NeuropsicopedagogiaPsicopedagogia

Separações e Rupturas” — Quando o diagnóstico não resiste ao casamento. Post 4

O divórcio como desfecho frequente

A chegada de um diagnóstico de transtorno do neurodesenvolvimento não afeta apenas a relação dos pais com o filho — afeta, de maneira profunda, a relação entre os pais.

A literatura nacional tem mostrado que o cuidado de crianças com transtornos do neurodesenvolvimento não recai igualmente sobre o casal. Estudo brasileiro conduzido pela Universidade de São Paulo (USP) em parceria com a Universidade Estadual Paulista (UNESP) revelou que 85% dos cuidadores principais são do gênero feminino, e 80% são as próprias mães as principais responsáveis pelos cuidados e pela manutenção da vida dos filhos .

Essa distribuição desigual do trabalho de cuidado é uma das principais fontes de tensão conjugal. O estresse crônico, a falta de tempo para o casal, as divergências sobre tratamento e educação, o esgotamento financeiro e a ausência de uma rede de apoio suficiente são fatores que contribuem para o desgaste da relação .

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE


Publicidade

Dados nacionais sobre separação

Os números mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), analisados em reportagem do Jornal da USP, mostram que o Brasil registrou aumento recorde de divórcios nos últimos anos. Embora esses dados não se restrinjam a famílias atípicas, eles indicam um contexto geral de fragilização das relações conjugais — contexto em que as famílias de crianças com transtornos do neurodesenvolvimento estão inseridas .

O Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBDFAM), com base em dados do IBGE, reportou que o Brasil registrou alta de 16,8% no número de divórcios em 2021 em comparação ao ano anterior . A tendência de crescimento das separações é consistente, e as famílias que enfrentam situações de sobrecarga — como é o caso das famílias atípicas — estão entre as mais vulneráveis a esse desfecho.

A pesquisadora Lemos, em análise publicada pelo Jornal da USP, destaca que o aumento recorde de divórcios no Brasil reflete transformações sociais mais amplas, mas também escancara a fragilidade das redes de apoio familiar em momentos de crise .

Por que o diagnóstico tensiona o casamento

Pesquisas nacionais sobre separação conjugal identificaram fatores específicos que tornam as famílias atípicas mais vulneráveis à ruptura.

O estudo “Os impactos psicológicos do processo de separação conjugal para crianças”, publicado na Archives of Health, analisou a dinâmica familiar pós-separação e identificou que a qualidade da relação estabelecida entre os pais e a manutenção de uma rotina estável desempenham papel fundamental na adaptação da criança .

No caso de famílias com filhos com transtornos do neurodesenvolvimento, esses dois fatores são particularmente desafiadores:

  • A rotina — que é essencial para crianças com TEA, TDAH e outros transtornos — torna-se mais difícil de manter quando os pais não vivem na mesma casa
  • A qualidade da relação entre os pais — que já é testada pelo estresse do cuidado — pode se deteriorar ainda mais após a separação

O estudo também identificou que a separação conjugal é um evento estressor significativo, com impactos negativos no bem-estar físico e emocional das crianças, incluindo a presença de transtornos de ansiedade e depressão . Para crianças com transtornos do neurodesenvolvimento, que já apresentam maior vulnerabilidade emocional, os impactos podem ser ainda mais graves.

As consequências específicas para crianças com transtornos

Embora a literatura nacional ainda tenha poucos estudos específicos sobre divórcio em famílias atípicas, a experiência clínica e relatos de profissionais têm identificado consequências adicionais quando a separação ocorre em famílias de crianças com transtornos do neurodesenvolvimento.

Em famílias de crianças com autismo, por exemplo, o divórcio de alto conflito entre os pais pode resultar em :

  • Atraso no diagnóstico e aquisição de habilidades — a falta de consenso entre os pais pode atrasar a busca por avaliação
  • Atraso no início da terapia clinicamente necessária — divergências sobre qual tratamento seguir podem paralisar as decisões
  • Perda de impulso do tratamento — quando a criança alterna entre duas casas, a consistência terapêutica pode ser prejudicada
  • Abordagem inconsistente da terapia — cada genitor pode aplicar estratégias diferentes
  • Estresse e confusão — a criança recebe mensagens contraditórias dos pais
  • Possível regressão nos objetivos educacionais e comportamentais — o estresse da separação pode levar a perda de habilidades já adquiridas

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE


Publicidade

Ninguém te contou que…

  • O divórcio pode atrasar o diagnóstico e as terapias. A falta de consenso entre os pais sobre a necessidade de avaliação ou tratamento pode paralisar as decisões por meses ou anos .
  • A inconsistência entre as casas prejudica o progresso da criança. Quando cada genitor aplica abordagens diferentes, a criança recebe estímulos contraditórios, o que pode levar à regressão .
  • A guarda compartilhada pode não funcionar para todas as crianças. Crianças com autismo, por exemplo, geralmente se beneficiam de rotinas altamente previsíveis. Alternar entre duas casas a cada poucos dias pode ser desestabilizador .
  • As mulheres ficam com a sobrecarga. Como mostram os dados nacionais, a guarda majoritariamente recai sobre as mães, que já são as principais cuidadoras. A separação frequentemente aprofunda a vulnerabilidade socioeconômica e emocional da mulher .
  • A separação não resolve a necessidade de co-parentalidade. Pais separados continuam precisando tomar decisões conjuntas sobre tratamento, escola, terapias — e divergências que já existiam podem se acirrar .

O papel da mediação e do apoio profissional

Especialistas em direito de família com experiência em autismo recomendam que famílias atípicas considerem a mediação como alternativa às batalhas judiciais tradicionais .

A mediação do divórcio pode ser uma alternativa preferível às dispendiosas batalhas judiciais em curso. Nela, um terceiro neutro ajuda a família a tentar resolver questões sem a necessidade de um julgamento contestado. Pais divorciados recorrem frequentemente à mediação para abordar e resolver pacificamente a custódia, horários e obrigações parentais, questões educativas e médicas relacionadas com os filhos, divisão de bens conjugais, questões relacionadas com apoio, taxas de litígio e outras questões .

Para famílias de crianças com transtornos do neurodesenvolvimento, a mediação permite que sejam consideradas questões específicas que um tribunal tradicional pode não compreender plenamente :

  • Horários e modalidades de terapia
  • Horários do ano letivo estendidos
  • Custos suplementares relacionados ao transtorno
  • Questões relacionadas ao Plano de Ensino Individualizado (IEP) ou adaptações escolares
  • Treinamento contínuo relacionado ao transtorno para pais e familiares

Especialistas também recomendam que as famílias se perguntem, ao elaborar um acordo de custódia :

  • O acordo permitirá que a criança mantenha a frequência e a intensidade dos serviços sem interrupção?
  • Como a criança chegará às sessões de terapia?

A importância do apoio psicológico

O estudo nacional sobre separação conjugal e crianças concluiu que o suporte psicológico para as crianças e famílias é fundamental. A pesquisa sugere que futuras investigações explorem intervenções precoces para minimizar os impactos da separação no desenvolvimento infantil .

Para famílias atípicas, o apoio psicológico deve considerar não apenas o sofrimento emocional da separação, mas também as necessidades específicas relacionadas ao transtorno do neurodesenvolvimento.

O estudo também destacou que a qualidade da relação estabelecida entre os pais é um dos fatores mais importantes para a adaptação da criança. Mesmo após a separação, a capacidade de manter uma comunicação respeitosa e decisões conjuntas centradas nas necessidades da criança é fundamental .

Se você se identificou

Se você leu até aqui e reconheceu sua própria história — ou a de pessoas próximas — alguns pontos merecem ser ditos:

  1. A sobrecarga do cuidado não é igual para homens e mulheres. Os dados nacionais mostram que as mães são as principais cuidadoras. Se você está se sentindo sobrecarregada, não é “frescura” — é a realidade documentada de milhares de famílias brasileiras .
  2. A separação não é sinal de fracasso. As circunstâncias que levaram ao desgaste — falta de apoio, estresse crônico, divergências sobre o tratamento — são reais e desgastam qualquer relação.
  3. Busque mediação, não litígio. Especialistas recomendam a mediação como alternativa preferível às batalhas judiciais, especialmente quando há uma criança com necessidades específicas envolvida .
  4. A criança não precisa escolher um lado. O que ela mais precisa é de rotina, consistência e previsibilidade. Pais que conseguem co-parentar de forma respeitosa protegem o desenvolvimento da criança .
  5. Busque apoio psicológico para todos os envolvidos. A separação é um evento estressor significativo, e o suporte profissional pode fazer a diferença na adaptação de todos .

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE


Publicidade

No próximo post: “Os Irmãos Invisíveis” — O sofrimento silencioso dos irmãos não diagnosticados

Compartilhe este texto com outros pais que também enfrentam o desgaste da relação — não para assustá-los, mas para que saibam que as dificuldades que enfrentam não são “falta de amor”, mas sim a realidade do cuidado sobrecarregado.

Para Saber Mais


Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *