Psicopedagogia

Entre o Rótulo e o Contexto: O que os Dados Brasileiros sugerem sobre Diagnósticos equivocados em TDAH e TEA — e como isso expõe nossa prática?

Por Daliane Oliveira (psicopedagoga)

Existe uma frase que eu gostaria que mais profissionais tivessem coragem de encarar: um diagnóstico pode organizar a vida de uma criança — ou pode encurtá-la. Não no sentido literal, mas no sentido de reduzir possibilidades, expectativas, intervenções e até a forma como ela passa a ser vista (e a se ver).

No Brasil, ainda faltam estatísticas nacionais consolidadas que “fechem a conta” do quanto diagnosticamos errado os Transtornos do Neurodesenvolvimento (TND). Mas o que já temos — por amostras clínicas, pesquisas locais, dados educacionais e indicadores de consumo de psicofármacos — forma um mosaico difícil de ignorar.

A pergunta mais incômoda não é “estamos diagnosticando demais ou de menos?”.
A pergunta que muda prática é: “o que, na minha forma de avaliar e encaminhar, está aumentando o risco de erro?”


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1) Quando falamos em “diagnóstico errado”, do que estamos falando, exatamente?

Sem cuidado conceitual, “erro diagnóstico” vira só um slogan. Na prática, ele costuma aparecer em pelo menos quatro formas:

  1. Falso positivo: a criança recebe um rótulo (ex.: TDAH/TEA), mas não preenche critérios quando reavaliada de modo mais robusto ou multiprofissional.
  2. Falso negativo: a criança tem o transtorno, mas não é identificada (e perde acesso a intervenções precoces e apoio).
  3. Diagnóstico apressado por um único informante ou cenário: escola ou família ou consulta rápida, sem integração de dados de múltiplos contextos.
  4. Diagnóstico “substituto”: nomeamos TDAH quando o núcleo é dislexia; nomeamos TEA quando o núcleo é transtorno de linguagem; ou “fechamos” um CID para explicar sofrimento que é, em grande parte, contextual (didática, ambiente, estresse, sono, violência, sobrecarga digital, luto, etc.).

O ponto crítico: o risco de errar aumenta quando o diagnóstico vira atalho (para aliviar angústia, justificar rendimento, acelerar acesso a suporte) e deixa de ser uma hipótese clínica que precisa ser testada.


2) Sinais fortes no TDAH: Discrepâncias entre Escola, Família e Diagnóstico Médico
2.1) Um dado que deveria nos constranger: muita medicação, pouca concordância entre avaliadores

Em uma tese da USP com amostra final de 43 crianças, o texto descreve que 31 utilizavam medicação para TDAH.
No mesmo trecho, aparece algo ainda mais provocador: a concordância entre pais e professoras ocorreu somente para três crianças, e essas faziam uso de medicação.

Se você trabalha com infância, pare aqui e se pergunte com honestidade:

  • Eu aceito medicar (ou sustentar um laudo) com base em concordância frágil entre contextos?
  • Eu trato divergência entre família e escola como “ruído” — ou como dado clínico essencial?

Essa tese ainda descreve situações que apontam para uso de medicação mesmo quando a criança foi considerada “não clínica” por pais e professoras em determinadas combinações de avaliação.

Isso não prova “epidemia de TDAH”. Mas sugere um problema real: há crianças recebendo tratamento farmacológico sem um retrato consistente e compartilhado do funcionamento em múltiplos ambientes.


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2.2) Um estudo de reavaliação (UFMG): “risco na escola” e “diagnóstico médico” nem sempre resistem à segunda checagem

Uma tese no repositório da UFMG reavaliou crianças selecionadas por já terem indicadores/diagnóstico e mostrou discrepâncias grandes entre indicação inicial e resultado após reavaliação.

  • Das 17 crianças consideradas “em risco de TDAH” pela professora, apenas 2 apresentavam o transtorno na reavaliação; 9 não tinham transtorno; e outras foram classificadas como dislexia ou TDAH+sinais de dislexia.
  • Das 23 crianças com diagnóstico médico de TDAH, apenas 7 apresentaram o transtorno na reavaliação; parte não tinha transtorno e parte foi classificada como dislexia ou TDAH+sinais de dislexia.

E tem um detalhe ético explosivo: o texto aponta que, naquele conjunto, todas as crianças diagnosticadas por médicos estavam medicadas.

O que isso sugere (sem sensacionalismo): há risco real de “diagnóstico por triagem” — e triagem não é diagnóstico.


2.3) “Mas eu uso escala”: escalas não blindam contra erro — às vezes só dão uma estética de certeza

Na mesma tese da UFMG, ao discutir medidas do SNAP, aparecem estimativas de desempenho do instrumento na amostra, com menção a falso-negativos e falso-positivos, e o próprio texto conclui que os resultados do SNAP podem ser “questionáveis” para sustentar decisões diagnósticas isoladamente.

Aqui vai um choque de realidade: instrumento não substitui raciocínio clínico, nem substitui análise pedagógica. Ele só organiza dados.

Se a sua prática virou “bateria de escala + frase padrão”, você está mais perto de produzir erro do que de produzir cuidado.


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2.4) Mesmo em avaliação neuropsicológica, o diagnóstico pode cair… ou ficar inconclusivo

Um estudo descrito em artigo (PePSIC) mostra que, ao final de um processo de avaliação neuropsicológica, 18 crianças (72%) foram diagnosticadas com TDAH, 3 (12%) tiveram o diagnóstico excluído e 4 (16%) tiveram avaliações não conclusivas.

Isso é importante por dois motivos:

  1. Reforça que há casos em que a hipótese inicial não se sustenta, mesmo em avaliação aprofundada;
  2. Mostra que “inconclusivo” pode ser um resultado clínico honesto (e às vezes o mais ético).

A sua prática permite concluir “ainda não dá para fechar”? Ou você se sente pressionado a sempre entregar um rótulo?


3) TEA: quando a suspeita vira encaminhamento em massa, mas a confirmação é bem menor

Um estudo com crianças encaminhadas por suspeita de TEA em um serviço (CER-II) aponta que, de 685 encaminhamentos, 206 (30,1%) obtiveram diagnóstico confirmado.

O mesmo registro aponta como motivadores frequentes dos encaminhamentos déficits de linguagem (58,8%) e comportamentos externalizantes (56,9%), e menciona uso frequente do instrumento ABC.

O dado mais didático aqui não é “30%”.
É a pergunta: o que estamos chamando de ‘suspeita de TEA’?

Porque linguagem e comportamento externalizante podem, sim, estar no TEA — mas também podem estar em:

  • transtornos do desenvolvimento da linguagem,
  • privação linguística,
  • ambientes com baixa mediação,
  • experiências adversas,
  • alterações auditivas,
  • atraso global do desenvolvimento,
  • TDAH,
  • ansiedade infantil,
  • dinâmicas familiares extremamente desorganizadas,
  • escolarização inadequada para o perfil da criança.

Quando qualquer “atraso de fala + agitação” vira “suspeita de TEA”, o sistema congestiona, as filas crescem e as crianças que mais precisam demoram mais.


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4) O Contexto Brasileiro Recente: Mais Diagnósticos Reportados e mais Matrículas — e isso aumenta a Responsabilidade Técnica

Aqui entram dois dados “macro” que mudam o cenário.

4.1) IBGE: o Censo 2022 mediu, pela primeira vez, diagnóstico reportado de TEA

O IBGE informou que o Censo 2022 identificou 2,4 milhões de pessoas com diagnóstico de TEA no Brasil (1,2% da população), com maior prevalência entre homens (1,5%) do que entre mulheres (0,9%).
O grupo etário com maior prevalência foi 5 a 9 anos (2,6%).

Isso é um marco: não é “prevalência clínica” no sentido estrito, mas é um retrato populacional de diagnóstico informado — e ele pressiona escola, saúde e assistência.

4.2) INEP: Explosão de matrículas de estudantes com TEA

O INEP reportou aumento de 44,4% nas matrículas de estudantes com TEA, de 636.202 (2023) para 918.877 (2024).

Agora pense no efeito colateral: quanto mais cresce a demanda por inclusão, mais o sistema tende a “precisar” de laudos rápidos. E quando o sistema precisa, o risco de atalho aumenta.

Aqui vai uma provocação ética (especialmente para profissionais):
Você está diagnosticando para cuidar — ou para “viabilizar” o suporte que o sistema só entrega com CID?

Se a resposta for a segunda, o problema não é só seu. Mas a responsabilidade técnica continua sendo sua.


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5) Um indicador indireto de “inflação”: O Metilfenidato e a Desigualdade Regional

5.1) O alerta “histórico” que continua atual

Uma página oficial do governo federal, ao mencionar a resolução do Conanda, registra aumento de 775% no consumo de metilfenidato entre 2003 e 2012.

Não dá para usar esse número como prova direta de sobrediagnóstico. Mas ele é um termômetro social: o país escalou o uso de um estimulante em um ritmo muito acima do que qualquer transformação biológica explicaria sozinha.

5.2) ANVISA (SNGPC): Crescimento e Variação extrema por UF sugerem Práticas muito Diferentes

No Boletim de Farmacoepidemiologia do SNGPC (ANVISA), aparece a mediana geral do consumo de metilfenidato industrializado (UFD/1.000 crianças 6–16 anos):

  • 2009: 4,10
  • 2010: 7,61
  • 2011: 11,69

E o que chama atenção não é só a subida; é a amplitude (mínimo e máximo) e os saltos regionais: por exemplo, na tabela, a Bahia aparece indo de 0,40 (2009) para 8,31 (2011), com variação percentual muito alta no período.

Se a “biologia do TDAH” fosse a variável dominante, você esperaria alguma variação — mas não abismos desse tamanho. Isso sugere que o consumo reflete também:

  • cultura diagnóstica local,
  • acesso a especialistas,
  • pressão escolar,
  • judicialização,
  • disponibilidade do medicamento,
  • modelos de atenção e rede.

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5.3) Concentração Geográfica: Quem prescreve mais não está em todo lugar

No mesmo Boletim (ANVISA), há uma observação de que, entre os 15 maiores prescritores, não constavam prescritores da Região Norte e Nordeste (no recorte descrito).

Esse tipo de assimetria é crucial: ela sugere que “diagnóstico” e “tratamento” não são apenas clínica — são também estrutura, acesso e desigualdade.

5.4) Custo e Intensidade: O Caso de São Paulo como Retrato de um Modelo

Um relatório técnico do Instituto de Saúde de São Paulo menciona, para 2011, gasto direto total com metilfenidato e o indicador de consumo (UFD/1.000 crianças) no estado, além de destacar São Paulo com valores elevados de consumo e crescimento.

Mesmo que você não atue em SP, isso importa porque tende a influenciar: protocolos informais, cultura profissional, demanda de famílias e escolas, e até “tendências” de consultório.


6) O que esses dados, juntos, realmente sugerem (sem exagero e sem negação)

Se você juntar:

  • baixa concordância entre avaliadores e uso alto de medicação em amostra clínica
  • reavaliações mostrando que muitos “riscos” e “diagnósticos” não se confirmam e que há confusão com dislexia
  • processos avaliativos que terminam com exclusão ou inconclusão
  • suspeitas de TEA que confirmam em proporção muito menor
  • crescimento expressivo de matrículas e diagnósticos reportados
  • crescimento e desigualdade no consumo de metilfenidato

…o cenário mais honesto é:

O Brasil vive aumento de demanda e ampliação de diagnósticos reportados, mas com evidências consistentes de fragilidade metodológica, confusões diagnósticas e pressões contextuais que elevam o risco de rotulagem indevida.

Isso não é “contra diagnóstico”.
É a favor de diagnóstico bem feito — e de psicopedagogia que não aceita reduzir sujeito a sintoma.


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7) Perguntas que eu faria a um profissional (inclusive a mim mesma) antes de assinar/defender um diagnóstico

Se você quer que este artigo gere reflexão real, aqui vão perguntas que podem doer — e exatamente por isso servem:

  1. Que evidências eu tenho de prejuízo funcional significativo, e não só de “incômodo escolar”?
  2. Eu avaliei qualidade do ensino, adequação didática, expectativa da série, ou só “comportamento”?
  3. Eu diferenciei atraso de linguagem de TEA, ou tratei fala tardia como sinônimo de autismo?
  4. Eu considerei sono, telas, ansiedade, depressão infantil, trauma, bullying, luto, violência?
  5. Eu tenho dados de pelo menos dois contextos (casa e escola) ou estou “fechando” por um cenário?
  6. Eu consigo explicar para a família o que foi descartado (diagnóstico diferencial) — ou só digo “é TDAH/TEA”?
  7. Eu produzi um plano de intervenção (pedagógico/terapêutico) independente do rótulo? Ou o rótulo virou o plano?

Diagnóstico que não vira intervenção clara, específica e revisável, muitas vezes vira só identidade.


8) Oportunidade prática: um “padrão mínimo” para reduzir erro diagnóstico na interface saúde–educação

Aqui não é receita — é um norte para a prática ficar mais defensável (ética e tecnicamente):

Para profissionais (educação e saúde)

  • Separar triagem de diagnóstico. Triagem aponta risco; diagnóstico exige critério e integração.
  • Triangulação de dados: entrevista + observação + instrumentos + produção escolar + história do desenvolvimento + devolutiva com hipótese e incerteza.
  • Critério de contexto: o sintoma aparece em mais de um ambiente? há evidência de prejuízo?
  • Diagnóstico diferencial obrigatório (pelo menos listado e discutido).
  • Devolver “grau de confiança” do diagnóstico (alto/médio/baixo) e prever reavaliação.
  • Plano psicopedagógico antes do rótulo (quando aplicável): intervenções de sala, adaptação, mediação, rotina, apoio de linguagem, e monitoramento.

Para pais e responsáveis (para não ficarem reféns de rótulos)

  • Pergunte: “Quais critérios foram usados?” “O que foi descartado?” “Quais dados da escola entraram?”
  • Desconfie de diagnóstico que nasce de: uma consulta muito curta, um único questionário, ou “fecha” sem olhar caderno, provas, histórico e contexto.
  • Um bom diagnóstico não te dá só um nome: te dá um caminho de intervenção, com metas.

Para estudantes da área (o antídoto contra a prática automática)

  • Estude avaliação como processo, não como checklist.
  • Aprenda a dizer: “ainda não dá para concluir” — sem abandonar a intervenção.

A Ética do Diagnóstico é a Ética do Cuidado

Se a escola só funciona com laudo, a tendência é inflar laudos.
Se a saúde está sobrecarregada, a tendência é acelerar conclusões.
Se a família está exausta, a tendência é buscar uma explicação final.

Mas você, profissional, não pode se permitir uma tendência. Você precisa de método.

O desafio (e a oportunidade) é transformar diagnóstico em algo que deveria ser desde o início:
uma hipótese de trabalho com responsabilidade, contexto, revisão e compromisso com a singularidade.

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Referências e fontes (links)

1) IBGE – Agência IBGE Notícias (23/05/2025). “Censo 2022 identifica 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas com autismo no Brasil”
https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/43464-censo-2022-identifica-2-4-milhoes-de-pessoas-diagnosticadas-com-autismo-no-brasil

2) INEP/MEC (Censo Escolar 2024). “Crescem matrículas de estudantes com autismo e deficiência e diminui percentual de alunos em classes exclusivas”
https://www.gov.br/inep/pt-br/assuntos/noticias/censo-escolar/crescem-matriculas-de-estudantes-com-autismo-e-deficiencia-e-diminui-percentual-de-alunos-em-classes-exclusivas

3) ANVISA – Boletim de Farmacoepidemiologia do SNGPC (Ano 2, nº 2, jul./dez. 2012) – Metilfenidato
https://antigo.anvisa.gov.br/documents/33868/3418264/Boletim%2Bde%2BFarmacoepidemiologia%2Bn%C2%BA%2B2%2Bde%2B2012/c2ab12d5-db45-4320-9b75-57e3d4868aa0

4) Instituto de Saúde (SES-SP). “TDAH e metilfenidato” (relatório técnico)
https://www.saude.sp.gov.br/resources/instituto-de-saude/homepage/pdfs/tdah_e_metilfenidato.pdf

5) Tese (USP) – Anaísa Leal Barbosa Abrahão (2021). “Habilidades sociais… de alunos com TDAH: caracterização e intervenção” (PDF)
https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/59/59141/tde-15022022-143847/publico/Tese_resumida.pdf

6) Tese (UFMG) – MT Cortez (2015) – Repositório UFMG (PDF)
https://repositorio.ufmg.br/bitstreams/3f434a0a-f1e6-4687-9ae6-24ddb4b86eda/download

7) PePSIC – Artigo (2017) com dados de avaliação neuropsicológica e conclusão diagnóstica
https://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S1519-03072017000400002&script=sci_arttext

8) Physis / SciELO Saúde Pública – Rocha et al. (2019). “O perfil da população infantil com suspeita de diagnóstico de TEA…” (página do artigo)
https://www.scielosp.org/article/physis/2019.v29n4/e290412/
DOI: http://dx.doi.org/10.1590/S0103-73312019290412

9) Gov.br (MDH) – Conanda: resolução e referência ao aumento de consumo de metilfenidato (2015)
https://www.gov.br/mdh/pt-br/sdh/noticias/2015/dezembro/conanda-publica-resolucao-para-diminuir-medicacao-em-criancas-e-adolescentes

10) OMS – ICD-11 (classificação internacional de doenças; referência para categorias diagnósticas)
https://icd.who.int/browse11/l-m/en

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