ESTUDO DE CASO: “LUCAS”
Olá Colegas hoje vamos aprender mais um estudo de caso utilizando meu Protocolo Homes Oliver – desenvolvido por mim Pp. Daliane Oliveira após 20 anos de estudos, pesquisas e muita dedicação com aplicação na prática com Crianças e Adolescentes na África do Sul/Kênia e vários estados do Brasil. Vou compartilhar com vocês minhas experiências e um modo eficiente de identificar, Avaliar e Intervir em nossas analises profissionais. Vamos nessa 🙂
O que você vai aprender com esse caso?
- Nunca aceitar a queixa inicial como diagnóstico
- A “criança problema” frequentemente sinaliza “sistema em crise”
- Sintomas de TDAH são inespecíficos e comuns a muitas condições
- A intervenção mais efetiva muitas vezes é ambiental/familiar, não médica
- O tempo de avaliação é investimento, não gasto – previne iatrogenia
1. DADOS INICIAIS
- Nome: Lucas (pseudônimo)
- Idade: 8 anos, 2 meses
- Série: 3º ano do Ensino Fundamental
- Queixa principal: “Desatento, agitado e com dificuldades de aprendizagem, especialmente em leitura e escrita. Professora suspeita de TDAH.”
2. ETAPA 1: ACOLHIMENTO DA QUEIXA
Entrevista Inicial com os Pais (Mãe e Pai)
Queixa relatada:
- Não para quieto na sala
- Não termina as atividades
- Comete “erros por descuido”
- Letra ilegível
- Esquece o material escolar
- Baixo rendimento em português
Expectativas da família: “Precisamos saber se ele tem TDAH para medicar, pois a professora disse que está atrasando a turma toda.”
Perguntas exploratórias e respostas:
- Quando começou? “Desde o 2º ano, mas piorou agora no 3º ano.”
- Quando NÃO ocorre? “Quando está jogando videogame ou assistindo aos seus youtubers favoritos, fica concentrado por horas.”
- Contexto: Nova professora (rigorosa), turma com 35 alunos, aumento da carga de lição de casa.
Primeira observação profissional: A queixa coincide com mudanças significativas na exigência escolar e estilo do professor.
3. ETAPA 2: AVALIAÇÃO MULTIDIMENSIONAL
A. ASPECTOS BIOLÓGICOS E DE SAÚDE
Sono (Diário de 2 semanas):
- Dorme entre 23h-24h (pais chegam tarde do trabalho)
- Acorda 6h30 para escola
- Sono interrompido (acorda 1-2x por noite)
- Ronca moderadamente
- Conclusão: Apenas 6-7 horas de sono (recomendado: 9-11 horas)
Nutrição (Registro alimentar):
- Café da manhã: cereal açucarado ou nada (corre para escola)
- Lanche escolar: suco de caixinha e salgadinho
- Almoço: comida balanceada
- Tarde: bolachas recheadas e refrigerante
- Jantar: fast-food 3x na semana (pais cansados)
- Observação: Pico de ingestão de açúcar e cafeína à tarde
Avaliação médica prévia:
- Exame auditivo (6 meses atrás): normal
- Exame oftalmológico (1 ano atrás): “visão normal”
- Novo encaminhamento: Oftalmologista pediátrico (queixa de dor de cabeça à tarde)
Desenvolvimento:
- Marcos normais
- Lateralidade: destro estabelecido
- Coordenação motora fina: dificuldade com pressionamento do lápis
B. ASPECTOS FAMILIARES E SOCIOEMOCIONAIS
Dinâmica familiar (Genograma e entrevista):
- Pais ambos trabalham em período integral (saem 7h, chegam 19h)
- Irmã mais nova (2 anos), com quem Lucas disputa atenção
- Avó materna cuida das crianças à tarde, mas tem saúde frágil
- Conflitos conjugais frequentes (discussões à noite, Lucas ouve)
- Evento recente: Morte do cachorro da família (há 4 meses), Lucas muito apegado
Rotina doméstica (Mapa da semana):
- Segunda a sexta: escola + reforço + natação (3x)
- Sábado: inglês e futebol
- Domingo: “descanso” (mas pais fazem limpeza/contas)
- Observação: Agenda sobrecarregada, pouco tempo livre
Avaliação emocional (Desenhos, histórias, observação):
- Desenho da família: figuras distantes, ele sozinho em um canto
- Frase espontânea: “Todo mundo briga em casa”
- Sintomas de ansiedade: roer unhas, tremor nas pálpebras
- Baixa autoestima: “Sou burro”, “Nunca vou aprender”
C. ASPECTOS PEDAGÓGICOS E ESCOLARES
Histórico escolar:
- Alfabetização aos 6 anos (método fônico rígido)
- 1º ano: desempenho médio
- 2º ano: começaram as queixas de desatenção
- 3º ano: piora significativa, ameaça de reprovação
- Mudanças: 3 escolas diferentes (mudanças por bairro)
Observação em sala de aula (2 visitas):
- Professor: estilo autoritário, muitas correções públicas
- Lucas: senta no fundo, perto da janela (muitos estímulos)
- Interações: poucas com colegas, isolado no recreio
- Situação específica: Professor chamou atenção de Lucas 12x em 50 minutos por “ficar olhando para fora”
Entrevista com professora anterior (2º ano):
- “Lucas era tranquilo, mas tímido”
- “Tinha dificuldade com cópia do quadro, mas se esforçava”
- “Mudou depois das férias, ficou mais fechado”
Adequação pedagógica:
- Método atual: traducional, ênfase em cópia e memorização
- Material: apostila com exercícios repetitivos
- Estilo de aprendizagem de Lucas (observado): aprende melhor com recursos visuais e manipulação
D. ASPECTOS COGNITIVOS E DE APRENDIZAGEM
Avaliação psicopedagógica:
- Atenção sustentada: 7 minutos (abaixo do esperado)
- Atenção seletiva: prejudicada com estímulos competidores
- Importante: Melhora significativa em ambiente controlado, silencioso
- Memória de trabalho: dentro da média
- Leitura: silábica, com omissões e trocas (p/b, d/t)
- Escrita: inversões, letra irregular, pressão excessiva no papel
- Processamento visuoespacial: Dificuldade com organização no papel
- Processamento auditivo: Lentidão no processamento de comandos complexos
4. ETAPA 3: INTEGRAÇÃO DOS DADOS
Triangulação das Informações:
| Comportamento | Casa | Escola | Avaliação Individual |
|---|---|---|---|
| Agitação | Só à noite | Constante | Calmo em 1:1 |
| Desatenção | Em tarefas chatas | Sempre | Variável conforme interesse |
| Dificuldade leitura | Não lê livros | Baixo desempenho | Leitura lenta mas compreensiva |
Linha do Tempo:
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6 anos: Alfabetização normal 7 anos (2º ano): Início queixas leves 7 anos 8 meses: Mudança de professora 8 anos (3º ano): Piora significativa 8 anos 2 meses: Morte do animal de estimação
Fatores Identificados que Mimetizam TDAH:
- Privação crônica de sono → causa irritabilidade e desatenção
- Dieta rica em açúcar/cafeína → causa agitação e oscilações
- Problema visual não detectado (dor de cabeça à tarde sugere fadiga visual)
- Estresse emocional (luto, conflitos familiares)
- Ambiente escolar inadequado (método pedagógico incompatível, professor estressante)
- Sobrecarga de atividades → exaustão
- Possível disgrafia → lentidão na escrita causa frustração e “fuga” das tarefas
- Ansiedade de desempenho → medo do fracasso paralisa
5. ETAPA 4: HIPÓTESE DIAGNÓSTICA
Diagnósticos Diferenciais em Ordem de Probabilidade:
1. HIPÓTESE PRINCIPAL:
- Transtorno de Ansiedade Generalizada com manifestações escolares
- Dificuldade Específica de Aprendizagem (Disgrafia e possível dislexia leve)
- Privação de sono e hábitos alimentares inadequados exacerbando sintomas
2. HIPÓTESES SECUNDÁRIAS (a descartar/confirmar):
- TDAH do tipo desatento (mas sintomas situacionais, não pervasivos)
- Depressão infantil reativa (ao luto e conflitos familiares)
3. CONDIÇÕES A DESCARTAR IMEDIATAMENTE:
- Problemas auditivos (já avaliado)
- Deficiência intelectual (cognição preservada)
- TEA (interação social adequada fora do contexto ansioso)
6. PLANO DE AÇÃO E INTERVENÇÃO
Encaminhamentos Imediatos:
- Oftalmologista pediátrico (urgente)
- Nutricionista infantil (orientação familiar)
- Terapia familiar (conflitos conjugais)
- Acompanhamento psicológico individual para Lucas (luto e ansiedade)
Intervenções Escolares:
- Mudança de lugar na sala (frente, longe de janela)
- Adaptações metodológicas: mais recursos visuais, menos cópia
- Redução da carga de lição de casa temporariamente
- Orientação à professora sobre ansiedade infantil
Intervenções Familiares:
- Reorganização da rotina de sono (meta: 9 horas)
- Redução de atividades extracurriculares (de 5 para 2)
- Tempo de qualidade pais-filho (30 minutos diários sem celular)
- Ritual de despedida do animal (processamento do luto)
Acompanhamento Psicopedagógico:
- Intervenção para disgrafia (exercícios motores, adaptações)
- Estratégias de organização (agenda visual)
- Técnicas de manejo da ansiedade aplicadas à aprendizagem
7. REAVALIAÇÃO PROGRAMADA
- Em 3 meses: Reavaliar atenção e ansiedade após intervenções ambientais
- Em 6 meses: Nova avaliação pedagógica
- Condicional: Só considerar avaliação para TDAH após regularização do sono, dieta e redução da ansiedade
8. Hipótese Diagnóstica
Lucas não apresenta um transtorno primário do neurodesenvolvimento, mas sim uma constelação de fatores ambientais, emocionais e pedagógicos que se combinam para produzir sintomas que mimetizam TDAH. Seu caso ilustra perfeitamente como:
- Uma queixa escolar pode ser a ponta de um iceberg emocional
- Fatores biológicos básicos (sono, nutrição) impactam diretamente o desempenho
- O ambiente escolar pode ser gerador, não apenas revelador, de dificuldades
- A pressão por diagnóstico rápido pode levar a medicalização de problemas contextuais
Prognóstico: Excelente com as intervenções propostas. Espera-se melhora significativa em 3-4 meses sem necessidade de intervenção farmacológica.
