Estudo de Caso Psicopedagógico e Psicológico #02 para Análise Coletiva

Estudo de Caso #02:

Todos os dados pessoais aqui apresentados são fictícios por questões de ética e para preservação do aprendente/paciente. A situação relatada é real.


Dados do Paciente
  • P13 anos
  • Pai50 anos – bancário
  • Mãe 48 anos – não trabalha

Resumo da queixa principal

P- 13 anos – encaminhada pela escola – cursa a classe de aceleração. A mãe queixa-se da escola. Nasceu de parto normal, desenvolvimento normal. Segundo o relato da Direção da Escola, a hipótese de diagnóstico é dislexia e tem “raciocínio lento”.

  • pai e a mãe comparecem à primeira entrevista e demonstram muita preocupação com P porque a criança “não consegue aprender”.

Entrevista

Primeira entrevista (o discurso dos pais).

A mãe e o pai relatam que P nasceu de parto normal e é a filha caçula das três meninas que têm. A gravidez não foi desejada – “foi um descuido”, segundo a mãe: “A gravidez foi um descuido, não fiz pré-natal, só fui ao hospital para ela nascer”. P não foi amamentada, pois a mãe diz que não teve leite, e os primeiros cuidados ficaram a cargo da babá. Demorou a sentar, andar e falar. Aos dois anos foi para a creche, ficando até os cinco anos, e o contato com os pais era somente nos finais de semana. A mãe informa que, como a menor era muito quieta e calada, diferente das outras irmãs, não era motivo de preocupação. Não participava das brincadeiras com as outras irmãs. Quando perguntada sobre as outras filhas, ela disse que são “meninas muito inteligentes, completamente diferente de P”.

Questionada se as outras crianças também ficaram na creche, a mãe afirmou que ficavam com a avó paterna, que “não queria tomar conta de mais de uma”, P.

Os pais acrescentam que as outras filhas estudam em uma escola particular, e P foi retirada dessa escola, pois estava fazendo com que eles “passarem muita vergonha pelos anos de repetência” e, então,decidiram colocá-Ia em uma escola pública municipal. P identifica-se com o lugar constituído para ela:

“Minha mãe me colocou na escola pública, porque eu sou muito burra e não consigo aprender direito” (P)

Na atual escola, já repetiu três vezes e, hoje, frequenta uma classe de aceleração.

Foi agendada uma entrevista de anamnese com a criança.

Pôde-se identificar no discurso dos pais, ou melhor dizendo, da mãe, pois é essa que mais se expressa ao falar da filha, um lugar de negação constituído para P, que acaba se reproduzindo na escola. A fala de preocupação dos pais é assim apresentada:

  • “não consegue aprender?”. Pode-se, assim, verificar que há uma responsabilidade imposta à P por não aprender. Não há nenhum questionamento do espaço escolar, pois P é o sujeito da ação de não aprender, tanto é que os pais relatam a vergonha que sentem pelos anos de repetência da filha. P é responsabilizada pelo que não consegue, mas foi negado a ela o lugar de sujeito desde a sua concepção, pois a gravidez “foi um descuido”, segundo a mãe. E todas as ações da mãe negam P (não fez pré-natal, não amamentou). Entretanto, ela nasceu e foi se constituindo como sujeito e aí passou a ser no discurso, principalmente da mãe, sujeito de ações consideradas negativas, tal como “não aprender”.

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Segunda entrevista – Com a paciente P

A mãe a trouxe e queria permanecer na sala, porém foi-lhe explicado que a entrevista era com a menor. A mãe foi muito insistente em não deixar a filha a sós com a psicopedagoga. Novamente foi-lhe explicado que P só iria conversar e que o trabalho era dessa forma: primeiro ouvindo os pais, depois a criança ou adolescente; a mãe relutou muito, mas aceitou.

P entrou na sala. Apresentava um estado de grande ansiedade e medo, estava muito pálida e com as extremidades geladas, muito limpa, arrumada e trazia um patinho de pelúcia.

Iniciou-se a conversar sobre ela. A princípio, foi muito difícil estabelecer um contato, pois toda hora a mãe batia à porta e, a cada batida, P ficava pálida.

A psicopedagoga/pesquisadora fez dobraduras para que ela colorisse. No início, P disse que não sabia colorir, mas foi-lhe pedido que tentasse. Aos poucos, foi colorindo, atendendo ao pedido para que desenhasse. No início, P disse que não sabia desenhar, e a psicopedagoga/pesquisadora começou, então, a desenhar figuras para que ela completasse e assim foi feito, até que P começou a desenhar sozinha. A primeira sessão foi de 1 hora e 30 minutos. Ela perguntou se poderia voltar, e a resposta foi afirmativa.

Avisou-se à mãe que P viria para as consultas três vezes por semana. A mãe disse que não poderia trazê-Ia. Nesta hora, P começou a falar com a mãe que ela poderia vir sozinha, pois morava perto e, se ela ia para a escola sozinha, que era muito mais longe, poderia e queria vir sim. A mãe ainda tentou colocar obstáculos, mas aquela menina pálida do início da sessão já apresentava um outro tônus vital e fazia uma fala afirmando seu lugar. A partir daí, P começou a vir sozinha e já demonstra, após sete semanas, uma certa segurança.

Na primeira sessão, a psicopedagoga/pesquisadora, ao mesmo tempo em que realiza ações para constituir vínculo com P, também age para que a mesma vá se constituindo como sujeito de ações consideradas positivas (pintar, desenhar, ir à sessão de atendimento sozinha). A mãe resistiu, pois o lugar de ações negativas “precisa” ser mantido para P.

avaliação psicop

Avaliação Psicopedagógica

A avaliação começou somente na quinta sessão, pois a psicopedagoga queria observar mais, construir um vínculo com P, pois ela havia dito, na quarta sessão, que estava sempre com o patinho de pelúcia, pois ele era o único que a escutava. Tal relato aconteceu porque ela não trouxe o patinho.

Perguntada sobre ele, P disse que não precisava mais dele, pois já tinha uma amiga para conversar. Assim, a avaliação psicopedagógica podia ser feita, pois o vínculo estava elaborado.

Na avaliação, foi constatado alto grau de ansiedade, medo de errar e não corresponder às expectativas, sentimentos intensos de incompetência, agressividade contida (mas pronta para eclodir), sentimento de menos valia e uma expressão de revolta contra os pais (por meio de desenhos).

Na EOCA, a professora não respondeu. Foi feito contato telefônico com a Direção da escola e, posteriormente, a psicopedagoga/pesquisadora foi até lá. A professora de P disse que não tinha tempo para preencher “papeizinhos ridículos” e que aquilo (referindo-se a P) não tinha mais jeito, pois “é uma deficiente mental e deve estar numa escola especializada”. Houve ainda uma conversa com a diretora da escola, que ratificou as informações da professora.

Fica estabelecido que, também, a escola é o lugar de sujeito de ações consideradas negativas para P. A professora ao utilizar o pronome demonstrativo “aquilo” para referir-se a P, a identifica como alguém que não se pode ser nomeado. P, nas palavras de sua professora, foi “coisificada”, o que não possibilita que ela constitua um lugar de sujeito.

Quando a professora nomeia P, é para rotulá-Ia como “deficiente mental”, com todo o preconceito que a palavra deficiente (aquele que não é eficiente) produz, chegando a afirmar que a escola, na qual P está, não é para ela, que ela precisa de uma escola especial, instituição tão negada pela sociedade, muitas vezes entendida, pelo senso comum, como um espaço de reclusão para pessoas “indesejadas” pela sociedade, sendo, assim, a escola também nega P como sujeito.

A avaliação pedagógica apenas começou a ser feita a partir da quinta sessão porque foi o tempo necessário para o estabelecimento do vínculo entre a menina e a psicopedagoga.

As primeiras sessões objetivaram diluir as tensões, fazer um bom “rapport” com a menor e com a mãe, que foi encaminhada para outra psicóloga.

Intervenção Psicopedagógica

A caixa individual com diversos materiais e outras coisas pessoais de P que ela coloca na caixa. Esta caixa tem como objetivo lúdico despertar estruturas cognitivas (atenção, memória, concentração, criatividade entre outros aspectos). O trabalho começa pelos jogos e vai desenvolvendo outros jogos que, de uma certa forma, atuam como facilitador da aprendizagem. Como P tem muita dificuldade na escrita e na leitura, começamos com dominó de letras e palavras e jogos que incluíam a construção de palavras e frases.

A intervenção, no caso de P, foi feita por uma equipe interdisciplinar, composta pelos seguintes profissionais: pediatra, fonoaudiólogo, psicopedagogo, psicólogo e assistente social. Equipe interdisciplinar é aquela que atua em conjunto com o objetivo de ver o paciente como um todo e não fragmentado para a eficácia do tratamento.

Um exemplo da atuação dessa equipe é, pois como o grupo estudava o caso sugerido, a mãe, por meio da equipe, pediu que ela fosse transferida para outra escola. E o serviço social procurou uma escola que pudesse atender às demandas do caso P. Durante as reuniões da equipe interdisciplinar, com base na negação e por que não dizer da rejeição da Direção da escola com P, houve um consenso de que a melhor saída seria a transferência para uma escola que fosse mais  acolhedora e que proporcionasse um melhor desenvolvimento do trabalho que estava sendo realizado com P.

A escola não me recebeu bem, a diretora e a professora são pessoas difíceis, acho melhor mudar P de escola. (Assistente Social). Eu gosto da nova escola, a professora é muito boazinha (P). A assistente social contactou com quatro escolas, narrou o caso de P, e uma dessas escolas sensibilizou-se com o problema de P e investiu na parceria com o Posto de Saúde.

Após quatro meses de atendimento psicopedagógico, três vezes por semana, e com a fonoaudióloga, duas vezes por semana, a troca de escola e o atendimento feito aos pais por uma psicóloga de abordagem sistêmica, P tem avançado significativamente na leitura, apresentando autoconfiança. O interesse pela leitura era o ponto crucial, pois o ler significava o não falar, o não se expressar e, durante a trajetória de vida de P, sempre foram negados a fala, o discurso e a leitura da voz à P para expressar-se e se constituir como sujeito dentro desta família e da sociedade.

Em uma sessão recente com P, ela deu o patinho para a psicopedagoga, para que fosse doado a alguém que se sentisse sozinha como “ela esteve um dia”. Isso significa que o lugar de sujeito está sendo constituindo a partir de uma autoafirmação de P. O trabalho continua, pois muita coisa precisa ser feita ainda, como dar suporte nas condições emocionais, na autoestima, no perder e ganhar, reelaborando este aparelho psíquico para que P consiga enfrentar a vida com mais confiança e segurança (PORTO, 2009).

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Caso aberto para discussão nos comentários, deixe seu parecer para contribuir com nosso segundo estudo de caso.

Veja ainda:Estudo de Caso Psicopedagógico #01 para Análise Coletiva

Leia também:Escala de Avaliação de Transtornos de Comportamento Disruptivos para Pais e Professores

Um comentário em “Estudo de Caso Psicopedagógico e Psicológico #02 para Análise Coletiva

  • 12 de outubro de 2018 em 16:57
    Permalink

    Boa tarde. Não compreendi a parte que é relacionada a EOCA. A mesma, é um momento realizado com o sujeito( aprendente) e não com a prodessora/diretora. Há sim, o momento em que o psicopedagogo faz uma escuta com algumas perguntas para o professor/direção, mas não nesse momento EOCA.

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