Quais são os materiais da Caixa Lúdica?

Há muitos locais que vendem as caixas lúdicas já prontas, feitas de madeira e revestidas de fórmica, por ser lavável.

Esse cuidado facilita a sua reutilização, uma vez que há crianças que pintam suas caixas. O tamanho ideal de uma caixa ludodiagnóstica é de 50 cm de comprimento por 35 cm de largura e 30 cm de altura. Ao longo dos anos percebeu-se que as crianças que se sentem ameaçadas com a invasão de outras e costumam, com mais frequência, delimitar seu espaço pintando suas caixas.

Quanto aos materiais, Klein (1932) sugere que sejam pequenos, permitindo que a criança os manipule, ou seja, tenha o controle sobre os mesmos, mas não tão pequenos que possam pôr em risco a vida da criança, pois algumas deverão querer pô‑los na boca. Além disso, os materiais estruturados devem ser uma miniatura da realidade, para que a criança possa encontrá‑los e reconhecê‑los como representantes de sua realidade. Logo, cada caixa deve respeitar a realidade cultural da criança em questão.

Não colocaremos um posto de gasolina numa caixa lúdica se formos atender uma criança indígena, por exemplo. Efron e colaboradores (1976) e Aberastury (1962) recomendam que sejam utilizados materiais estruturados e não estruturados. Não há ainda uma padronização para a caixa lúdica, embora se esteja estudando esta possibilidade, mas os profissionais devem ter alguns cuidados na escolha dos materiais, observando, como já mencionado, que sejam uma miniatura da realidade, e não, por exemplo, um jacaré de cor abóbora. Além disso, é recomendável que sejam manipuláveis pelas crianças, não devendo ser grandes demais, pois também podem assustar a criança, nem pequenos demais, pois podem pôr em risco sua manipulação.

Os materiais recomendados para uma cultura urbana brasileira são:
  • Materiais estruturados;
  • X famílias de bonecos;
  • X famílias de animais selvagens e domésticos;
  • X casinha com quarto, cozinha, sala e banheiro;
  • X posto de gasolina;
  • X carros e caminhões ou caminhão‑cegonha ou cegonheiro;
  • X bola;
  • X armas de brinquedo;
  • X soldados em campo de guerra ou policiais;
  • X índios;
  • X equipamentos de cozinha, de enfermagem ou ferramentas;
  • X telefone;
  • X aeroporto;
  • X porto com barquinhos.
  • X Materiais não estruturados;
  • X lápis preto;
  • X caixa de lápis coloridos;
  • X borracha;
  • X guaches coloridos, com pelo menos cinco cores (azul, preto, amarelo, branco e vermelho);
  • X um pincel no 6 e outro no 12;
  • X apontador;
  • X cola e fita adesiva;
  • X tesoura;
  • X massa de modelar;
  • X barbante;
  • X papéis laminados coloridos;
  • X papel sulfite;
  • X papel espelho colorido;
  • X blocos de madeira coloridos;
  • X brinquedos de construção: ligue‑ligue/monta‑tudo ou de outros tipos de encaixes;
  • X panos e bacia com água.

Os materiais estruturados têm a função de facilitar a expressão, permitindo um rápido acesso à capacidade simbólica da criança, considerando que esta é a sua forma mais comum de interagir com o mundo no seu dia a dia, logo o material lúdico estruturado
teria essa finalidade facilitadora.  Muitos profissionais utilizam materiais estruturados, mas não obedecem alguns cuidados.

Por exemplo, é comum encontrarmos caixas com animais de diversas cores, como vaca azul e boi verde. Além disso, algumas caixas lúdicas muitas vezes não contêm cenas, e sim todos os materiais sem relação alguma entre si.

Deve‑se colocar um posto de gasolina, e não um carrinho apenas; um aeroporto, e não um avião. Deve existir uma estrutura mental das noções de espaço, tempo e causalidade (Affonso; 1994, 1998) que será feita a partir da montagem ou não de cenas, que podem ser construídas através de blocos, mas numa situação diagnóstica, na qual temos pouco tempo de observação, mas devemos oferecer à criança estas cenas.

Ainda em relação aos materiais estruturados, foi verificado que para as meninas é mais fácil a escolha dos materiais, e os mesmos facilitam a expressão de sua identificação com a figura feminina. Na nossa cultura ainda é a figura feminina quem tem a responsabilidade pelos cuidados domésticos (mesmo, às vezes, essas funções ficando a cargo do homem), logo, a casinha, os bonecos e os utensílios de cozinha servem para a expressão dessas vivências familiares, e é possível adquirir várias cenas muito utilizada pelas meninas no seu cotidiano natural.

No caso dos meninos isso já não ocorre com tanta frequência. Comumente são oferecidos a estes um carrinho, um guerrilheiro, um bombeiro, etc., e não uma patrulha de policiais, um homem no escritório. As vivências dos papéis masculinos ficam mais distanciadas das crianças, logo, segundo minhas hipóteses, a identificação masculina, principalmente para os meninos, é imaginada sem a possibilidade de um brinquedo que facilite sua representação.

Os materiais não estruturados também têm a finalidade de facilitar a expressão infantil, principalmente para aquelas crianças que se sentem ameaçadas com o material estruturado, além de permitir a expressão da criatividade na sua forma de construção. Alguns autores da psicanálise sugerem que, por ser esta uma técnica projetiva, sejam utilizados somente materiais não estruturados, apoiados no fato de que os estruturados sofrem a influência cultural de quem os escolhe (Brougère, 2000).

Outros, como Klein (1955) e Soifer (1974), são contrários ao uso de jogos de competição, sob a alegação de que levam o terapeuta a se afastar de sua atitude investigativa, ou seja, podemos não encontrar um consenso em relação à escolha desses materiais. Portanto, a padronização dos materiais numa caixa lúdica ainda é alvo de pesquisas e é um campo complexo de estudo. O que é comum é a necessidade da utilização de materiais, uma vez que permitem a observação de fenômenos que não são obtidos pela palavra e podem ser observados ou analisados tanto no acontecimento lúdico quanto na maneira como a criança utiliza os materiais, estruturados ou não.

Podemos encarar o material lúdico, seja estruturado ou não estruturado, como um instrumento de expressão da saúde mental infantil, que permitirá a manifestação da brincadeira simbólica e que poderá permitir a imaginação de uma realidade dolorosa ou não, ou seja, cumpre um papel da expressão de aspectos positivos ou negativos de suas vivências e que faz parte dos comportamentos esperados num desenvolvimento infantil sadio. Logo, a criança que não interage com os materiais ou não manifesta a brincadeira simbólica apresenta alguma problemática a ser investigada.

Klein (1929) aponta os cuidados que devemos ter com a criança que não brinca e o quanto este bloqueio está relacionado ao comprometimento pessoal e/ ou social. Portanto, o faz de conta permite não só a representação de uma realidade angustiante (Freud, 1920) como também a sua elaboração ou mesmo o confronto da realidade interna com a vivenciada.

É essa concepção que muitas vezes está subjacente na montagem de brinquedotecas ou na escolha dos materiais em diversos contextos, como, por exemplo, em hospitais. Na montagem de uma brinquedoteca hospitalar devem‑se considerar espaços com instrumentos cirúrgicos, macas, utensílios de higiene pessoal, enfim, materiais que possam facilitar a expressão, a representação da realidade vivida no contexto hospitalar, podendo ser transformada, elaborada, confrontada na brincadeira simbólica através dos brinquedos, tal como fundamentou Freud (1920). 

Ao atender famílias vítimas de homicídio e latrocínio em psicoterapia breve infantil, devem ser montadas caixas lúdicas específicas, pois os materiais da caixa devem ser alterados conforme o objetivo do atendimento, mas sempre respeitando o conteúdo de materiais estruturados e não estruturados.

Nos casos de caixas lúdicas montadas apenas com material não estruturado, a influência cultural também estará presente.

A brincadeira simbólica manifesta pela criança, independentemente do material, sofre influências educacionais, familiares ou não, e a criança apresentará os seus conflitos sob a influência da família, que, por sua vez, está inserida naquela cultura. Portanto, o profissional deve fazer uma análise crítica, seja na escolha dos instrumentos para aquele contexto em que está trabalhando no momento, seja na consideração das manifestações dos instrumentos utilizados.

Ainda em consideração à escolha dos materiais pelo profissional que trabalha com ludodiagnóstico, o referencial de teorias de desenvolvimento está implícito. A brincadeira simbólica faz parte de uma das etapas do processo de socialização da criança, por isso a escolha de determinado brinquedo ou brincadeira pela criança será analisada sob este enfoque evolutivo. Logo, a caixa deve conter elementos que pressupõem esta análise, não sendo, portanto, uma caixa lúdica qualquer.

Para Efron (1976) e Aberastury (1962), o significado dos brinquedos tem um valor diagnóstico fundamentado na teoria do desenvolvimento psicossexual de Freud (1905) e nas teorias de desenvolvimento cognitivo. É diferente uma criança que monta várias cenas com personagens interagindo em várias situações conflituosas de outra que persevera, tomando a água da bacia ou apenas afundando um carrinho na água sem parar.

O profissional analisará a etapa da manifestação simbólica, podendo considerar, por exemplo, a capacidade simbólica da primeira criança, com vários recursos egoicos, enquanto a segunda manifesta etapas primárias do desenvolvimento oral, ou ainda, a primeira manifestando um tipo de brincadeira em que está implícita a brincadeira simbólica, enquanto na segunda a possibilidade de sua não construção.

A escolha dos materiais tem o objetivo de possibilitar a manifestação ou expressão da criança, sofrendo as influências culturais da sociedade em questão, mas essa escolha obedece a critérios teóricos específicos, abordados por vários estudiosos da teoria psicanalítica, que pressupõem o estudo do desenvolvimento humano. Como mencionei acima, o diagnóstico da problemática ou crise da criança é realizado no contexto evolutivo, no qual a investigação das etapas evolutivas da manifestação da brincadeira simbólica e de seus significados tem um papel importante. Logo, a escolha da abordagem psicanalítica não é uma opção, uma vez que pressupõe uma teoria do desenvolvimento.

O mesmo acontece com a abordagem piagetiana em relação ao estudo do desenvolvimento das expressões práticas do bebê para as manifestações simbólicas na criança, pois o diagnóstico não é do brinquedo, e sim da manifestação das representações da mente infantil.

 

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5 comentários em “Quais são os materiais da Caixa Lúdica?

  • 28 de abril de 2019 em 17:55
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    Amei essa caixa ludia. Como faco para adquirir e qual e o valor?

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  • 5 de maio de 2019 em 16:00
    Permalink

    qual o valor da caixa ludica e como adiquirir?

    Resposta
  • 12 de julho de 2019 em 10:01
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    Parabéns pelo post/matéria. Está muito bem escrito e pesquisado. É raro encontrar artigos nos sites de “psico” com esta qualidade, bem fundado teoricamente e claro/objetivo na sua exposição. Parabéns!!

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    • 17 de julho de 2019 em 10:20
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      Olá Levi, agradecemos muito seu carinho e atenção para conosco. Estamos realmente muito felizes com a sua mensagem, são atitudes como a sua que nos fazem continuar com mais entusiasmo e alegria, pois sabemos que vale a pena. Compartilhamos tudo com muito carinho e amor pois sabemos que nossa área ainda é muito carente de materiais e esclarecimentos. Desejamos sucesso, conte sempre conosco, abraços carinhosos.

      Resposta

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