Psicopedagogia

“A Romantização Que Machuca” — Quando o discurso do “superpoder” invalida a dor real. Post 7

O outro lado da Moeda

Nos últimos anos, um movimento importante ganhou força: a luta contra o estigma dos transtornos do neurodesenvolvimento. Pessoas com TEA, TDAH, dislexia e outras condições passaram a ser vistas não apenas por suas dificuldades, mas também por suas potencialidades. O termo “neurodiversidade” surgiu para defender que diferenças neurológicas devem ser respeitadas pela sociedade, análogas a categorias como classe, orientação sexual, etnia e deficiência .

Esse movimento trouxe ganhos inegáveis: menos crueldade, mais compreensão e mais disposição para buscar ajuda . Pessoas que antes eram excluídas passaram a ser vistas como detentoras de valor. Famílias encontraram acolhimento. Muitos adultos receberam diagnósticos tardios que explicaram sofrimentos de uma vida inteira.

Mas há um outro lado dessa história.

O movimento da neurodiversidade também tem sido alvo de críticas — inclusive de dentro da própria comunidade de pessoas com transtornos do neurodesenvolvimento. A crítica central é que, ao romantizar condições como TEA, TDAH e dislexia, o discurso do “superpoder” acaba silenciando a dor real de quem enfrenta limitações significativas no dia a dia .

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A crítica que vem de dentro: “não romantizem minha deficiência”.

O neurocientista e escritor Moheb Costandi, em seu artigo “Against Neurodiversity” publicado na Aeon, argumentou que o movimento da neurodiversidade tem colocado as necessidades de pessoas autistas de “alto funcionamento” (com menor necessidade de suporte) à frente daquelas de pessoas autistas não-verbais ou com maior comprometimento . Em outras palavras: o movimento estaria sendo liderado por quem menos sofre com a condição, enquanto as vozes de quem mais precisa de apoio ficam à margem.

Costandi também criticou o que chamou de romantização do autismo e o fato de que alguns defensores da neurodiversidade estariam “desconsiderando a ciência” ao rejeitar tratamentos e a compreensão do autismo como uma condição médica .

Essa crítica não é isolada. Respondendo ao artigo de Costandi, defensores da neurodiversidade argumentaram que o movimento é, na verdade, sobre humanizar pessoas autistas, criando tratamentos que acomodem e entendam a pessoa autista em vez de tentar “reprogramá-la” . Mas o debate expõe uma tensão real: autismo é uma deficiência? Uma doença? Uma diferença? Esses são termos carregados dentro da comunidade autista .

“Superpoder” ou sofrimento real?

Nas redes sociais, tornou-se comum a narrativa de que TDAH é um “superpoder”, que o autismo traz “habilidades especiais”, que a dislexia é um “jeito diferente de processar informações que confere criatividade”. Embora a intenção seja positiva — combater o estigma e aumentar a autoestima —, o efeito colateral é a invalidação do sofrimento.

Em um debate no fórum online Lemmy, um usuário que se identificou como autista com baixa necessidade de suporte (o chamado “alto funcionamento”) fez um desabafo contundente :

“Eu odeio isso. Claro, ser chamado de ‘retardado’ não é bom, mas ter pessoas dizendo que TEA é apenas um jeito diferente de pensar é minimizar os problemas. ‘Oh, como somos peculiares!'”

Ele descreveu como a romantização o afetou pessoalmente:

“Se eu não fosse ‘retardado’, teria conseguido estudar direito em vez de depender de hiperfoco. Teria me formado. Se eu não fosse ‘retardado’, teria conseguido fazer as coisas de forma consistente e perseverar. Em vez disso, ganho e perco peso repetidamente. Vou desenvolver diabetes nesse ritmo.”

E sobre as relações sociais, ele relatou:

“Se eu não fosse ‘retardado’, as pessoas teriam me apreciado mais. Em vez disso, sou demais. Falo demais. Existo demais. Mesmo quando prevejo algo ou sugiro algo que as pessoas depois acham bom, elas acham que outra pessoa do grupo pensou nisso.” 

O mesmo usuário fez uma observação que resume o problema central da romantização:

“É fácil para mim, como autista de baixo suporte, dizer ‘sou só diferente’ e culpar as dificuldades em uma sociedade que falha em me acomodar. Isso certamente não se aplica a pessoas cujo funcionamento é mais severamente comprometido. Se você responde a mudanças inesperadas com crises de ansiedade porque não consegue se ajustar rápido, isso certamente é uma deficiência no sentido literal.” 

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O problema da representação midiática: o mito do “gênio autista”

Uma das críticas mais consistentes ao movimento da neurodiversidade é que a representação midiática dos transtornos tende a se concentrar em casos extraordinários, criando uma percepção distorcida da realidade.

Filmes como “Rain Man” popularizaram a imagem do autista com habilidades savant — memória excepcional, cálculo mental rápido, habilidades artísticas impressionantes. Especulações sobre figuras públicas como Bill Gates e Elon Musk terem Síndrome de Asperger reforçaram a ideia de que o autismo está associado a gênios da tecnologia .

Como observou um participante do debate online:

“Sim, pessoas com TEA podem ter talentos únicos. Sim, nem todos somos completamente desfavorecidos. Sim, TEA não nos torna automaticamente menos capazes. Mas a maioria de nós não é um gênio insano. Você simplesmente não veria notícias sobre o autista ‘comum’ — a mídia só reporta o extraordinário. E se o único contato de alguém com o tema é através da mídia que mostra os savants, é fácil esquecer que o que estão vendo não é representativo.” 

Essa distorção tem consequências concretas. Quando a sociedade acredita que todo autista tem um “superpoder”, as expectativas em relação a pessoas com TEA se tornam irrealistas. E quando essas expectativas não são atendidas, a frustração recai sobre a própria pessoa autista — como se ela não estivesse “se esforçando o suficiente” para acessar seu suposto dom.

“Meu TDAH não é meu superpoder” — a crítica do autor na primeira pessoa…

Em um artigo publicado na The Swaddle em 2024, uma autora que recebeu diagnóstico tardio de TDAH fez uma crítica contundente ao movimento da neurodiversidade. Seu texto, intitulado “I Have ADHD. Don’t Call Me Neurodivergent” , expõe com clareza as tensões internas do movimento:

“Pessoas vocalizadoras na comunidade neurodivergente se vendem como diferentes, não deficientes. Mas, na minha experiência — especialmente na Índia — são as pessoas com o vocabulário mais refinado, o capital para obter um papel formal (o laudo) e o poder de barganha que geralmente conseguem acessar essa reivindicação com mais facilidade. E então elas a transformam em uma posição moralmente superior e enjoativa: ‘meu TDAH é meu superpoder’.” 

A autora relata como, antes de receber o diagnóstico, ela mesma fazia piada com o que chama de “complexo industrial da neurodivergência” — a tendência de usar o discurso da neurodiversidade para se isentar de responsabilidades e obrigações humanas básicas . Para ela, o movimento se tornou um “exercício de autoimportância” em vez de uma postura politicamente radicalizada:

“Para um movimento que começou como um desdobramento do movimento dos direitos civis, muitos de nós que somos neurodivergentes não fazemos muita coisa além de acusar os outros de serem capacitistas na internet.” 

Ela questiona abertamente a abordagem dominante:

*”Sou uma traidora da causa por querer apenas tratar meus sintomas de TDAH e seguir em frente, continuando meu 9-5 tranquilamente?”* 

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“Meu diagnóstico não é minha identidade”….

Um dos pontos centrais da crítica de pessoas com transtornos do neurodesenvolvimento ao movimento da neurodiversidade é a transformação do diagnóstico em identidade.

A mesma autora do artigo da The Swaddle relata que, ao receber a sugestão de que poderia ter TDAH, resistiu a se identificar como “neurodivergente”. Sua posição era clara: ela queria um diagnóstico de TDAH, queria medicação, queria tratar os sintomas — mas não queria transformar aquilo em sua identidade .

“Se fosse só TDAH, eu poderia tratar como uma doença — como minha depressão — e seguir em frente. Nenhum daqueles exercícios de enquadramento identitário de me chamar de neurodivergente para qualquer um que pudesse me ouvir. Medicação — tomada em particular, silenciosamente — parecia que resolveria muitos dos meus problemas.” 

Essa perspectiva é frequentemente silenciada no debate público. Quem ousa questionar a narrativa dominante da neurodiversidade corre o risco de ser acusado de “capacitismo” ou de estar “contra a comunidade”. A autora menciona Twilah Hiari, uma escritora cuja Síndrome de Asperger evoluiu para autismo de maior suporte aos 38 anos, que acusou o movimento da neurodiversidade de “pensamento de grupo tirânico” .

A armadilha do “acomodacionismo”…..

Uma crítica política ao movimento da neurodiversidade, levantada pela mesma autora, é que ele se tornou um movimento assimilacionista, não transformador.

Originalmente, o movimento questionava estruturas. Hoje, argumenta-se, ele se limita a pedir “acomodações” dentro do sistema capitalista existente, sem questionar as premissas desse sistema . A autora questiona:

“A neurodivergência é identificável pela incapacidade de funcionar em uma sociedade capitalista — mas a solução proposta é legitimá-la como uma identidade e assimilar, em vez de se desinvestir do sistema. […] Por que nossas demandas são tão… mornas? Em nenhum momento discernível a neurodivergência se tornou uma oportunidade para reconhecer a alienação emocional de trabalhar longas, monótonas e imprevisíveis horas para atender aos resultados financeiros do chefe — para todos.” 

Ela critica ainda a abordagem individualizante do movimento:

“Vejo o movimento da neurodivergência como tendo se transformado em uma ‘operação psicológica neoliberal’: uma enorme distração discursiva destinada a nos voltar ainda mais para dentro, recuar em nossas próprias cabeças, nos fazer desenvolver neologismos obscuros para proteger nossas supostas fragilidades individuais — muitas das quais são realmente apenas… ser humano.” 

O impacto nos irmãos e cuidadores….

Outra dimensão pouco discutida da romantização é seu efeito sobre familiares e cuidadores.

Quando a mídia e as redes sociais mostram apenas histórias de sucesso — o autista que se tornou programador, o TDAH que transformou sua “desatenção” em criatividade empreendedora —, as famílias que enfrentam dificuldades severas se sentem duplamente fracassadas. Não apenas lidam com os desafios diários, mas também se perguntam: “O que estamos fazendo de errado? Por que nosso filho não está ‘florescendo’ como aqueles que aparecem na internet?”

A romantização, ao focar nos casos excepcionais e nas habilidades supostamente “compensatórias”, apaga a experiência da maioria. E, como apontou o neurocientista Costandi, a voz que fica é a daqueles que conseguem falar por si mesmos — frequentemente os de menor necessidade de suporte — enquanto os de maior comprometimento continuam invisíveis .

O debate sobre terminologia: doença, deficiência ou diferença?

No cerne da questão está um debate que ainda não foi resolvido: transtornos do neurodesenvolvimento são doenças? Deficiências? Diferenças? 

Os defensores da neurodiversidade tendem a rejeitar o termo “doença” e muitos rejeitam até “deficiência”, preferindo “diferença”. A crítica aponta que essa escolha terminológica, embora bem-intencionada, pode ter consequências negativas.

Um participante do debate online argumentou que prefere traçar a linha entre “deficiência” e “neurodivergência” onde a condição “precisa ser curada com remédio ou você vira um vegetal ou não consegue sobreviver” — citando esquizofrenia e transtorno bipolar como exemplos. Para TEA e TDAH, ele argumenta, “a maioria dos problemas vem de tentar seguir procedimentos feitos para pessoas diferentes e imitá-los” . Mas reconhece que essa linha é tênue e não se aplica a todos os casos.

O que fica claro é que não há consenso. E a imposição de uma única narrativa — a da neurodiversidade como superpoder — silencia vozes legítimas que pedem por uma abordagem mais equilibrada.

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Ninguém te contou que…

  • O movimento da neurodiversidade tem críticos de dentro da própria comunidade autista e com TDAH — pessoas que argumentam que a romantização invalida seu sofrimento real 
  • A representação midiática foca em casos excepcionais (os “savants”, os “gênios autistas”), criando expectativas irreais para a maioria 
  • “Meu TDAH é meu superpoder” não é uma frase unânime — muitos rejeitam essa narrativa como uma forma de “posicionamento moral superior” acessível apenas a quem tem recursos para obter um diagnóstico formal 
  • A neurodiversidade virou identidade para muitos, mas há quem prefira tratar sua condição como uma condição médica e seguir em frente — sem emojis de cérebro e arco-íris na bio do Instagram 
  • O movimento tem sido criticado por ser “assimilacionista” — pedindo acomodações dentro do sistema capitalista em vez de questionar o próprio sistema 
  • Pais e cuidadores de pessoas com maior necessidade de suporte se sentem excluídos — o discurso do “superpoder” não se aplica a quem cuida de uma pessoa não-verbal com crises frequentes
  • A crítica à romantização não é “capacitismo” — é um pedido legítimo de pessoas com transtornos do neurodesenvolvimento para que sua dor seja reconhecida 

Se você se identificou…

Se você é pai, mãe, cuidador ou a própria pessoa com diagnóstico, e sente que o discurso do “superpoder” não se aplica à sua realidade, alguns pontos merecem ser ditos:

  1. Sua dor é real. Você não está “rejeitando a neurodiversidade” por reconhecer que o transtorno do seu filho (ou o seu) causa sofrimento. Reconhecer a dor não é preconceito — é honestidade.
  2. Não há nada de errado em querer tratamento. A crítica de uma das autoras citadas é direta: ela queria medicação para seu TDAH, não um selo de “neurodivergente” . Querer reduzir sintomas não é “trair o movimento”.
  3. Você não precisa abraçar a narrativa do superpoder. Se seu filho não desenvolveu habilidades especiais, se ele sofre com as limitações impostas pelo transtorno, você não está “falhando em ver o lado positivo”. Você está vendo a realidade.
  4. A experiência de quem precisa de maior suporte é diferente. O movimento da neurodiversidade tem sido criticado por ser dominado por pessoas de “alto funcionamento” . Se essa não é a sua realidade, busque comunidades que acolham sua experiência específica.
  5. É possível celebrar a diferença sem romantizar o sofrimento. Não é uma escolha binária entre “transtorno horrível” e “superpoder maravilhoso”. Há um meio-termo: reconhecer as dificuldades reais, lutar por direitos e acessibilidade, sem precisar fingir que a condição é uma bênção disfarçada.

No próximo post: “Não Estou Sozinho, Mas Me Sinto Assim” — Isolamento social da família

Compartilhe este texto com outros pais e pessoas com diagnóstico que também se sentem desconfortáveis com a romantização — não para criticar o movimento da neurodiversidade como um todo, mas para lembrar que existe espaço para reconhecer a dor sem deixar de lutar por direitos.

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Para Saber Mais….

  • COSTANDI, M. (2019). Against Neurodiversity. Aeon. (Discussão no programa AirTalk da LAist, set. 2019) 
  • RUBY*. (2024). I Have ADHD. Don’t Call Me Neurodivergent. The Swaddle, 16 ago. 2024 
  • ARMSTRONG, T. (2010). Neurodiversity: Discovering the Extraordinary Gifts of Autism, ADHD, Dyslexia, and Other Brain Differences. Da Capo Press 
  • Discussão em fórum online: “Because it takes slightly less mental energy to sit and stress than to do the thing.” Lemmy.World 

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