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A Mulher que Ficou para Trás” — A sobrecarga materna e o abandono de si. Post 2

O cuidado recai sobre ela

Quando um diagnóstico de transtorno do neurodesenvolvimento chega, ele não chega para toda a família de forma igual. Há um membro que, silenciosamente, assume o fardo principal. A literatura nacional tem documentado consistentemente que o cuidado de crianças com transtornos do neurodesenvolvimento recai majoritariamente sobre as mães.

Pesquisa conduzida pela Universidade de São Paulo (USP) em parceria com a Universidade Estadual Paulista (UNESP) mostrou que 85% dos cuidadores principais de crianças com necessidades especiais são do gênero feminino, sendo que 80% são as próprias mães as principais responsáveis pelos cuidados e pela manutenção da vida dos filhos .

Os números são ainda mais expressivos quando se trata especificamente de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Estudo brasileiro com 221 cuidadores de crianças com TEA revelou que 94,6% dos participantes eram mulheres/mães . A pesquisa foi conduzida com famílias residentes na cidade de Manaus e publicada na Revista Foco, e seus achados revelaram uma relação significativa entre a obrigação moral que recai sobre a mulher em cuidar dos filhos e o que os autores chamam de “subalternidade feminina” herdada do patriarcado .

Em outras palavras: não se trata de escolha. Trata-se de uma construção social que coloca a mulher como a cuidadora natural, mesmo quando ela própria está adoecendo.

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O preço dessa sobrecarga

O cuidar solitário vivenciado pelas mães atípicas lhes exige muito mais que amor: exige dedicação, abnegação, isolamento e obrigação moral . Esta frase, extraída do estudo de Manaus, resume o que tantas mães relatam em consultórios e grupos de apoio.

As consequências desse modelo são graves e documentadas:

ConsequênciaComo se manifesta
Desemprego ou subemprego51,5% das mães de crianças com TEA na amostra estavam desempregadas ou eram donas de casa 
Abandono de carreiraMães relatam ter deixado empregos, formações acadêmicas e planos profissionais
Ausência de autocuidado“A gente sempre vai ‘se deixando de lado’: depois eu vou, depois eu faço…” 
Adoecimento emocionalAltas taxas de ansiedade, depressão e estresse crônico
Isolamento socialPerda de amizades, afastamento de eventos familiares e sociais

Ninguém te contou que…

  • A “guerreira” não escolheu ser guerreira. Estudo brasileiro aponta que “para a sociedade, são chamadas de guerreiras, as escolhidas por Deus como forma de justificarem o abandono social e por parte do poder público” . O rótulo de “guerreira” frequentemente serve para naturalizar a falta de apoio, não para celebrar a força materna.
  • A sobrecama não é apenas emocional — é financeira. Mais da metade das mães de crianças com TEA na amostra estudada estavam desempregadas ou haviam abandonado suas profissões para se dedicar integralmente aos cuidados . A perda de renda, combinada com os altos custos de terapias e tratamentos, aprofunda a vulnerabilidade socioeconômica.
  • A mulher “fica para trás” enquanto o mundo segue. Enquanto amigos e colegas progridem em carreiras, estudos e planos de vida, a mãe cuidadora muitas vezes vê sua própria trajetória congelada. O estudo da USP destaca que o tempo dedicado aos cuidados contribui para “ausência de empoderamento coletivo”, o que torna a luta muito mais árdua e solitária .
  • A rede de apoio é exceção, não regra. A pesquisa de Manaus revelou que a maioria das mães cuidadoras não conta com rede de apoio, o que agrava suas condições físicas e emocionais . A ausência de suporte familiar, governamental e comunitário é a regra, não a exceção.

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A armadilha da “mãe perfeita”

Há um fenômeno pouco discutido que agrava o sofrimento materno: o ideal de “mãe perfeita” que nunca se cansa, nunca reclama e nunca prioriza a si mesma. Pesquisas brasileiras têm mostrado que as mães de crianças com transtornos do neurodesenvolvimento frequentemente internalizam esse ideal e se sentem culpadas por qualquer necessidade pessoal.

O estudo sobre vivências maternas e autismo, publicado na revista Estilos da Clínica, documentou que as mães percebem as dificuldades do filho antes mesmo do diagnóstico formal — muitas vezes anos antes dos profissionais — mas esse conhecimento precoce não é acolhido como saber válido . A mãe “sabe que algo não vai bem”, mas é frequentemente desconsiderada.

Esse descompasso entre o que a mãe percebe e o que os profissionais validam gera um desgaste adicional. A mãe se sente sozinha em sua suspeita, desacreditada, e depois — quando o diagnóstico finalmente chega — se sente culpada por não ter “corrido atrás” antes.

Como destaca o estudo, “a figura feminina assume o papel de educadora diante da criança e também de ‘preparar o mundo’ para ela, assumindo uma posição de defensora constante” . Defender o filho — da falta de acessibilidade, do preconceito, da exclusão, das barreiras atitudinais — consome energia que já é escassa.

O impacto na saúde física e emocional

A literatura nacional tem associado o cuidado materno de crianças com transtornos do neurodesenvolvimento a:

Problema de saúdeEvidência
DepressãoPrevalência significativamente maior em mães cuidadoras do que na população geral
Ansiedade crônicaEstresse contínuo associado à sobrecarga de tarefas e responsabilidades
Síndrome de burnoutExaustão emocional, despersonalização e baixa realização pessoal
Problemas de sonoNoites mal dormidas devido às necessidades da criança
Dores crônicasTensão muscular, dores de cabeça, fibromialgia associadas ao estresse prolongado

O Ministério da Saúde reconhece a depressão como uma doença mental de elevada prevalência, que atinge até 20% das mulheres ao longo da vida (contra 12% dos homens) . Em mães cuidadoras de crianças com transtornos do neurodesenvolvimento, esses números são ainda mais elevados, embora faltem estatísticas nacionais específicas.

A depressão, conforme descrita pelo Tribunal de Justiça do Distrito Federal, provoca “ausência de prazer em coisas que antes faziam bem”, “desânimo, cansaço fácil, necessidade de maior esforço para fazer as coisas” e “sentimentos de medo, insegurança, desesperança, desespero e desamparo” . Sintomas que descrevem com precisão o que muitas mães cuidadoras vivenciam diariamente.

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Se você se identificou

Se você leu até aqui e reconheceu sua própria história — ou a história de alguém próxima — alguns pontos merecem ser ditos sem rodeios:

  1. Seu sofrimento é real e válido. Não é “frescura”. Não é “falta de fé”. A sobrecarga que você carrega tem nome, tem causa e tem consequências documentadas na literatura científica.
  2. Cuidar de si mesma não é negligência com seu filho. Pais emocionalmente esgotados têm menos paciência, menos energia e menos recursos para oferecer o suporte de que a criança precisa. Cuidar de você é, paradoxalmente, uma forma de cuidar melhor dele.
  3. Você não precisa ser “guerreira” sozinha. O rótulo de “guerreira” muitas vezes é usado para justificar a falta de apoio. Você tem direito a ajuda. Você tem direito a descanso. Você tem direito a uma vida que não seja apenas cuidar.
  4. Buscar ajuda profissional não é fraqueza. Psicólogos, psiquiatras, grupos de apoio a cuidadores e terapias de casal/família existem porque o sofrimento que você sente é real e merece tratamento.
  5. Não há vergonha em não dar conta. O que se espera de uma única pessoa — especialmente de uma mulher — é desumano. Não se trata de “dar conta”. Trata-se de sobreviver. E sobreviver já é, por si só, um feito.

No próximo post: “O Preço do Cuidado” — O impacto financeiro na família

Compartilhe este texto com outras mães que também vivem essa sobrecarga — não para culpá-las, mas para que saibam que o cansaço que sentem tem nome, tem causa e não é culpa delas.

Para Saber Mais


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