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Estudo de Caso: “Quando a agitação não é TDAH: A História de Mateus”

Olá Colegas hoje vamos aprender “O Caso Mateus” mais um estudo de caso utilizando meu Protocolo Homes Oliver – desenvolvido por mim Pp. Daliane Oliveira após 20 anos de estudos, pesquisas e muita dedicação com aplicação na prática com Crianças e Adolescentes na África do Sul/Kênia e vários estados do Brasil. Vou compartilhar com vocês minhas experiências e um modo eficiente de identificar, Avaliar e Intervir em nossas analises profissionais. Vamos nessa 🙂

1. IDENTIFICAÇÃO

  • Nome: Mateus (pseudônimo)
  • Idade: 10 anos
  • Série: 5º ano do Ensino Fundamental
  • Queixa principal: “Hiperativo, impulsivo e com dificuldades de organização. Escola e família suspeitam de TDAH. Já foi encaminhado para psiquiatra para possível medicação.”

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2. QUEIXA INICIAL: O “CASO TÍPICO” DE TDAH?

Entrevista Inicial com a Mãe e o Pai

Relato dos pais:

  • “Não para quieto nem para comer”
  • “Esquece tudo, perde material escolar diariamente”
  • “Age sem pensar, fala coisas inapropriadas”
  • “Inteligente mas não rende na escola”
  • Frase da mãe: “O neurologista disse que é TDAH clássico, mas quis uma avaliação completa antes de medicar.”

Relato da escola (via boletim descritivo):

  • “Não consegue permanecer sentado”
  • “Interrompe a professora constantemente”
  • “Caderno desorganizado, não entrega tarefas”
  • “Capacidade intelectual acima da média, desempenho abaixo”

Expectativas: Pais divididos. Mãe quer “resolver logo com remédio”, pai teme medicação. Escola pressiona por “solução rápida”.

Exploração inicial:

  • Quando começou? “Sempre foi agitado, mas piorou muito no 5º ano.”
  • Quando NÃO ocorre? “Quando está no videogame ou construindo LEGO, fica concentrado por 3-4 horas seguidas.”
  • Contexto crítico: Transição para o 5º ano – múltiplos professores, exigência de maior organização, aulas mais longas.

Primeira observação profissional: Sintomas coincidem exatamente com aumento das demandas executivas na escola.


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3. AVALIAÇÃO MULTIDIMENSIONAL: O que há por trás da agitação

A. ASPECTOS BIOLÓGICOS E RITMOS

Padrão de sono (Monitoramento por 2 semanas):

  • Horário dormir: Entre 22h e 00h30 (varia muito)
  • Horário acordar: 6h15 (forçado)
  • Qualidade: Sono agitado, fala dormindo
  • Dados alarmantes: Duração média: 6h15 (recomendado: 9-11h)
  • Fator relevante: Irmão mais novo (2 anos) acorda à noite, acordando Mateus

Alimentação e energia (Registro detalhado):

  • Café da manhã: Raramente toma (“não tem fome”)
  • Lanche escolar: Salgadinho + refrigerante (compra na cantina)
  • Almoço: Come rápido, levanta da mesa várias vezes
  • Tarde: 3-4 xícaras de café (com avó, que o cuida à tarde)
  • Cálculo estimado: ~300mg cafeína/dia (equivalente a 3 latas de energético)

Exames médicos recentes:

  • Neurologista: “Critérios para TDAH preenchidos”
  • Não solicitou: Hemograma, TSH, Ferritina, Vitamina D
  • Não investigou: Apneia do sono, refluxo, alergias alimentares

Desenvolvimento físico:

  • Crescimento acelerado (percentil 95 altura)
  • Queixas de dor nas pernas (“dores do crescimento”)
  • Incômodo constante na cadeira (“não acha posição confortável”)

B. ASPECTOS FAMILIARES E EMOCIONAIS

Dinâmica familiar (Genograma e múltiplas entrevistas):

  • Pais separados há 2 anos (conflito custódia em andamento)
  • Mãe: trabalha em 2 empregos, estressada, culpa-se
  • Pai: viúvo recente (perdeu companheira há 8 meses)
  • Situação atual: Mateus alterna semanas entre casas, regras diferentes
  • Evento traumático: Perdeu avô paterno (figura de apego) há 1 ano

Carga emocional (Desenhos, teste das três árvores, historinhas):

  • Desenho da família: Figuras separadas por linhas, ele no meio
  • Frase: “Todo mundo briga por mim, mas ninguém escuta o que eu quero”
  • Sintomas de ansiedade: Roer unhas até sangrar, tricotilomania (arrancar cabelos)
  • Escala de ansiedade infantil: Pontuação 78/90 (ansiedade severa)

Rotina e organização familiar:

  • Casa da mãe: Estrutura rígida, muitas regras, pouca flexibilidade
  • Casa do pai: Sem rotina, permissivo, compensatório (“pai legal”)
  • Efeito: Zero consistência, desregulação emocional constante

C. CONTEXTO ESCOLAR: O GATILHO PERFEITO

Observação em sala (período duplo de matemática e português):

  • Ambiente: Sala quente (ar condicionado quebrado), cadeiras desconfortáveis
  • Professora de matemática: Aula expositiva tradicional, 45 minutos
  • Comportamento de Mateus:
    • Min 0-10: Concentrado
    • Min 11-20: Mexe-se na cadeira
    • Min 21-30: Bate lápis, balança pernas
    • Min 31-45: Levanta sem permissão, vai ao banheiro
  • Momento revelador: Na volta do banheiro, fica parado no fundo da sala – observando, não agitado

Análise pedagógica:

  • Método de ensino: 80% expositivo, 20% prático
  • Estilo de aprendizagem de Mateus (avaliação): Cinestésico-visual
  • Discrepância: Estilo de aprendizagem vs método de ensino = total
  • Demandas executivas: Agenda múltipla, 7 professores diferentes, 5 cadernos

Entrevista com coordenadora:

  • “Temos vários casos como o dele no 5º ano”
  • “A transição do 4º para o 5º ano é crítica”
  • “Muitos pais estão medicando, resolvendo o ‘problema'”
  • Confissão: “Nossa estrutura não ajuda, mas não temos como mudar”

D. AVALIAÇÃO COGNITIVA E DAS FUNÇÕES EXECUTIVAS

Avaliação neuropsicopedagógica detalhada:

  • QI (WISC-IV): 125 (Superior)
    • Índice Compreensão Verbal: 130 (Muito Superior)
    • Índice Organização Perceptual: 128 (Superior)
    • Índice de Memória de Trabalha: 110 (Médio-Superior)
    • Índice de Velocidade de Processamento: 95 (Médio)

Testes específicos de atenção:

  • Teste de Atenção Sustentada (TOVA):
    • Com estimulação: 20% abaixo do esperado
    • Sem estimulação: 5% abaixo do esperado
    • Interpretação: Déficit de atenção SITUACIONAL, não constitucional

Funções executivas:

  • Memória de trabalho: Adequada para idade
  • Controle inibitório: Flutua conforme estresse
  • Flexibilidade cognitiva: Excelente em contextos interessantes
  • Organização/planejamento:Déficit significativo
    • Não consegue planejar tarefas com múltiplos passos
    • Perde-se em sequências longas

Processamento sensorial:

  • Propriocepção: Busca constante (bate, balança, pressiona)
  • Vestibular: Necessidade de movimento
  • Interpretação: Busca sensorial como regulação emocional, não como TDAH

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4. INTEGRAÇÃO DOS DADOS: A Perfeita Tempestade

Triangulação Reveladora:

Comportamento “TDAH”Contexto A (Casa mãe)Contexto B (Casa pai)EscolaClínica 1:1
Agitação motoraAltaModeradaMuito altaBaixa
DesatençãoModeradaBaixaMuito altaMínima
ImpulsividadeAltaBaixaAltaBaixa
OrganizaçãoCaóticaModeradaCaóticaCom ajuda, boa

Linha do Tempo Desenvolvimental:

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0-8 anos: Criança ativa, mas funcional
8 anos: Separação dos pais
8a6m: Início alternância casas
9 anos: Morte avô (apoio emocional)
9a6m: 4º ano - primeiras queixas leves
10 anos: 5º ano - mudança estrutural radical na escola
10a2m: Queixas explodem, encaminhamento neurologista
10a3m: Diagnóstico médico de TDAH
10a4m: Avaliação psicopedagógica completa

Fatores que Mimetizam TDAH:

  1. Privação crônica de sono (déficit de 3h/dia) → causa sintomas idênticos a TDAH
  2. Intoxicação por cafeína (300mg/dia em criança) → agitação, taquicardia, ansiedade
  3. Ansiedade generalizada não tratada (78/90) → inquietação, dificuldade concentração
  4. Luto não elaborado (avô + figura materna do pai) → desregulação emocional
  5. Conflito de lealdade parental → estresse crônico, tensão constante
  6. Déficit de habilidades executivas (não TDAH) → desorganização, procrastinação
  7. Estilo de aprendizagem cinestésico vs método expositivo → necessidade movimento não atendida
  8. Busca proprioceptiva por desregulação emocional → interpretada como hiperatividade
  9. Transição desenvolvimental mal gerenciada (4º→5º ano) → exigências acima da capacidade
  10. Expectativas inadequadas → inteligência superior cria expectativa de auto-organização impossível

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5. HIPÓTESE DIAGNÓSTICA

Formulação Diagnóstica:

Condição Primária:

  • Transtorno de Ansiedade Generalizada (F41.1) com manifestações comportamentais
  • Transtorno de Ajustamento com Alteração Mista de Emoções e Conduta (F43.25) relacionado a eventos familiares
  • Déficit de Habilidades Executivas (não orgânico, mas desenvolvimental)

Condições Secundárias/Contribuintes:

  • Privação de Sono Crônica (Z72.820)
  • Problema Relacional Parental (Z62.820)
  • Luto Não Resolvido (Z63.4)
  • Inadequação Pedagógica para estilo de aprendizagem

Diagnósticos Excluídos:

  • TDAH (F90.0/F90.1): Sintomas não são pervasivos (contexto-dependentes), atenção preservada em situações de interesse, hiperatividade diminui significativamente em ambiente 1:1 controlado, não há histórico de sintomas na primeira infância
  • Transtorno Desafiador Opositor (F91.3): Comportamentos não são opositivos, mas desregulados
  • Transtorno de Aprendizagem Específica: Desempenho acadêmico adequado quando fatores emocionais controlados

Razões para Exclusão de TDAH:

  1. Especificidade contextual: Sintomas mínimos em ambiente controlado, 1:1
  2. Preservação da atenção sustentada: Em atividades de interesse (LEGO, videogame) mantém atenção por 3-4 horas
  3. Fatores ambientais explicativos: Sono, cafeína, ansiedade, luto, conflito familiar
  4. Resposta ao ambiente: Em sala mais silenciosa, com movimento permitido, sintomas diminuem 70%
  5. Histórico desenvolvimental: Sintomas começaram aos 9 anos, não na primeira infância
  6. Inteligência superior mascarando déficit: Usa recursos cognitivos para compensar, gerando exaustão
  7. Busca sensorial vs hiperatividade: Movimento tem função regulatória, não é involuntário

Conceituação do Caso:

Mateus é uma criança superdotada com déficit de habilidades executivas desenvolvimentais que, ao enfrentar múltiplos estressores familiares (separação, luto, conflito parental) e uma transição escolar mal adaptada, desenvolveu ansiedade generalizada severa. Seus comportamentos “TDAH-like” representam uma combinação de: (1) busca proprioceptiva para regular emoções; (2) exaustão por privação de sono; (3) efeitos da cafeína; (4) inadequação metodológica escolar; e (5) desorganização executiva real (não orgânica). É um caso de “TDAH ambiental” – sintomas reais, causas ambientais.


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6. PLANO DE INTERVENÇÃO MULTIFOCAL

A. Prioridade 1 (Crítico – 1ª semana):

  1. Reorganização do sono:
    • Horário fixo dormir: 21h30
    • Irmão dorme em quarto separado
    • Rotina pré-sono (sem telas)
  2. Eliminação cafeína:
    • Zero café, refrigerante, chocolate
    • Substituir por chás calmantes
  3. Acordo parental URGENTE:
    • Mesmas regras nas duas casas
    • Terapia familiar conjunta

B. Intervenções Escolares (1º mês):

  1. Adaptações físicas:
    • Cadeira com balanço ou disco de equilíbrio
    • Permissão para ficar em pé atrás da carteira
  2. Adaptações metodológicas:
    • Intervalos de movimento a cada 20 minutos
    • Atividades cinestésicas integradas
    • Agenda visual única (unificar 5 cadernos)
  3. Apoio executivo:
    • Tutoria em organização 2x/semana
    • Checklists para tarefas múltiplas

C. Intervenções Terapêuticas:

  1. Psicoterapia individual (CBT):
    • Controle ansiedade
    • Processamento do luto
    • Habilidades de regulação emocional
  2. Terapia ocupacional:
    • Integração sensorial
    • Dieta sensorial para regular busca proprioceptiva
  3. Treinamento de funções executivas:
    • Programa específico para organização/planejamento
    • Usando interesses (organizar coleção LEGO como treino)

D. Acompanhamento Médico:

  1. Reavaliação neurologista com relatório completo
  2. Exames laboratoriais: Ferro, Vitamina D, TSH
  3. Acompanhamento: Apenas se intervenções ambientais não funcionarem em 3 meses

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7. PROGNÓSTICO E MONITORAMENTO

Expectativa realista:

  • Melhora 50% em 1 mês com intervenções ambientais
  • Melhora 80% em 3 meses com terapia
  • Normalização em 6-8 meses

Marcadores de progresso:

  1. Sono: Atingir 8h30 mínimo
  2. Ansiedade: Escala abaixo de 40/90
  3. Escola: Redução 70% das queixas comportamentais
  4. Organização: Entrega 80% das tarefas no prazo

Reavaliação formal: Em 3 meses para decidir sobre necessidade avaliação TDAH novamente


Vamos refletir sobre mais esse estudo de caso🧐

Este caso ilustra um fenômeno crescente: a medicalização de problemas ambientais. Mateus estava prestes a receber um diagnóstico de TDAH e medicação estimulante para tratar:

  1. Falta de sono
  2. Excesso de cafeína
  3. Tristeza pela morte do avô
  4. Estresse do conflito parental
  5. Escola inadequada ao seu estilo de aprendizagem
  6. Falta de habilidades executivas (não orgânica)

A medicação provavelmente “funcionaria” – suprimiria os sintomas. Mas trataria os efeitos, não as causas. E criaria uma criança medicada para dormir mal, ansiosa e em luto.

A lição mais importante: TDAH é um diagnóstico de exclusão. Deve-se excluir TODOS os fatores ambientais, médicos e emocionais antes de considerá-lo. O check-list deveria ser:

  1. A criança dorme 9-11 horas?
  2. Consome cafeína?
  3. Tem ansiedade/depressão?
  4. Passou por eventos traumáticos?
  5. A escola atende seu estilo de aprendizagem?
  6. As expectativas são realistas?
  7. Há consistência nas regras em casa?

Se qualquer resposta for “não”, intervenha nisso primeiro. Só medique o que não pode ser mudado no ambiente.

Mateus não tinha TDAH. Tinha uma vida que exigia demais dele. E enquanto for mais fácil medicar uma criança do que mudar famílias, escolas e sociedade, continuaremos confundindo sofrimento com transtorno.

Pergunta final para reflexão: Quantos “Mateus” estão tomando Ritalina para tratar falta de sono, tristeza ou escolas inadequadas?

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