A Terceirização do Afeto — Quem está criando nossos filhos?
O Mistério (Que Talvez Você se Reconheça)
Quando recebi o contato de Tatiana, 39 anos, mãe de Helena, 7 anos, e Gustavo, 4 anos, ela não veio com uma queixa — veio com um desabafo.
“Dra., eu não estou criando meus filhos. A babá fica com eles o dia todo. A escola fica com eles metade do dia. A avó busca na escola, dá banho, põe para dormir. Eu chego em casa, eles já estão dormindo. Eu sou mãe ou sou uma visitante?”
Tatiana trabalha fora como executiva de uma multinacional. Sai de casa às 6h30 e retorna às 20h, quando os filhos já jantaram, tomaram banho e estão prontos para dormir. O marido viaja constantemente a trabalho.
“Eu não queria assim”, ela disse. “Mas a gente precisa do meu salário. E quando estou em casa, estou tão cansada que mal tenho paciência. Às vezes penso: eles vão crescer e vão me ver como uma estranha.”
Ela chorou ao dizer isso.
Tatiana não é uma “mãe ausente” por escolha. É uma mãe que vive no mundo contemporâneo, onde dois salários são necessários, onde a jornada de trabalho não respeita os horários escolares, onde o trânsito consome horas, onde o cansaço é crônico. Mas o preço que ela paga — e que seus filhos pagam — é alto demais.
A Investigação: O Conceito de “Criança Terceirizada”
O Surgimento de um Fenômeno
O termo “criança terceirizada” foi cunhado pelo psicanalista e pediatra José Martins Filho para descrever um fenômeno crescente nas famílias contemporâneas: a transferência das responsabilidades educativas e afetivas dos pais para terceiros — escolas, babás, avós, telas e atividades extracurriculares .
Martins Filho observa que, com a entrada maciça da mulher no mercado de trabalho, houve uma transformação radical na dinâmica familiar. A família nuclear tradicional — pai provedor, mãe dona de casa, filhos cuidados integralmente pelos pais — cedeu lugar a múltiplas configurações. Mas a adaptação a essas novas configurações ainda não se consolidou .
O que se vê, na prática, é uma “crise na educação infanto-juvenil” que afeta três partes envolvidas: pais, filhos e educadores. E definir as responsabilidades de cada um se tornou o maior desafio da parentalidade contemporânea .
Os Agentes da Terceirização
Um estudo conduzido por pesquisadoras da Universidade de São Paulo, publicado na revista Estudos de Psicologia, investigou como casais contemporâneos compreendem e exercem a parentalidade e como lidam com a rede de cuidados . Os resultados mostraram que tanto pediatras quanto escolas são referidos como importantes auxiliares dos pais na criação dos filhos.
A psicóloga Alessandra Turini Bolsoni, da Unesp, complementa: “Nas gerações passadas a família sabia o que fazer para educar de forma autoritária”. Hoje, há uma confusão generalizada sobre os papéis de cada um, e muitos pais têm atribuído à escola a educação ética e moral dos filhos — algo que vai além do aprendizado escolar .
Padre Wladimir Porreca, assessor da CNBB, dá nome a esse fenômeno: a “terceirização da educação” acontece por necessidade, comodismo ou porque os pais não se sentem aptos a criarem seus filhos .
Avós, Babás e Telas: Os Novos Pais
A pesquisa da USP identificou que há três possibilidades de apropriação da parentalidade na contemporaneidade :
- Maior fluidez nos papéis parentais — pai e mãe compartilham responsabilidades de forma mais equilibrada
- Cuidado parental igualitário — mas com predomínio, no discurso dos pais, de atribuição de maior valor à figura materna
- Rompimento com o binarismo de gênero — mas com predomínio da responsabilidade de um dos cônjuges em relação aos cuidados com os filhos
Na prática, porém, o que se observa é que a rede de cuidados se ampliou significativamente. Escolas, babás e familiares assumem funções que antes eram exclusivas dos pais. E, cada vez mais, as telas também se tornaram “babás eletrônicas” .
A TV, o tablet, o celular — muitas vezes usados para acalmar a criança enquanto os pais resolvem tarefas domésticas ou descansam — são exemplos extremos de terceirização. E o preço é alto: laços familiares fragilizados, adultização precoce e exposição a conteúdos impróprios .
O Disfarce Perfeito (Quando a Terceirização Gera Sintomas)
A terceirização do afeto não é visível a olho nu. Seus efeitos se manifestam em comportamentos que, muitas vezes, são confundidos com transtornos.
Sintomas na Criança
| Comportamento | Pode ser confundido com… | Pode ser resultado de… |
|---|---|---|
| Dificuldade de estabelecer vínculos profundos | Autismo (déficit social) | Relações superficiais e fragmentadas com múltiplos cuidadores |
| Ansiedade de separação intensa | Transtorno de ansiedade | Insegurança por ausência parental prolongada |
| Busca constante por atenção | TDAH (impulsividade) | Necessidade não atendida de conexão |
| Comportamento opositivo com os pais | Transtorno desafiador | Tentativa de testar se os pais ainda estão “presentes” mesmo quando ausentes |
| Apatia, desinteresse | Depressão infantil | Falta de investimento afetivo significativo |
Sintomas nos Pais (que quase nunca são investigados)
| Sintoma no Pai | Pode ser confundido com… | Pode ser… |
|---|---|---|
| Culpa constante | Ansiedade generalizada | Sofrimento por não estar presente |
| Irritabilidade em casa | Estresse, burnout | Frustração por não conseguir conciliar papéis |
| Dificuldade de impor limites | Insegurança parental | Medo de “perder” o pouco tempo juntos com conflitos |
| Desconexão emocional | Depressão | Mecanismo de defesa contra a dor da ausência |
A Dupla Face da Culpa
A psicóloga Elvira Aparecida Simões de Araújo, da Universidade de Taubaté, explica que pais que trabalham fora frequentemente carregam um sentimento de culpa por não poderem ficar com os filhos. Esse sentimento pode levar a supercompensações — como permissividade excessiva, presentes caros, ausência de limites claros — que, em vez de ajudar, confundem ainda mais a criança .
Juliana Aparecida de Souza Martins Ângelo, auxiliar administrativa e mãe de dois filhos, relatou em entrevista: “A maior dificuldade em deixar os filhos na escola é a saudade, mas também menciona um sentimento de culpa por ter que trabalhar e não poder ficar com os filhos” .
Essa culpa, quando não elaborada, se transforma em permissividade — o pai ou mãe que se sente ausente passa a evitar confrontos e limites no pouco tempo que tem com os filhos, gerando um ambiente sem referências claras para a criança .
A Hipocrisia do Vale do Silício (Um Dado Que Dói, Mas Precisa Ser Dito)
Há uma ironia cruel na era digital que poucos discutem.
Enquanto milhões de pais entregam tablets e celulares para seus filhos como forma de “entreter” ou “educar”, os gurus da tecnologia — aqueles que criaram os aplicativos, as plataformas, os dispositivos — fazem exatamente o oposto .
Na Waldorf of Peninsula, escola particular em Palo Alto, coração do Vale do Silício, onde estudam os filhos de executivos da Apple, Google e outras gigantes da tecnologia, as telas só são introduzidas no ensino médio. Até lá, as crianças aprendem com lousas, giz colorido, livros físicos e atividades manuais .
Bill Gates limitou o tempo de tela de seus filhos e só deu celulares a eles quando completaram 14 anos. Steve Jobs dizia em entrevistas que proibia os filhos de usar o iPad. Chris Anderson, ex-diretor da revista Wired, classificou os aplicativos como “mais próximos do crack do que do doce” .
Por que eles fazem isso? Porque entendem a lógica por trás da tecnologia que criaram.
Pierre Laurent, engenheiro de computação que trabalhou na Microsoft, Intel e em várias startups, explica: “Qualquer um que faz um aplicativo quer que seja fácil de usar. […] Antes queríamos que o usuário ficasse feliz em comprar o produto. Agora, o objetivo é que o usuário passe mais tempo no aplicativo, a fim de coletarem mais dados ou colocarem mais anúncios. Eles são projetados para isso” .
Ou seja: as telas foram desenhadas para viciar. E quem sabe disso não quer seus filhos nessa armadilha.
Mas a hipocrisia não para aí. A pesquisa da Common Sense Media mostra que 98% dos domicílios com filhos nos Estados Unidos possuem celulares. E a disparidade de classe é gritante: adolescentes de famílias de baixa renda gastam 2 horas e 45 minutos por dia a mais nas telas do que aqueles de famílias de alta renda .
Enquanto os filhos das elites aprendem com brinquedos de madeira e lousas, os filhos das classes média e baixa crescem colados em telas — não por escolha, mas por falta de alternativa, por pais que precisam trabalhar e não têm com quem deixar os filhos .
María Álvarez, da Common Sense Media, pergunta: “Quantas famílias trabalhadoras podem se dar ao luxo de deixar seus filhos completamente longe das telas? Não acho que isso seja algo realista para a maioria das famílias” .
A Reviravolta: Quando a Mãe Reconheceu que Algo Precisava Mudar
Voltemos a Tatiana.
Após ouvir seu desabafo, sugeri um exercício diferente do que ela esperava. Em vez de falar sobre os filhos, falamos sobre ela.
“Tatiana, o que você sente quando está com Helena e Gustavo?”
“Ansiosa. Cansada. Culpada. Eles me pedem atenção e eu não tenho energia para dar. Às vezes eu entro no quarto e eles estão no tablet, e eu penso ‘que alívio, não vão me incomodar’. E depois me sinto horrível por ter pensado isso.”
O primeiro passo foi ajudar Tatiana a se perdoar.
“Não é ‘falta de amor’ o que você sente. É exaustão. E exaustão não é pecado.”
A partir daí, construímos mudanças realistas — não idealizadas, não perfeitas, possíveis.
Mudança 1: Qualidade, não quantidade
Tatiana não poderia aumentar o tempo com os filhos, mas poderia mudar a qualidade. Propus que, nos 30 minutos antes de dormir, não houvesse telas. Só conversa, leitura, carinho. Sem multitarefa. Sem celular.
Mudança 2: Limites conscientes
A culpa fazia Tatiana ceder a todos os pedidos dos filhos. Comprava o que pediam, permitia telas sem restrição, evitava dizer “não”. Ajustamos para limites claros e amorosos: “Não, hoje não pode. Mas amanhã a gente faz algo especial juntos.”
Mudança 3: Diálogo com a rede de apoio
Tatiana conversou com a babá e com a avó, alinhando valores e regras. A escola também foi envolvida. O objetivo não era “fiscalizar”, mas garantir que todos estivessem remando na mesma direção.
Mudança 4: Auto-cuidado sem culpa
Tatiana começou a reservar 15 minutos por dia para si mesma — um banho demorado, uma leitura, um café sozinha. Parece pouco, mas foi suficiente para que ela chegasse em casa com menos estresse e mais presença.
Seis meses depois, Tatiana me enviou uma mensagem:
“Helena me abraçou ontem e disse: ‘mãe, você está mais tempo comigo’. E eu não estou — trabalho as mesmas horas. Mas estou mais presente. E ela sentiu a diferença.”
Tatiana não largou o emprego. Não virou mãe integral. Mas aprendeu que presença não se mede em horas — se mede em conexão.
O Guia do Detetive (Para Famílias que Percebem a Terceirização)
1. Sinais de Alerta
Sua família pode estar vivendo a terceirização do afeto se:
- Os filhos passam mais horas acordados com babás, na escola ou com avós do que com os pais
- Você não sabe detalhes do dia a dia dos seus filhos — o que comeram, com quem brincaram, como estavam de humor
- As principais conversas com os filhos acontecem por mensagem de texto ou bilhetes na mochila
- Você usa telas como “babá” para conseguir fazer outras coisas
- Você sente que é um “estranho” na vida dos seus filhos
2. Os Limites da Terceirização
A pesquisa da USP mostrou que tanto pediatras quanto escolas são referidos como importantes auxiliares dos pais . O problema não é ter ajuda — é substituir a presença pela ajuda.
O que pode ser terceirizado:
- Cuidados básicos (alimentação, higiene, supervisão)
- Educação formal (escola)
- Atividades extracurriculares (esportes, música, idiomas)
O que NÃO pode ser terceirizado:
- Vínculo afetivo profundo
- Transmissão de valores e limites
- Presença emocional
- Acolhimento nas horas difíceis
- O exemplo (a criança aprende mais vendo do que ouvindo)
Como alerta o padre Wladimir Porreca: “A terceirização da educação pode fazer os filhos crescerem dentro de valores que, às vezes, não são os valores dos pais, muitas vezes dentro de um ambiente, de uma situação que não condiz com sua família real” .
3. Estratégias para Recuperar a Presença (Mesmo com Pouco Tempo)
| Estratégia | Como aplicar |
|---|---|
| Rituais de conexão | Um momento de atenção plena — 10 minutos por dia, sem telas, só vocês |
| Comunicação com a rede de apoio | Alinhar valores, regras, expectativas com babás, avós e escola |
| Presença real, não física | Se não pode estar, faça questão de se fazer presente — ligações, bilhetes, lembranças |
| Auto-cuidado parental | Pais descansados têm mais paciência e presença. Não é egoísmo — é condição para cuidar |
| Desaceleração programada | Um dia por mês sem compromissos, sem pressa, sem telas — só a família |
4. O Que Fazer se Você se Identificou
- Pare de se culpar por trabalhar — a necessidade de trabalhar não é falha moral. O que importa é o que você faz com o tempo que tem.
- Converse com seus filhos — dependendo da idade, eles já percebem. Pergunte: “Você sente minha falta? O que você gostaria que a gente fizesse junto?”
- Avalie sua rede de apoio — quem está cuidando dos seus filhos está alinhado com seus valores? Eles sabem o que é importante para você?
- Reduza a terceirização desnecessária — algumas atividades podem ser cortadas sem prejuízo. Mais tempo livre em casa, mesmo que seja para “não fazer nada”, muitas vezes é mais valioso que mais uma atividade extracurricular.
- Cuidado com a armadilha da compensação — presentes caros, permissividade excessiva e ausência de limites não compensam ausência. Pioram.
Tatiana não largou o emprego. Não se tornou a “mãe perfeita” que fica 24 horas com os filhos. Mas aprendeu algo que transformou sua relação com Helena e Gustavo: presença não é sinônimo de tempo disponível; é sinônimo de atenção disponível.
O pai ou a mãe que chega cansado do trabalho, mas reserva 20 minutos de qualidade sem telas e sem pressa — esse pai ou mãe cria vínculo. Aquele que está em casa o dia inteiro, mas com a cabeça no celular ou na televisão — não cria.
A terceirização do afeto não é escolha — é consequência de um mundo que exige cada vez mais dos adultos e oferece cada vez menos suporte para a criação dos filhos. O capitalismo, a falta de políticas públicas de apoio à parentalidade, a jornada de trabalho desumana, a ausência de creches públicas de qualidade, a fragilização das redes comunitárias — tudo isso empurra as famílias para a terceirização como única saída.
O pai ou a mãe que lê este texto e se identificou não é “negligente”. É sobrecarregado.
Mas a realidade é cruel: quem paga a conta são os filhos. Eles não entendem de jornada de trabalho, de trânsito, de contas a pagar. Eles só sentem falta.
A boa notícia é que nunca é tarde para ajustar o caminho. Não é preciso largar o emprego. Não é preciso ser perfeito. É preciso, dentro do possível, escolher a presença — mesmo que por poucos minutos. E proteger esse tempo como se fosse sagrado. Porque é.
A frase que fica: os filhos não se lembram de quanto tempo você passou fora. Eles se lembram de como você esteve presente quando estava junto.
E você, quem está criando seus filhos? Você está presente de verdade ou apenas ocupando o mesmo espaço físico?
Compartilhe este texto com outros pais que também vivem na corda bamba entre o trabalho e a família — não para culpá-los, mas para lembrá-los de que pequenas mudanças na qualidade da presença podem transformar tudo.
Para Saber Mais
- Campana, N. T. C., & Gomes, I. C. (2019). Um estudo acerca das características do exercício parental contemporâneo e a respectiva rede de cuidados. Estudos de Psicologia (Campinas), 36, e170079.
- Martins Filho, J. (2008). A criança terceirizada: os descaminhos das relações familiares no mundo contemporâneo. Campinas: Papirus.
- Revista FAPESP. (2007). Crianças terceirizadas. Pesquisa FAPESP, Edição 129.
- Guimón, P. (2019). Os gurus digitais criam seus filhos sem telas. El País.
- Canção Nova Notícias. (2015). Terceirização da educação: quais as consequências para os filhos?
- TV Cultura. (2019). Opinião: Educação dos filhos.
- Revista Comunhão. (2025). Pais não podem terceirizar a educação dos filhos para as telas.
