O menino que “não sentia dor”: quando a queixa de agressividade escondia uma neuropatia não diagnosticada
Um caso recebido por e-mail que mostra como uma condição neurológica rara pode ser confundida com transtorno de conduta por anos. Anonimizado e publicado com autorização.
Apresentação da série
Esta série é um espaço para falar do que fazemos entre a queixa e o encaminhamento. Do raciocínio clínico que não aparece nos manuais. Das decisões que tomamos quando a hipótese inicial não se sustenta, quando o instrumento não dá resposta, e quando percebemos que os fatores que mais afetam a aprendizagem não estão sendo avaliados.
Psicopedagogos e neuropsicopedagogos não diagnosticam. Nosso trabalho é levantar hipóteses, investigar, intervir e encaminhar para que profissionais da área médica possam, se for o caso, fechar um diagnóstico.
Os casos publicados aqui são recebidos por e-mail, anonimizados, e publicados com autorização. Nenhum dado permite identificação.
A queixa que chegou com uma palavra que ninguém usou.
Recebi este caso por e-mail. Vou chamar o menino de D. Ele tinha 6 anos, estava no 1º ano, e chegou ao consultório da colega que me escreveu com um encaminhamento que dizia: “D. agride os colegas sem motivo. Morde. Empurra. Não demonstra arrependimento. Parece não sentir empatia. A escola sugere avaliação para transtorno de conduta.”
A mãe, na primeira conversa, chorou. Disse: “Eu não sei o que fazer. Ele é carinhoso em casa. Mas na escola é outra criança. A diretora já falou que se continuar assim, ele vai ser expulso. Ele só tem seis anos.”
O pai não participou da primeira conversa. A mãe disse: “Ele trabalha fora. E acha que eu estou mimando demais.”
A hipótese que chegou pronta era: transtorno de conduta. Possível psicopatia infantil. Possível “falta de limites”.
O que a avaliação tradicional mostrou?
A colega fez o que a formação orienta. Anamnese com a mãe. Observação estruturada. Tarefas de atenção, funções executivas, empatia, teoria da mente. Escalas de comportamento respondidas pela mãe e pela professora.
O que apareceu:
- Atenção sustentada: dentro do esperado. D. conseguia manter o foco em atividades de interesse.
- Funções executivas: dentro do esperado para a idade.
- Empatia: preservada. D. demonstrava preocupação quando a colega simulava dor. Perguntou se ela estava bem. Ofereceu o brinquedo preferido.
- Teoria da mente: preservada. D. conseguia identificar emoções em figuras, entender perspectivas diferentes.
- Comportamento na sessão: D. não era agressivo. Não mordia. Não empurrava. Era afetuoso. Pedia colo. Dizia que amava a mãe.
- Escala de comportamento (professora): índices muito elevados em agressividade e oposição.
- Escala de comportamento (mãe): índices baixos em agressividade e oposição. A mãe marcou “a criança é carinhosa” como “muito verdadeiro”. Marcou “a criança agride outras crianças” como “falso”.
A discrepância era enorme. A escola via um monstro. A mãe via um menino carinhoso. E a colega via um menino de seis anos que pedia colo.
Quatro sessões. A hipótese de transtorno de conduta não se sustentava. Mas algo não fechava.
D. não era agressivo na sessão. Não era agressivo em casa. Por que era agressivo na escola?
O que a avaliação tradicional não viu?
A colega começou a se perguntar: “O que acontece na escola que não acontece em casa nem aqui?”
A resposta que veio — depois de muitas perguntas — foi: D. não sentia dor. E ninguém sabia.
A colega perguntou à mãe: “Ele já se machucou? Já quebrou algum osso? Já precisou de pontos?”
A mãe: “Ele já quebrou o braço duas vezes. Já levou pontos na cabeça três vezes. Já caiu da escada. Mas ele nunca chora. Nunca reclama. A gente só descobre que ele se machucou quando vê o machucado.”
A colega perguntou: “Ele já mordeu alguém em casa?”
A mãe: “Nunca. Mas na escola, sim. A professora disse que ele morde os colegas. Eu não entendo. Ele nunca mordeu ninguém em casa.”
A colega perguntou: “Ele já mordeu a si mesmo?”
A mãe ficou em silêncio. Depois: “Ele morde o próprio braço. Quando fica nervoso. Eu achava que era manha.”
A colega encaminhou D. para avaliação neurológica. O resultado: D. tinha uma neuropatia sensitiva hereditária — uma condição rara em que a pessoa não sente dor física. Ele não sentia dor ao ser mordido, ao cair, ao quebrar um osso.
A literatura sobre neuropatias sensitivas hereditárias em crianças é clara: crianças com insensibilidade à dor frequentemente apresentam comportamentos que são mal interpretados como agressividade, automutilação ou transtorno de conduta . Elas mordem, batem, empurram e se machucam sem perceber o dano — porque não sentem o dano. Elas não aprendem, pelo corpo, que a dor existe. E, sem essa aprendizagem, os limites físicos e sociais se tornam abstratos.
D. não era agressivo. D. não sentia dor. E ninguém, em seis anos, tinha percebido.
O que apareceu depois do exame?
Com o diagnóstico neurológico, o plano mudou completamente. Não havia cura para a neuropatia. Mas havia manejo.
A colega trabalhou com D. e com a escola:
- Reconhecimento de sinais corporais: D. precisou aprender a identificar sinais de machucado sem dor — vermelhidão, inchaço, sangramento.
- Substituição de comportamentos: quando sentia vontade de morder, D. aprendeu a apertar um objeto, a pedir ajuda, a sair da situação.
- Adaptação da escola: a professora passou a observar D. com mais atenção. Não para punir, mas para proteger. D. não podia participar de atividades de risco sem supervisão.
- Explicação para os colegas: a escola explicou, de forma adequada à idade, que D. tinha uma condição que fazia ele não sentir dor. Que ele não era “mau”. Que precisava de ajuda para aprender a se cuidar.
A agressividade diminuiu. Não porque D. “aprendeu a ter limites”, mas porque a escola parou de interpretar como agressão o que era, na verdade, uma tentativa desesperada de sentir algo — ou de não sentir nada.
Como foram organizadas as novas sessões?
A partir da quinta sessão, o plano mudou completamente.
Sessão 5: Encaminhamento neurológico
- A colega conversou com a mãe sobre os sinais observados: ausência de choro em situações de dor, fraturas repetidas, mordidas no próprio braço, discrepância entre comportamento em casa e na escola.
- Explicou que esses sinais poderiam indicar uma condição neurológica, e que era importante investigar.
- A mãe resistiu no início: “Mas ele é só uma criança agitada.” A colega explicou que agitação não explica ausência de dor.
Sessões 6 a 8: Acompanhamento psicopedagógico enquanto aguardava o exame
- A colega não interrompeu o trabalho. Continuou com atividades de autorregulação, mas com ajustes: atividades que envolviam tato, propriocepção e reconhecimento corporal.
- Paralelamente, orientou a mãe sobre segurança em casa: proteger quinas, supervisionar brincadeiras, observar sinais de machucado.
Sessões 9 a 16: Pós-diagnóstico
- Com o diagnóstico, a colega trabalhou com D. a alfabetização corporal: aprender a identificar sinais de machucado, a pedir ajuda, a evitar situações de risco.
- Trabalhou com a escola a adaptação do ambiente: supervisão em recreios, atividades de risco adaptadas, explicação para os colegas.
- Trabalhou com a mãe a reconstrução da narrativa: “Ele não é mau. Ele não sente dor. Ele precisa de ajuda para aprender a se cuidar.”
Encaminhamento:
Para neurologista (realizado). Para genetista (realizado). Para psicologia clínica, com foco em autoestima e ansiedade. A colega manteve o acompanhamento psicopedagógico em paralelo.
O que se aprendeu com esse caso?
O que se aprendeu:
- Que nem toda agressividade é transtorno de conduta. E que antes de investigar o comportamento, é preciso investigar o corpo .
- Que neuropatias sensitivas hereditárias podem imitar transtorno de conduta — e que os sinais estão no corpo: ausência de choro em situações de dor, fraturas repetidas, mordidas no próprio corpo, machucados que a criança não percebe.
- Que o psicopedagogo não diagnostica neuropatia. Mas pode observar sinais — ausência de reação à dor, machucados inexplicados, comportamentos repetitivos de morder ou bater — e encaminhar para neurologista.
- Que perguntar “essa criança sente dor?” deveria ser tão automático quanto perguntar “essa criança sente tristeza?”.
O que ainda não se sabe:
- Quantos D. existem por aí, com laudo de transtorno de conduta, que na verdade têm uma condição neurológica rara.
- Quantas crianças são expulsas da escola, punidas, medicadas, quando o problema está nos nervos.
- Se a escola tivesse um programa de rastreio de condições neurológicas raras, D. teria sofrido menos.
- Se a mãe, que “achava que era manha”, teria acreditado antes se alguém tivesse explicado o que era neuropatia sensitiva.
Para você, que está no meio de um caso que não fecha?
Este post não é sobre “acertar”. É sobre o que se faz quando o sintoma que chega não é o sintoma que importa.
Durante quatro sessões, a colega que enviou este caso pensou em transtorno de conduta. Fez o que era esperado. Aplicou o que era esperado. E quase perdeu o menino atrás da queixa.
Hoje ela sabe: a agressividade que chegou como “transtorno de conduta” era uma neuropatia sensitiva não diagnosticada. E o trabalho dela não era tratar transtorno de conduta. Era encaminhar D. para quem pudesse fazê-lo sentir — ou ensiná-lo a viver sem sentir.
Nem todo caso tem um nome. E o nosso trabalho não é dar um nome. É perguntar: “O que está acontecendo no corpo dessa criança que pode estar produzindo esse sintoma?”
Se você está agora no meio de um caso que não fecha, este post é para você. Não para te dar uma resposta. Para te lembrar de perguntar: “Essa criança sente dor?”
Checklist para avaliação ampliada: dor, corpo e sinais neurológicos..
A colega que enviou este caso compartilhou o checklist que passou a usar depois dessa experiência:
- Reação à dor: A criança chora quando se machuca? Reclama de dor? Já teve fraturas? Já precisou de pontos?
- Machucados: A criança tem machucados frequentes? Machucados que ela não percebe? Cicatrizes antigas?
- Automutilação: A criança morde, bate ou arranha a si mesma? Quando? Em que situações?
- Discrepância de comportamento: A criança é agressiva em um contexto e não em outro? O que isso pode estar dizendo?
- Histórico familiar: Alguém na família tem insensibilidade à dor? Neuropatia? Doenças neurológicas raras?
- Outros sinais neurológicos: A criança tem dificuldade de coordenação? Perda de força? Tremores? Alterações de sensibilidade?
- Fala da criança: Ela diz que não sente dor? Que “não dói”? Que “é só um machucadinho”?
E você?
Já atendeu um caso que parecia transtorno de conduta e era neurológico? Já percebeu que a criança “não sentia dor” e ninguém tinha investigado? Já sentiu que o encaminhamento para neurologista deveria ter sido o primeiro, não o último?
Escreve nos comentários. Ou me manda por e-mail. Casos que não fecham não deveriam ser vividos sozinhos.
Se você quiser enviar seu caso para esta série, escreva para o e-mail do blog com o assunto “Casos que Não Fecham”. Todos os dados serão anonimizados e publicados somente com sua autorização.
Este é o sexto post da série “Casos que Não Fecham”. Aqui, publico casos reais (anonimizados e enviados por profissionais) em que a hipótese inicial não se confirmou, o instrumento não deu resposta, e a decisão clínica foi tomada na incerteza. Se você tem um caso assim e quer compartilhar, me escreve.
