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Série: O Que os Olhos Não Querem Ver – Episódio 1 – O Espancamento como “Método Educativo”.

“Ele só precisa de um corretivo.”
“Isso é falta de vergonha na cara.”
“Meu filho não tem doença nenhuma.”

Frases assim foram ditas por pais que, em pleno século XXI, ainda acreditam que bater, gritar e castigar fisicamente resolvem crises de crianças com transtornos do neurodesenvolvimento. Não resolvem. Pioram. E muitas vezes enterram, sob o silêncio das paredes, o que poderia ter sido um diagnóstico precoce e um futuro menos doloroso.


O caso (real, mas anônimo)….

Um menino de 9 anos, vamos chamá-lo de Caio, foi criado aos gritos e cintadas. Desde os 5, tinha dificuldade de ficar parado, estranhava barulhos altos, se debatia quando forçado a olhar nos olhos dos outros. Na escola: não aprendia, vivia de castigo, batia nos colegas quando se sentia sobrecarregado.

O pai de Caio tinha um lema: “Pau que nasce torto, endireita na porrada.”

Toda crise – um choro sem motivo aparente, uma recusa a fazer tarefa, um grito súbito – era respondida com palmadas, joelhos no milho, trancar no quarto escuro. A mãe, amedrontada, tentou sugerir uma consulta com neuropediatra. O pai respondeu: “Quer dizer que meu filho é louco? É você que quer lacrar de moderninha?”

Aos 8 anos, a escola pediu avaliação. O pai foi na reunião e disse: “Meu filho não tem nada. Só precisa de mais disciplina. Se vocês deixassem eu dar uns cascudos lá, ele aprendia.”

A professora, com lágrimas nos olhos, registrou tudo no Conselho Tutelar.

Resultado? Caio foi avaliado aos 9 anos, após uma decisão judicial que suspendeu temporariamente o poder familiar do pai. O laudo veio: Transtorno do Espectro Autista (TEA) nível 1 de suporte + Transtorno de Ansiedade Generalizada.

As “crises de desobediência” eram, na verdade, sobrecargas sensoriais. As “birras” eram crises de meltdown autista. O menino não era “mau”. Estava gritando por ajuda, e o pai respondia com dor.

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A ciência é clara: bater piora os sintomas….

Pesquisas da Academia Americana de Pediatria e da OMS mostram que crianças com TEA, TDAH, dislexia ou TOD que sofrem punições físicas:

  • Desenvolvem transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) mais grave do que crianças neurotípicas castigadas;
  • Têm maior probabilidade de automutilação (bater a cabeça, morder os próprios braços);
  • Apresentam regressão de habilidades (param de falar, param de interagir);
  • Se tornam mais agressivas com colegas e irmãos, replicando o modelo de violência.

Ou seja: o “método educativo” não educa. Adoece.

“Falta de conhecimento não é a única causa”

Este blog já mostrou casos em que pais batem por pura ignorância – porque nunca ouviram falar de autismo, porque acham que TDAH é “frescura de médico”. Isso é triste, mas tem remédio: informação.

O caso de Caio é diferente. O pai sabia. A mãe mostrou artigos, vídeos, a própria escola orientou. Ele recusou. Porque aceitar que o filho tem TEA significaria:

  • Questionar a própria masculinidade (“meu filho não é frágil”);
  • Admitir que o método violento que o pai usou com ele – e que ele jurava ser “certo” – foi, na verdade, abuso disfarçado de educação;
  • Enfrentar o preconceito da família e dos amigos (“fulano disse que isso é doença de rico”).

Negar o diagnóstico foi mais fácil do que se desmontar por dentro.

O que aconteceu com Caio?

Com a guarda provisória para a mãe (após decisão judicial), Caio começou terapia ocupacional, fonoaudiologia e acompanhamento psiquiátrico. Em 6 meses:

  • As crises diminuíram 70%;
  • Ele aprendeu a pedir pausa quando sentia sobrecarga;
  • A escola adaptou provas e sala;
  • Parou de se machucar.

O pai ainda não aceita. Diz que a mãe “encheu o menino de remédio e mimou”. Hoje vê o filho em visitas supervisionadas – e já foi denunciado duas vezes por agressão verbal durante essas visitas.

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O que você pode fazer se reconhecer essa história?

  1. Se você é mãe/pai/mãe social que desconfia de um transtorno e o outro genitor impede: procure o Conselho Tutelar ou a Vara da Infância. Guarda unilateral para tratamento é possível.
  2. Se você é vizinho, tio, professor: denuncie. Anonimamente, se precisar. Disque 100.
  3. Se você foi essa criança: há ajuda. O SUS oferece acompanhamento neuropsicológico e psiquiátrico. Procure um CAPS Infantil.

A pergunta que fica…

Quantos Caixos ainda estão apanhando neste exato momento, enquanto os pais juram que “bater é a solução”?

Quantos diagnósticos estão enterrados debaixo de cintadas, porque olhar para a diferença dói mais do que causar dor?

O que os olhos não querem ver, o corpo da criança grita.

Na próxima semana: Episódio 2 – A Escola Denuncia, os Pais Negam – quando professores e psicólogos apontam a necessidade de avaliação, e a família se recusa a ouvir.

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