outro? O que isso pode estar dizendo?
- Fala da criança: Ela menciona conflitos? Reproduz falas de adultos? Diz que “o papai só volta pra brigar”?
- Rede de apoio: A família tem com quem contar? A mãe/cuidador principal tem suporte emocional?
E você?
Já atendeu um caso que parecia TOD e era outra coisa? Já percebeu que o comportamento agressivo era medo disfarçado? Já sentiu que o diagnóstico que chegou pronto escondia algo que ninguém queria ver?
Escreve nos comentários. Ou me manda por e-mail. Casos que não fecham não deveriam ser vividos sozinhos.
Se você quiser enviar seu caso para esta série, escreva para o e-mail do blog com o assunto “Casos que Não Fecham”. Todos os dados serão anonimizados e publicados somente com sua autorização.
Este é o segundo post da série “Casos que Não Fecham”. Aqui, publico casos reais (anonimizados e enviados por profissionais) em que a hipótese inicial não se confirmou, o instrumento não deu resposta, e a decisão clínica foi tomada na incerteza. Se você tem um caso assim e quer compartilhar, me escreve.
