Estudo de Caso: “Quando a Desorganização não é Dislexia: A História de Isadora”
Olá Colegas hoje vamos aprender “O Caso Isadora” mais um estudo de caso utilizando meu Protocolo Homes Oliver – desenvolvido por mim Pp. Daliane Oliveira após 20 anos de estudos, pesquisas e muita dedicação com aplicação na prática com Crianças e Adolescentes na África do Sul/Kênia e vários estados do Brasil. Vou compartilhar com vocês minhas experiências e um modo eficiente de identificar, Avaliar e Intervir em nossas analises profissionais. Vamos nessa 🙂
1. IDENTIFICAÇÃO
- Nome: Isadora (pseudônimo)
- Idade: 9 anos e 3 meses
- Série: 4º ano do Ensino Fundamental
- Queixa principal: “Dificuldades graves em leitura e escrita. Troca letras, omite sílabas, leitura muito lenta. Escola sugere dislexia. Psicopedagoga anterior já havia levantado essa hipótese.”
2. QUEIXA INICIAL: O “CASO TÍPICO” DE DISLEXIA?
Entrevista Inicial com os Pais
Relato dos pais:
- “Não consegue ler textos do 4º ano”
- “Escreve ‘casa’ como ‘casa’, mas depois como ‘cassa'”
- “Leitura silabada, sem fluência”
- “Esquece palavras que já aprendeu”
- “Inteligente em tudo, menos na leitura”
- Frase da mãe: “A professora diz que é disléxica, que precisa de tratamento especializado.”
Relato da escola (ficha de encaminhamento):
- “Leitura abaixo do nível esperado”
- “Troca p/b, d/t com frequência”
- “Não acompanha a turma em ditados”
- “Falta consciência fonológica”
- “Capacidade de raciocínio preservada”
Expectativas: Pais desesperados, já pesquisaram escolas especializadas em dislexia. Professora pressiona por diagnóstico formal para “adaptações curriculares”.
Exploração inicial:
- Quando começou? “Desde a alfabetização, mas piorou agora no 4º ano.”
- Quando NÃO ocorre? “Quando lê histórias que já conhece de cor, parece que decora mais que lê.”
- Contexto crítico: Método de alfabetização inicial foi puramente silábico, com pouca ênfase em significado.
Primeira observação profissional: As “trocas” não seguem padrão fonológico típico da dislexia.
3. AVALIAÇÃO MULTIDIMENSIONAL: DESCONSTRUINDO O RÓTULO
A. ASPECTOS SENSORIAIS E PERCEPTUAIS
Avaliação oftalmológica especializada (após encaminhamento):
- Diagnóstico: Insuficiência de convergência ocular
- Sintomas: Visão dupla ao ler, dor de cabeça após 10 minutos de leitura
- Fator crucial: Os olhos não trabalham juntos eficientemente para tarefas de perto
- Tratamento anterior: Nenhum
Avaliação auditiva processamental:
- Audiometria tonal: Normal
- Teste de processamento auditivo:
- Figura-fundo: Comprometido (percentil 15)
- Memória sequencial verbal: Percentil 20
- Interpretação: Dificuldade em filtrar ruídos e lembrar sequências sonoras
Coordenção visuomotora:
- Teste de Bender: Dificuldades significativas
- Observação: Segura lápis com força excessiva, cansaço rápido na escrita
- Postura durante leitura: Inclina cabeça 45°, aproxima-se muito do texto
B. ASPECTOS EMOCIONAIS E HISTÓRICO ESCOLAR
Histórico de alfabetização:
- 1º ano: Método silábico puro, sem contextualização
- 2º ano: Reprovação por “não estar alfabetizada”
- 3º ano: Nova professora, método diferente, progresso lento
- 4º ano: Professora atual, exige fluência que Isadora não tem
Trauma escolar identificado:
- Evento 1: Humilhação pública no 2º ano (“Isadora, você ainda não sabe ler?”)
- Evento 2: Ser colocada para ler para a turma e “travar” completamente
- Evento 3: Ser chamada de “burra” por colegas
- Resultado: Pânico ao ser solicitada a ler em voz alta
Autoimagem e ansiedade:
- Frase de Isadora: “Meu cérebro é quebrado para ler”
- Desenho de si mesma lendo: Figura pequena, lágrimas, livros gigantes
- Sintomas físicos antes de ler: Taquicardia, sudorese, tremores
- Escala de ansiedade escolar: 85/90 (extrema)
C. CONTEXTO FAMILIAR E LINGUÍSTICO
Histórico familiar:
- Pai: Tem diagnóstico de dislexia na infância
- Mãe: Dificuldades escolares, mas não diagnosticada
- Expectativa familiar: “Era esperado que ela tivesse dislexia”
Ambiente linguístico:
- Estímulo precoce à leitura: Pouco (pais com histórico negativo com leitura)
- Livros em casa: Menos de 20, maioria enciclopédias/utilitários
- Rotina de leitura: Nunca estabelecida
- Atitude familiar: “Leitura é uma obrigação chata”
Pressão e intervenções anteriores:
- Aos 7 anos: Início reforço escolar (focado em repetição)
- Aos 8 anos: Psicopedagoga (diagnóstico prévio de “dislexia”)
- Atualmente: 3x semana reforço + 2x fonoaudióloga
D. AVALIAÇÃO ESPECÍFICA DAS HABILIDADES DE LEITURA E ESCRITA
Análise qualitativa dos erros:
| Tipo de Erro | Exemplo | Frequência | Padrão Dislexia? |
|---|---|---|---|
| Troca p/b | “bato” por “pato” | 15% | ☐ Sim ☐ Não (só ocorre no final da palavra) |
| Omissão sílabas | “cadea” por “cadeira” | 30% | ☐ Sim ☐ Não (sílabas complexas) |
| Inversão | “sol” por “los” | 5% | ☐ Sim ☐ Não (raras) |
| Adições | “cassa” por “casa” | 40% | ☐ Sim ☐ Não (atípico em dislexia) |
| Pronúncia | Silabação | 100% | ☐ Sim ☐ Não |
Padrão revelador: Erros inconsistentes – mesma palavra escrita de formas diferentes no mesmo texto.
Testes formais aplicados:
- PROLEC: Perfil atípico – compreensão preservada quando lida para ela
- CONFIAS: Consciência fonológica dentro do esperado para idade
- Ditado: Pior desempenho em palavras desconhecidas, melhor em familiares
- Leitura silenciosa vs oral: Compreensão 80% silenciosa vs 30% oral
Processamento fonológico:
- Rima: 90% acerto
- Segmentação silábica: 85% acerto
- Consciência fonêmica: 70% acerto (reduzida, mas não ausente)
- Memória fonológica de trabalho: Percentil 35
Velocidade de processamento:
- Nomeação rápida de cores/letras: Percentil 40
- Fator crítico: Lentidão geral, não específica para material linguístico
4. INTEGRAÇÃO DOS DADOS: A PERFEITA CONFUSÃO
Triangulação Reveladora:
| Comportamento “Disléxico” | Contexto A (Livro novo) | Contexto B (Livro conhecido) | Contexto C (Leitura compartilhada) |
|---|---|---|---|
| Erros de troca | 40% | 5% | 10% |
| Velocidade leitura | 15 p/min | 45 p/min | 30 p/min |
| Compreensão | 20% | 75% | 60% |
| Ansiedade observada | Alta | Baixa | Média |
Linha do Tempo Desenvolvimental:
text
0-6 anos: Pouca estimulação linguística 6 anos: Alfabetização método silábico puro 7 anos: Primeiras dificuldades, atribuídas a "imaturidade" 8 anos: Reprovação, humilhação pública 8a6m: Diagnóstico informal "dislexia" na escola 9 anos: Início múltiplas intervenções 9a3m: Avaliação atual - descoberta problemas visuais
Fatores que Mimetizam Dislexia:
- Insuficiência de convergência ocular → visão dupla, fadiga visual
- Processamento auditivo comprometido → dificuldade discriminação fonêmica
- Ansiedade extrema de desempenho → bloqueio cognitivo
- Trauma escolar específico → associação leitura-sofrimento
- Método de alfabetização inadequado → bases frágeis
- Memória de trabalho reduzida → dificuldade reter informação fonológica
- Expectativa familiar de dislexia → viés de confirmação
- Pouca exposição à leitura prazerosa → falta de fluência
- Pressão temporal → exigência velocidade acima da capacidade
- Histórico de reprovação → lacunas cumulativas
5. HIPÓTESE DIAGNÓSTICA
Formulação Diagnóstica:
Condição Primária:
- Transtorno de Ansiedade de Desempenho (F40.8) específico para leitura
- Transtorno de Aprendizagem Secundário a Fatores Múltiplos (F81.9)
- Problemas Sensoriais Não Diagnosticados (visual e auditivo)
Condições Secundárias/Contribuintes:
- Fobia Escolar Específica (leitura em voz alta)
- Déficit na Memória de Trabalha (percentil 35)
- História de Método de Alfabetização Inadequado
- Baixa Exposição a Material Escrito
Diagnósticos Excluídos:
- Dislexia do Desenvolvimento (F81.0): Critérios não preenchidos (erros inconsistentes, consciência fonológica preservada, compreensão preservada quando ansiedade controlada)
- Discapaculdade (F81.1): Escrita comprometida secundariamente à ansiedade, não primariamente
- Deficiência Intelectual (F70-F79): Capacidade cognitiva preservada
Razões para Exclusão de Dislexia:
- Inconsistência dos erros: Mesma palavra escrita de formas diferentes
- Preservação da compreensão: Quando texto é lido para ela, compreende 90%
- Consciência fonológica adequada: Testes formais dentro da média
- Efeito contexto: Desempenho melhora dramaticamente em contextos seguros
- Fatores sensoriais identificados: Problemas visuais e auditivos explicam sintomas
- História de trauma específico: Sintomas começaram após eventos humilhantes
- Resposta à intervenção: Progresso rápido quando fatores emocionais abordados
- Padrão atípico de erros: Muitas adições, poucas inversões – oposto do esperado em dislexia
Conceituação do Caso:
Isadora é uma criança com problemas sensoriais não diagnosticados (visual e auditivo) que, submetida a um método de alfabetização inadequado e eventos traumáticos escolares, desenvolveu ansiedade extrema em relação à leitura. Seus comportamentos “disléxicos” representam uma combinação de: (1) dificuldades perceptuais reais; (2) bloqueio por ansiedade; (3) lacunas de aprendizagem acumuladas; e (4) baixa autoeficácia. É um caso de “pseudodislexia” – sintomas reais, causas múltiplas e tratáveis.
6. PLANO DE INTERVENÇÃO MULTIFOCAL
A. Prioridade 1: Correção de Problemas Sensoriais
- Terapia visual: Com optometrista comportamental
- Exercícios convergência ocular
- Duração estimada: 12-16 semanas
- Terapia auditiva: Com fonoaudióloga especializada
- Treino processamento auditivo
- Estratégias compensatórias
- Adaptações imediatas:
- Fonte maior em todos textos
- Espaçamento duplo entre linhas
- Folhas coloridas (evitar branco puro)
B. Intervenções Emocionais (Imediatas)
- Psicoterapia (CBT + EMDR):
- Processamento eventos traumáticos
- Dessensibilização leitura em voz alta
- Reestruturação crenças (“cérebro quebrado”)
- Biblioterapia:
- Leitura compartilhada (prazer primeiro)
- Livros sobre personagens com dificuldades
- Ambiente seguro, sem pressão
- Técnicas de relaxamento:
- Respiração antes de ler
- Âncora de segurança
C. Reensino da Leitura
- Método multissensorial:
- Integração visual-auditivo-cinestésica
- Ênfase em significado, não apenas decodificação
- Foco em fluência, não perfeição:
- Leitura repetida de textos conhecidos
- Gravações para autoavaliação sem julgamento
- Estratégias compensatórias:
- Uso de áudio-livros simultâneo à leitura
- Marcador de texto para seguir linha
- Leitura silenciosa antes de oral
D. Apoio Familiar e Escolar
- Reunião escola-família:
- Explicação diagnóstica diferencial
- Plano de adaptações
- Fim da pressão por desempenho público
- Orientação familiar:
- Modelagem positiva de leitura
- Criação de ambiente rico em textos
- Foco no progresso, não no erro
7. PROGNÓSTICO E MONITORAMENTO
Expectativa realista:
- Melhora 40% em 1 mês com correção visual
- Melhora 70% em 3 meses com intervenção emocional
- Normalização funcional em 6-9 meses
Marcadores de progresso:
- Sensorial: Redução queixas visuais
- Emocional: Escala ansiedade abaixo de 30/90
- Leitura: Aumento velocidade 50%
- Escrita: Redução erros 60%
Reavaliação formal: Em 4 meses para decidir sobre necessidade avaliação dislexia novamente
Vamos pensar um pouco sobre esse Caso!
Este caso ilustra um erro comum: diagnosticar dislexia sem excluir condições tratáveis. Isadora estava a caminho de um diagnóstico permanente que a acompanharia por toda vida, quando na verdade tinha:
- Problema visual corrigível
- Ansiedade tratável
- Trauma curável
- Lacunas pedagógicas sanáveis
A dislexia é uma condição neurológica, hereditária e permanente. Antes de dar esse rótulo, devemos excluir:
✅ Problemas sensoriais (visão, audição)
✅ Fatores emocionais (ansiedade, trauma)
✅ Métodos pedagógicos inadequados
✅ Falta de exposição/estimulação
✅ Outras condições médicas
Perguntas críticas que não foram feitas a Isadora:
- Como você vê as letras quando lê?
- Onde dói quando você lê?
- O que passa na sua cabeça quando a professora pede para ler?
- Quando foi a última vez que você gostou de ler algo?
Lições deste caso:
- Nunca diagnosticar dislexia sem avaliação oftalmológica especializada
- Considerar sempre o componente emocional – medo bloqueia aprendizagem
- Analisar padrões de erro – inconsistência sugere fatores não neurológicos
- Investigar história escolar completa – métodos, professores, eventos
- Observar comportamento durante leitura – não apenas o produto final
Isadora não era disléxica. Estava assustada, com dor e confusa. E enquanto diagnosticarmos condições neurológicas permanentes sem excluir sofrimentos tratáveis, continuaremos dando rótulos onde precisamos dar ajuda.
A dislexia existe. Mas nem tudo que parece dislexia, é dislexia. Nossa responsabilidade é saber a diferença.
