O adolescente que “não queria nada”: quando a apatia escolar era um luto que ninguém tinha visto
Um caso recebido por e-mail que mostra como a perda não elaborada de um vínculo significativo pode se disfarçar de desmotivação, preguiça e “falta de perspectiva”. Anonimizado e publicado com autorização.
Apresentação da série
Esta série é um espaço para falar do que fazemos entre a queixa e o encaminhamento. Do raciocínio clínico que não aparece nos manuais. Das decisões que tomamos quando a hipótese inicial não se sustenta, quando o instrumento não dá resposta, e quando percebemos que os fatores que mais afetam a aprendizagem não estão sendo avaliados.
Psicopedagogos e neuropsicopedagogos não diagnosticam. Nosso trabalho é levantar hipóteses, investigar, intervir e encaminhar para que profissionais da área médica possam, se for o caso, fechar um diagnóstico.
Os casos publicados aqui são recebidos por e-mail, anonimizados, e publicados com autorização. Nenhum dado permite identificação.
A queixa que chegou sem palavra…..
Recebi este caso por e-mail. Vou chamar o adolescente de R. Ele tinha 15 anos, estava no 1º ano do ensino médio, e chegou ao consultório da colega que me escreveu com um encaminhamento que dizia: “aluno desmotivado, não participa, não faz as atividades, não se interessa por nada. Parece que não quer nada com a vida.”
A mãe, na primeira conversa, foi direta: “Ele era um menino tão estudioso. Agora não abre um caderno. Não sei o que aconteceu. Acho que é preguiça. Ou essas amizades novas.”
O pai não participou da primeira conversa. A colega perguntou por quê. A mãe disse: “Ele trabalha muito. E ultimamente está muito cansado. Acho que é a idade.”
A hipótese que chegou pronta era: desmotivação adolescente típica. Possível “preguiça”. Possível “más influências”.
O que a avaliação tradicional mostrou:
A colega fez o que a formação orienta. Anamnese com a mãe. Observação estruturada. Tarefas de atenção, memória, funções executivas. Avaliação do desempenho acadêmico. Escalas de motivação e autoestima.
O que apareceu:
- Atenção sustentada: dentro do esperado. R. conseguia manter o foco em tarefas dirigidas quando queria.
- Memória de trabalho: preservada. R. lembrava instruções, sequências, detalhes.
- Funções executivas: planejamento e organização abaixo do esperado. Mas não de forma incapacitante. R. conseguia organizar quando tinha motivo para isso.
- Desempenho acadêmico: queda acentuada nos últimos dois bimestres. Antes, era um aluno médio. Agora, estava abaixo da média em todas as matérias.
- Escalas de motivação: índices muito baixos. R. marcou “não vejo sentido em estudar”, “nada me interessa”, “não tenho planos para o futuro”.
- Autoestima: também baixa. R. marcou “não sou bom em nada”, “não faço falta para ninguém”.
Nas sessões, R. era cooperativo. Não era agressivo. Não era opositor. Fazia o que a colega pedia. Mas não falava. Respondia com monossílabos. Não fazia perguntas. Não demonstrava curiosidade. Não demonstrava nada.
Três sessões. A hipótese de “desmotivação adolescente” parecia se sustentar. Mas algo não fechava.
R. não era um adolescente rebelde. Não era um adolescente que “não queria nada”. Era um adolescente triste. E ninguém tinha usado essa palavra.
O que a avaliação tradicional não viu!
A colega começou a se perguntar: “O que aconteceu com R. nos últimos dois bimestres?”
A resposta que veio — depois de muitas conversas — foi: ele perdeu a avó.
Não foi uma perda súbita. A avó estava doente há meses. R. a visitava todos os fins de semana. Ela era a pessoa que perguntava sobre a escola. Que elogiava suas notas. Que dizia que ele “ia longe”. Que guardava seus desenhos de infância. Que fazia o bolo que ele gostava.
A avó morreu em um sábado. R. foi ao enterro. No domingo, a mãe disse: “Agora a vida continua. Você tem que estudar.” Na segunda-feira, R. foi para a escola. Ninguém na escola sabia. A mãe não avisou. “Não quis que ele fosse tratado diferente.”
A literatura sobre luto na infância e adolescência é clara: crianças e adolescentes enlutados podem apresentar queda no desempenho escolar, apatia, isolamento, desinteresse, irritabilidade e comportamentos regressivos . Mas o luto adolescente tem uma particularidade: ele frequentemente não se parece com tristeza. Parece tédio. Parece indiferença. Parece “não querer nada”.
O que a escola viu como “desmotivação” era, na verdade, um processo de luto não reconhecido, não validado e não acompanhado. R. não estava “sem querer nada”. R. estava sem saber o que fazer com uma dor que ninguém à sua volta parecia sentir.
A perda de um vínculo significativo — especialmente quando esse vínculo era o único lugar onde o adolescente se sentia visto — pode desorganizar completamente o investimento no futuro . Se a pessoa que acreditava em você não está mais aqui, para quem você vai estudar?
O que apareceu na sexta sessão
Na sexta sessão, R. chegou com um caderno na mochila. A colega não pediu. Ele colocou sobre a mesa. Disse: “Isso era dela.”
Era um caderno de receitas da avó. Escrito à mão. Receitas de bolo, de sopa, de torta. R. folheou. Parou em uma página. Disse: “Essa era a que ela fazia pra mim.”
A colega perguntou: “Você já fez?”
R. ficou em silêncio. Depois: “Não. Ela não me ensinou.”
Depois de mais um silêncio: “Eu queria aprender. Mas ela não me ensinou.”
A colega anotou isso. E percebeu: não era desmotivação. Era um luto interrompido antes de poder ser vivido. R. não tinha conseguido chorar. Não tinha conseguido falar. Não tinha conseguido fazer nada com a ausência. Porque ninguém à sua volta tinha aberto espaço para isso.
Como foram organizadas as Novas Sessões
A partir da sexta sessão, o plano mudou completamente.
Sessões 6 a 8: Validação do luto
- A colega não tentou “animar” R. Não tentou “motivar”. Não falou sobre futuro. Falou sobre a avó.
- Perguntou sobre o que ela gostava, o que ela dizia, o que eles faziam juntos. Deixou R. falar. Deixou R. silenciar. Deixou R. chorar — o que aconteceu na oitava sessão, depois de uma conversa sobre o bolo que ele nunca aprendeu a fazer.
- A literatura sobre intervenção psicopedagógica no luto aponta que o trabalho com narrativas, memórias, desenhos e objetos significativos pode favorecer a elaboração da perda . A colega usou o caderno de receitas como mediador. Propôs que R. escrevesse uma receita. Não a da avó. Uma dele.
Sessões 9 a 12: Reconstrução do vínculo com a aprendizagem
- Só depois de o luto ter espaço, a colega começou a trabalhar a relação de R. com a escola.
- Investigou o que ele gostava antes. Descobriu que R. gostava de história. Que gostava de documentários sobre a Segunda Guerra. Que tinha curiosidade sobre aviões.
- Usou isso como ponte. Atividades de leitura sobre temas de interesse. Escrita sobre o que ele sabia. Matemática aplicada a contextos reais (cálculo de distâncias, tempo de voo, etc.).
- O objetivo não era “recuperar o conteúdo perdido”. Era recuperar a experiência de aprender como algo que fazia sentido.
Sessões 13 a 16: Reintegração e reavaliação
- R. começou a fazer as atividades da escola. Não todas. Mas algumas. A professora de história notou. A mãe notou.
- R. ainda estava triste. A avó ainda estava morta. Mas R. tinha agora um lugar onde a tristeza era permitida. E isso mudou a relação dele com o resto.
Encaminhamento:
Para psicologia clínica, com foco em luto adolescente. A colega manteve o acompanhamento psicopedagógico em paralelo, com comunicação entre os profissionais.
O que se aprendeu com esse Caso?
O que se aprendeu:
- Que “desmotivação” em adolescentes pode ser luto não reconhecido .
- Que a perda de um vínculo significativo — especialmente quando esse vínculo era o único lugar de reconhecimento — pode desorganizar completamente o investimento no futuro .
- Que o psicopedagogo não trata luto. Mas pode reconhecer luto. E encaminhar. E, no que é de sua competência, criar espaço para que a aprendizagem volte a fazer sentido quando o sentido estava ancorado em alguém que partiu.
- Que perguntar “o que aconteceu na vida dessa pessoa nos últimos meses?” é tão importante quanto perguntar “o que ela não sabe”.
O que ainda não se sabe:
- O que teria acontecido se a colega tivesse focado em “técnicas de motivação” e “organização de estudos” desde a primeira sessão. Quantos R. são tratados por “preguiça” quando estão de luto.
- Se a escola tivesse sido informada. Se os professores soubessem. Se alguém tivesse dito “sinto muito pela sua avó” antes de dizer “você precisa estudar”.
- Se o pai, que “trabalhava muito” e estava “muito cansado”, também estava de luto — e se ninguém tinha perguntado por ele também.
Para você, que está no meio de um caso que não fecha:
Este post não é sobre “acertar”. É sobre o que se faz quando o sintoma que chega não é o sintoma que importa.
Durante três sessões, a colega que enviou este caso pensou em desmotivação. Fez o que era esperado. Aplicou o que era esperado. E quase perdeu o adolescente atrás da queixa.
Hoje ela sabe: a apatia que chegou como “preguiça” era um luto que ninguém tinha visto. E o trabalho dela não era motivar R. Era reconhecer que ele estava sofrendo por uma perda que ninguém à sua volta tinha validado.
Nem todo caso tem um nome. E o nosso trabalho não é dar um nome. É perguntar: “O que essa pessoa perdeu que ainda não foi chorado?”
Se você está agora no meio de um caso que não fecha, este post é para você. Não para te dar uma resposta. Para te lembrar de perguntar: “O que aconteceu na vida dessa pessoa que ela não consegue colocar em palavras?”
Checklist para avaliação ampliada: Perdas, Lutos e Transições
A colega que enviou este caso compartilhou o checklist que passou a usar depois dessa experiência:
- Perdas recentes: Alguém significativo morreu nos últimos 12 meses? Um animal de estimação? Uma mudança de casa, de escola, de cidade?
- Como a perda foi comunicada: A criança/adolescente foi informado? Participou dos rituais (velório, enterro)? Teve espaço para se despedir?
- Como a família lidou: Falou sobre a perda? Evitou o assunto? Alguém na família também está de luto e sem apoio?
- Mudanças de comportamento: Quando começou a queda no desempenho? Coincide com alguma perda ou transição?
- Objetos significativos: A criança/adolescente tem algo que pertenceu à pessoa perdida? Fala sobre isso? Evita falar?
- Palavras que aparecem: “Não faz sentido”, “para que estudar”, “não faço falta”, “ninguém liga”. Isso é desmotivação ou é luto?
E você?
Já atendeu um caso que parecia desmotivação e era luto? Já percebeu que a apatia escondia uma perda que ninguém tinha validado? Já sentiu que o adolescente estava sofrendo por algo que a família não conseguia nomear?
Escreve nos comentários. Ou me manda por e-mail. Casos que não fecham não deveriam ser vividos sozinhos.
Se você quiser enviar seu caso para esta série, escreva para o e-mail do blog com o assunto “Casos que Não Fecham”. Todos os dados serão anonimizados e publicados somente com sua autorização.
