O menino que “não parava quieto”: quando o sintoma estava no corpo, não na cabeça
Um caso recebido por e-mail que mostra como uma condição clínica não investigada pode imitar TDAH por anos. Anonimizado e publicado com autorização.
Apresentação da série
Esta série é um espaço para falar do que fazemos entre a queixa e o encaminhamento. Do raciocínio clínico que não aparece nos manuais. Das decisões que tomamos quando a hipótese inicial não se sustenta, quando o instrumento não dá resposta, e quando percebemos que os fatores que mais afetam a aprendizagem não estão sendo avaliados.
Psicopedagogos e neuropsicopedagogos não diagnosticam. Nosso trabalho é levantar hipóteses, investigar, intervir e encaminhar para que profissionais da área médica possam, se for o caso, fechar um diagnóstico.
Os casos publicados aqui são recebidos por e-mail, anonimizados, e publicados com autorização. Nenhum dado permite identificação.
A queixa que chegou com um nome pronto………
Recebi este caso por e-mail. Vou chamar o menino de T. Ele tinha 8 anos, estava no 3º ano, e chegou ao consultório da colega que me escreveu com um encaminhamento que dizia: “T. não para quieto. Levanta da cadeira toda hora, mexe em tudo, não termina as atividades, interrompe os colegas, parece que tem um motor dentro dele. A escola sugeriu avaliação para TDAH.”
A mãe, na primeira conversa, foi direta: “Eu já li tudo sobre TDAH. Meu sobrinho tem. É igualzinho. Eu só quero um laudo para ele ter os direitos dele na escola.”
O pai não participou da primeira conversa. A mãe disse: “Ele acha que é falta de pulso. Que eu deveria bater mais.”
A hipótese que chegou pronta era: TDAH, tipo hiperativo-impulsivo. A família já tinha decidido. A escola já tinha decidido. Só faltava o profissional confirmar.
O que a avaliação tradicional mostrou?
A colega fez o que a formação orienta. Anamnese com a mãe. Observação estruturada. Tarefas de atenção, memória, controle inibitório. Escalas de comportamento respondidas pela mãe e pela professora. Histórico escolar.
O que apareceu:
- Atenção sustentada: muito abaixo do esperado. T. não conseguia manter o foco por mais de 3 a 4 minutos.
- Controle inibitório: abaixo do esperado. Interrompia, não esperava a vez, respondia antes de a pergunta terminar.
- Hiperatividade motora: presente. Levantava da cadeira, mexia as pernas, girava o lápis, tocava em tudo.
- Impulsividade: presente. Falava sem ser chamado, respondia antes de ouvir a pergunta completa.
- Escala de comportamento (professora): índices muito elevados em hiperatividade e impulsividade.
- Escala de comportamento (mãe): índices muito elevados em hiperatividade e impulsividade. Mas um item chamou atenção: “A criança parece estar sempre cansada” — marcado como “muito verdadeiro”. A mãe não hesitou. Disse: “Ele vive cansado. Mas é porque não para, né?”
Nas sessões, T. era agitado. Mas havia algo que a colega anotou e não soube explicar na época: T. bocejava. Muito. Mesmo às 10h da manhã. Mesmo depois de uma noite inteira de sono — segundo a mãe.
Quatro sessões. A hipótese de TDAH parecia se confirmar. Mas algo não fechava.
T. não era apenas agitado. T. era sonolento. E ninguém tinha investigado isso.
O que a avaliação tradicional não viu?
A colega começou a se perguntar: “Por que uma criança de 8 anos bocejava tanto?”
A resposta que veio — depois de muitas perguntas — foi: T. não dormia bem. E ninguém sabia.
A mãe disse que T. dormia às 21h e acordava às 7h. Dez horas de sono. Em teoria, suficiente. Mas a colega perguntou mais:
“Ele acorda descansado?” — “Não. Acorda irritado, cansado. Acho que é da idade.”
“Ele ronca?” — “Ronca. Muito. Às vezes eu escuto do quarto ao lado.”
“Ele respira pela boca?” — “Sempre. Vive com a boca aberta. O dentista já falou.”
“Ele tem alguma alergia? Rinite? Sinusite?” — “Tem rinite. Vive com o nariz entupido. Mas a gente dá o antialérgico.”
A colega encaminhou T. para avaliação com otorrinolaringologista e para um exame de polissonografia. O resultado: T. tinha apneia obstrutiva do sono. Grau moderado a grave.
A literatura sobre apneia do sono em crianças é clara: a apneia obstrutiva do sono está associada a hiperatividade, impulsividade, desatenção e dificuldade de aprendizagem — sintomas que podem ser facilmente confundidos com TDAH . Crianças com apneia não descansam. Acordam várias vezes à noite sem perceber. E o cérebro, privado de sono reparador, responde da única forma que sabe: agitando-se para ficar acordado.
O que a escola viu como “TDAH” era, na verdade, privação crônica de sono por apneia obstrutiva não diagnosticada. T. não tinha um “motor dentro dele”. T. tinha uma garganta que fechava à noite.
O que apareceu depois do exame?
Com o tratamento — que incluiu cirurgia de adenoides e amígdalas e acompanhamento otorrinolaringológico —, T. começou a dormir melhor. A mãe relatou, em seis semanas, que ele acordava mais disposto. Que roncava menos. Que respirava melhor.
A agitação diurna diminuiu. Não desapareceu — T. ainda era uma criança agitada, e a colega continuou o acompanhamento psicopedagógico por mais três meses, focando em organização, atenção sustentada e autorregulação. Mas a diferença era visível.
A colega escreveu no e-mail: “Eu não sei o que teria acontecido se eu tivesse dado o laudo de TDAH na quarta sessão. Ele teria sido medicado. Talvez melhorasse. Talvez não. Mas ninguém teria investigado a garganta. E a garganta era a causa.”
Como foram organizadas as novas sessões?
A partir da quinta sessão, o plano mudou completamente.
Sessão 5: Encaminhamento para otorrinolaringologista e polissonografia
- A colega conversou com a mãe sobre os sinais observados: bocejos frequentes, ronco, respiração bucal, rinite crônica, cansaço ao acordar.
- Explicou que esses sinais poderiam indicar um distúrbio do sono, e que distúrbios do sono podem imitar TDAH.
- A mãe resistiu no início: “Mas ele dorme dez horas por noite.” A colega explicou que dormir muito não significa dormir bem. Que a apneia fragmenta o sono sem que a pessoa perceba.
Sessões 6 a 8: Acompanhamento psicopedagógico enquanto aguardava o exame
- A colega não interrompeu o trabalho. Continuou com atividades de atenção e autorregulação, mas com ajustes: atividades mais curtas, pausas programadas, movimento permitido (levantar, beber água, caminhar até a janela).
- Paralelamente, orientou a mãe sobre higiene do sono: horário fixo, quarto escuro, sem telas antes de dormir, tratar a rinite de forma consistente.
Sessões 9 a 14: Pós-tratamento
- Com a cirurgia e o tratamento da rinite, T. começou a dormir melhor.
- A colega retomou as atividades de atenção sustentada. T. conseguia ficar 10, depois 15 minutos em uma tarefa. Ainda era agitado, mas não era mais sonolento.
- Trabalhou organização, planejamento e autoinstrução — habilidades que T. não tinha desenvolvido porque nunca tinha tido energia cognitiva para isso.
- Orientou a escola: T. ainda precisava de movimento, mas não era mais “o menino que não para quieto”. Era um menino que estava aprendendo a regular o corpo.
Encaminhamento:
Para otorrinolaringologista (realizado). Para polissonografia (realizada). Para psicologia clínica, com foco em autoestima e ansiedade de desempenho. A colega manteve o acompanhamento psicopedagógico em paralelo.
O que se aprendeu com esse caso?
O que se aprendeu:
- Que nem toda hiperatividade é TDAH. E que antes de investigar o cérebro, é preciso investigar o sono .
- Que a apneia obstrutiva do sono em crianças pode imitar TDAH — e que os sinais estão no corpo: ronco, respiração bucal, bocejos frequentes, cansaço ao acordar, rinite crônica.
- Que o psicopedagogo não diagnostica apneia. Mas pode observar sinais — bocejos, ronco relatado, respiração bucal, cansaço — e encaminhar para otorrinolaringologista e polissonografia.
- Que perguntar “como é o sono dessa criança?” deveria ser tão automático quanto perguntar “como está a leitura?”.
O que ainda não se sabe:
- Quantos T. existem por aí, com laudo de TDAH, que na verdade precisam de cirurgia de adenoides.
- Quantas crianças são medicadas com estimulantes por anos, quando o problema está na garganta.
- Se a escola tivesse um programa de rastreio de sono, T. teria sofrido menos.
- Se o pai, que “achava que era falta de pulso”, teria acreditado antes se alguém tivesse explicado o que era apneia.
Para você, que está no meio de um caso que não fecha?
Este post não é sobre “acertar”. É sobre o que se faz quando o sintoma que chega não é o sintoma que importa.
Durante quatro sessões, a colega que enviou este caso pensou em TDAH. Fez o que era esperado. Aplicou o que era esperado. E quase perdeu o menino atrás da queixa.
Hoje ela sabe: a agitação que chegou como “TDAH” era privação de sono por apneia obstrutiva. E o trabalho dela não era tratar TDAH. Era encaminhar T. para quem pudesse fazê-lo dormir.
Nem todo caso tem um nome. E o nosso trabalho não é dar um nome. É perguntar: “O que está acontecendo no corpo dessa criança que pode estar produzindo esse sintoma?”
Se você está agora no meio de um caso que não fecha, este post é para você. Não para te dar uma resposta. Para te lembrar de perguntar: “Como é o sono dessa criança?”
Checklist para avaliação ampliada: sono e respiração.
A colega que enviou este caso compartilhou o checklist que passou a usar depois dessa experiência:
- Sono: Quantas horas por noite? A criança acorda descansada? Tem dificuldade para acordar?
- Ronco: A criança ronca? Alto? Todos os dias? Alguém já reclamou?
- Respiração: A criança respira pela boca? Dorme com a boca aberta? Tem rinite, sinusite, asma?
- Pausas na respiração: Alguém já observou a criança parar de respirar por alguns segundos enquanto dorme?
- Bocejos: A criança boceja muito durante o dia? Mesmo depois de dormir?
- Cansaço: A criança parece sempre cansada? Diz que está com sono? Tem olheiras?
- Agitação: A agitação piora em determinados horários? Melhora depois de dormir bem?
- Histórico: Alguém na família tem apneia? Ronca? Usa CPAP?
E você?
Já atendeu um caso que parecia TDAH e era sono? Já percebeu que a criança “não parava quieta” porque estava exausta? Já sentiu que o encaminhamento para otorrinolaringologista deveria ter sido o primeiro, não o último?
Escreve nos comentários. Ou me manda por e-mail. Casos que não fecham não deveriam ser vividos sozinhos.
Se você quiser enviar seu caso para esta série, escreva para o e-mail do blog com o assunto “Casos que Não Fecham”. Todos os dados serão anonimizados e publicados somente com sua autorização.
Este é o quinto post da série “Casos que Não Fecham”. Aqui, publico casos reais (anonimizados e enviados por profissionais) em que a hipótese inicial não se confirmou, o instrumento não deu resposta, e a decisão clínica foi tomada na incerteza. Se você tem um caso assim e quer compartilhar, me escreve.
