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O Preço do Cuidado” — O impacto financeiro na família. Post 3

O custo invisível

Quando um diagnóstico de transtorno do neurodesenvolvimento chega, ele não traz apenas desafios emocionais e educacionais. Há uma dimensão que raramente é discutida nos consultórios, mas que pesa no orçamento familiar todos os meses: o custo financeiro do cuidado.

Terapias, consultas especializadas, medicamentos, adaptações escolares, deslocamentos — tudo isso se soma. Para muitas famílias brasileiras, esse custo compromete o orçamento doméstico de forma significativa, quando não o inviabiliza completamente.

A literatura nacional tem documentado essa realidade. Pesquisas mostram que as famílias gastam, em média, R$ 800 mensais em acompanhamento especializado para filhos com transtornos específicos de aprendizagem. Esse valor, já alto para a maioria das famílias, pode ser muito maior dependendo da gravidade do quadro e da necessidade de múltiplas intervenções.

Em casos mais complexos, como o de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) que necessitam de intervenção multidisciplinar intensiva, os custos podem ultrapassar R$ 5.000 mensais — um valor incompatível com a renda da maioria das famílias brasileiras.

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O custo das terapias: números reais

Levantamentos nacionais e dados de licitações públicas ajudam a dimensionar o custo real dos tratamentos. Um levantamento do Instituto ABCD, em parceria com o Cisco do Brasil e o Instituto IT Mídia, realizado com 304 famílias de 17 estados brasileiros, revelou que as famílias gastam, em média, R$ 800 mensais em acompanhamento especializado para filhos com transtornos de aprendizagem.

Esse valor médio, no entanto, pode ser muito superior. O mesmo levantamento documentou casos de famílias que gastaram cerca de R$ 50 mil por mês em tratamento no exterior para filhos com dislexia. Embora esse seja um caso extremo, ele ilustra a disparidade entre o que as famílias de maior renda podem acessar e o que a maioria da população consegue arcar.

Documentos oficiais de licitações públicas fornecem um parâmetro do custo real das terapias no Brasil. A Prefeitura de Birigui (SP), em edital publicado em 2025 para contratação de serviços multidisciplinares, estimou os seguintes valores por sessão:

ProfissionalValor por sessão (estimado)
Psicólogo (método ABA)R$ 84,52
Psicopedagogo (método ABA)R$ 70,99
Terapeuta Ocupacional (método ABA)R$ 98,05
Fonoaudiólogo (método ABA)R$ 101,38
Consulta com NeurologistaR260,89aR260,89aR 341,54

A Prefeitura de Piracicaba (SP), em licitação semelhante, apresentou valores de referência para atendimento de crianças com TEA:

ProfissionalValor por sessão (referência)
Fonoaudiologia (método ABA)R$ 112,99
Terapia Ocupacional (método ABA)R$ 119,67
Psicoterapia/Psicopedagogia (método ABA)R$ 109,67

Esses são os valores que o poder público paga por sessão — e que as famílias pagam quando não há acesso gratuito. Uma criança que necessita de 4 sessões por semana de fonoaudiologia e 2 sessões de terapia ocupacional, por exemplo, teria um custo mensal superior a R$ 3.000 apenas com essas duas terapias.

Uma reportagem do Estadão, de outubro de 2021, publicou que, segundo o Instituto ABCD, aproximadamente 10 milhões de brasileiros têm algum transtorno de aprendizagem. O número é expressivo, e o custo do tratamento — para quem consegue acesso — é uma barreira real.

Mesmo com convênio médico, as famílias enfrentam dificuldades. Conforme divulgado pelo Jornal de Itatiba, muitos planos de saúde negam a cobertura de tratamentos para transtornos do neurodesenvolvimento com base em cláusulas restritivas. A família pode ter uma despesa média de R$ 3 mil por mês se não houver convênio médico.

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O deslocamento e a peregrinação por diagnóstico

Antes mesmo do tratamento, há o custo do diagnóstico. O levantamento do Instituto ABCD mostrou que 35% das famílias viajam, inclusive para outros estados, em busca do diagnóstico para seus filhos.

Isso significa gastos adicionais com transporte, hospedagem, alimentação — além das consultas médicas. O estudo também revelou que um terço das crianças consultaram mais de cinco especialistas até obter o laudo definitivo.

A história de Luiz, divulgada pelo Estadão, ilustra essa realidade: sua mãe, Angelica, saiu de Mato Grosso com o filho para São Paulo, onde passou por novas avaliações médicas e uma bateria de exames por mais de uma semana até obter o diagnóstico de dislexia. Os custos com consultas e estadia na capital paulista foram altos para a família.

Essa peregrinação não é um caso isolado. A falta de profissionais especializados na rede pública, especialmente fora dos grandes centros urbanos, força as famílias a se deslocarem em busca de atendimento.

A pediatra Ana Márcia Guimarães Alves, especialista em desenvolvimento infantil, confirma que a falta de conhecimento e de profissionais especializados na rede pública prejudica o diagnóstico de transtornos de aprendizagem.

Renda e vulnerabilidade

O impacto financeiro do cuidado não é distribuído igualmente entre as famílias. Pesquisas anteriores a esta série já haviam demonstrado que 81,4% dos cuidadores de crianças com TEA tinham renda mensal inferior a dois salários mínimos, com a maior renda constatada em uma das amostras sendo de 2 salários mínimos para uma única pessoa.

Estudo colombiano, de 2024, identificou que 66% das famílias com crianças diagnosticadas com TEA pertenciam ao estrato socioeconômico 1 (o mais baixo), com a maioria frequentando escolas públicas (60%).

No Brasil, a situação não é diferente. O Benefício de Prestação Continuada (BPC/LOAS) é um direito assegurado pela Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS) e administrado pelo INSS, que garante o pagamento mensal de um salário mínimo (R$ 1.518,00 em 2025) a pessoas com deficiência de qualquer idade que comprovem baixa renda.

A Lei 12.764/2012 reconhece o autismo como deficiência para todos os efeitos legais. O TDAH, em casos graves com impacto significativo na autonomia, também tem sido aceito para concessão do benefício, tanto na esfera administrativa quanto judicial.

Para ter acesso ao BPC, é necessário comprovar:

  • Deficiência de longo prazo (impedimentos que afetem a autonomia por pelo menos dois anos)
  • Renda familiar per capita inferior a ¼ do salário mínimo (R$ 379,50 em 2025), com possibilidade de dedução de gastos com terapias, medicamentos e alimentação especial

A Comissão de Direito Previdenciário da OAB/DF publicou artigo detalhando que, embora o TDAH não seja uma forma de atraso cognitivo, quando ocorre em conjunto com outras condições ou causa impedimento significativo para a vida independente, pode ensejar a concessão do benefício.

A luta por direitos na saúde e na educação

Diante dos altos custos, muitas famílias recorrem ao Judiciário para garantir o acesso a tratamentos e terapias. A advogada Adriana Moretti, do escritório Pasquino&Moretti Advogados, explica que “a falta de informação e de conhecimento levam às pessoas a não requererem seus direitos e, muitas vezes, por limitação financeira, ficam sem acesso ao tratamento, fundamental para o desenvolvimento de um portador de distúrbio neurológico”.

O Judiciário tem sido um caminho para garantir tratamentos negados pelos planos de saúde. A advogada afirma que “a Constituição Federal garante o direito à vida e, por meio de ação judicial, é possível ter a cobertura completa. […] Todos os processos que entramos na justiça, tivemos ganho de causa”.

Na educação, também há avanços. A Comissão de Assuntos Econômicos do Senado aprovou em outubro de 2025 o projeto que autoriza o uso do Fundeb para pagar profissionais como fonoaudiólogos, pediatras e fisioterapeutas que integram equipes de apoio a alunos com TEA e doenças raras.

Atualmente, a lei do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb) permite que até 30% dos recursos sejam usados para pagar professores, psicólogos e assistentes sociais que integram as equipes de apoio. O projeto amplia essa lista para incluir outros profissionais essenciais.

A senadora Leila Barros (PDT-DF), relatora do projeto, afirmou: “Para além da parte didática, eles precisam de uma equipe multidisciplinar, e esses profissionais não estão contemplados com relação à remuneração fruto do Fundeb. A gente tem atendido muitos coletivos de mães atípicas, que falam justamente dessa dificuldade dentro da própria escola de ter essa equipe multidisciplinar para atender aos filhos”.

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Ninguém te contou que…

  • O custo mensal de terapias pode ultrapassar R$ 3.000. Uma criança que necessita de fonoaudiologia, terapia ocupacional e psicologia — frequente no TEA — pode ter um custo mensal superior a esse valor.
  • 35% das famílias viajam para obter diagnóstico, muitas vezes para outros estados, acumulando gastos com transporte, hospedagem e consultas.
  • Um terço das crianças consulta mais de cinco especialistas até obter o diagnóstico correto.
  • O BPC/LOAS garante um salário mínimo mensal para pessoas com deficiência de baixa renda, incluindo crianças com TEA e, em casos graves, TDAH.
  • Gastos com terapias e medicamentos podem ser deduzidos da renda familiar para fins de cálculo do BPC, aumentando as chances de concessão.
  • Planos de saúde frequentemente negam cobertura para tratamentos de transtornos do neurodesenvolvimento, mas o Judiciário tem garantido o direito à saúde.
  • O Fundeb pode pagar profissionais de apoio para alunos com TEA — e há projeto em tramitação para ampliar essa lista.

Se você se identificou

Se você leu até aqui e reconheceu as dificuldades financeiras que sua família enfrenta, alguns pontos merecem ser ditos:

  1. Você não está sozinho. Milhares de famílias brasileiras enfrentam os mesmos desafios financeiros. A falta de recursos não é falha sua — é uma realidade estrutural do sistema de saúde e educação no Brasil.
  2. Há direitos que podem ser acessados. O BPC/LOAS pode ser uma alternativa para famílias de baixa renda. A lei permite a dedução de gastos com terapias e medicamentos do cálculo da renda familiar.
  3. O Judiciário pode ser um caminho. Planos de saúde que negam cobertura para tratamentos necessários podem ser contestados judicialmente. A advogada Adriana Moretti relata que todos os processos que seu escritório ingressou tiveram ganho de causa.
  4. Busque orientação profissional. Assistente social, advogado especializado em direito da saúde, conselhos tutelares e associações de pais podem ajudar a navegar pelos caminhos para garantir direitos.
  5. Não desista. O sistema é burocrático e, muitas vezes, hostil. Mas há recursos, há leis, há precedentes. O caminho é difícil, mas possível.

No próximo post: “Separações e Rupturas” — Quando o diagnóstico não resiste ao casamento.

Compartilhe este texto com outras famílias que também enfrentam os custos do cuidado — não para desanimá-las, mas para que saibam que existem direitos e caminhos possíveis.

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