Como elaborar o Contrato da Sessão Ludodiagnóstica?

O ludodiagnóstico é um instrumento de investigação clínica no qual, por meio da utilização de brinquedos, estruturados ou não, o profissional procura estabelecer um vínculo terapêutico com a criança, visando ao diagnóstico de sua personalidade.

Assim que a criança entra na sala de atendimento, sugere‑se esclarecer a ela os objetivos do encontro, o porquê da presença do material, bem como o papel de cada um – criança e profissional – neste contexto. Como a situação ludodiagnóstica é realizada após as entrevistas com os pais ou responsáveis, em geral o profissional já tomou o cuidado de saber o que foi dito à criança ou de orientar tal esclarecimento aos pais ou responsáveis, procurando evitar situações fantasiosas ou de falsidade no encontro.

Aliás, é comum que a criança, quando questionada pelo profissional sobre os motivos que a trouxeram ali, diga que os desconhece,
para testar a confiabilidade daquele que a está questionando.

Para a realização do ludodiagnóstico, não existe uma padronização, mas há alguns procedimentos comumente utilizados.

1. Primeiramente, pergunta‑se à criança se ela sabe os motivos que a levaram àquela situação.

2. Depois disso, são apresentados os motivos dos pais ou de terceiros que a levaram a esse encontro, tomando o cuidado de não colocá‑los
no papel de figuras más. Caso seja necessário mencionar os reais motivos, devem ser colocados como uma tentativa de colaboração em relação a algo que não se está conseguindo resolver sem uma ajuda profissional. Deve‑se ter o cuidado de não causar indignação, ou mesmo sentimentos de traição na criança.

3. A apresentação dos materiais é feita de modo a explicitar que os mesmos têm a função de colaborar para o entendimento das situações‑problema apresentadas e a finalidade de facilitar a expressão da criança. Comumente, acrescenta‑se que a utilização ou não do material pela criança é facultativa.

4. Deve ser esclarecido no início de sessão que o objetivo é compreender e tentar orientar os envolvidos no problema, (pais, criança, escola, etc.) e que outros contatos foram ou serão ainda realizados, ao menos com os pais. É importante o profissional considerar que, embora o ludodiagnóstico tenha seus fundamentos na técnica psicanalítica, nem sempre a sua utilização é psicanalítica, pois pode, dependendo da demanda, não estar a serviço da psicanálise, e sim da orientação de pais ou de outros responsáveis.

Portanto, o profissional deve considerar que nem sempre estará ali para decidir – como ocorre num contexto psicoterapêutico psicanalítico – se a criança irá se submeter ou não ao processo psicoterapêutico, e sim para fazer o diagnóstico de uma dada conduta, de uma dada situação. Também há uma demanda de terceiros a ser atendida, que nem sempre corresponde às demandas da criança, mas que deve ser considerada.

5. Após tais esclarecimentos, aguarda‑se um posicionamento sobre como a criança está recebendo esta preocupação dos pais e, segundo Aberastury (1962), é o momento em que a criança pode demonstrar, a partir dos materiais, consciência ou não do problema, bem como expressar os motivos que a levaram a apresentar tais dificuldades e o que necessita para saná‑las.

6. Aguardam‑se as manifestações da criança, sejam verbais ou através da utilização dos materiais, e o examinador poderá indagar a criança, com os cuidados sugeridos nas técnicas expressivas projetivas. Por exemplo:

  • Conte‑me algo sobre o que você está fazendo; se fosse um lugar, onde poderia ser?
  • O que poderia estar acontecendo?
  • Há pessoas nessa situação?
  • O que elas poderiam estar fazendo?
  • Como elas são?
  • Do que elas mais gostam?
  • Do que elas não gostam?
  • O que poderia acontecer para tornar essas pessoas mais felizes?
  • Conte‑me uma história sobre o que você está fazendo.
  • O que vai acontecer depois?
  • Como termina esta história?

7. Essas perguntas não podem ser seguidas como um roteiro, pois poderão ser utilizadas ou não, dependendo daquilo que a criança fizer ou desejar expressar. Logo, nem sempre é possível formular questões; por outro lado, as questões serão desnecessárias se a criança apresentar facilidade na expressão.

8. Alguns minutos antes do término da sessão ludodiagnóstica, sugere‑se a retomada do que foi esclarecido no início da sessão, explicitando quais serão os objetivos seguintes, ou seja, quais e como serão os encontros seguintes, se estão previstas outras atividades ou a mesma que foi realizada. Enfim, conclui‑se o contrato, explicitando o número de encontros previstos, com os seus objetivos, duração e tempo, forma de pagamento, sigilo profissional e como se dará a finalização de todo o processo de avaliação. É importante esclarecer que o sigilo com os pais ou responsáveis é relativo, pois o contexto é de avaliação, e não um sigilo psicoterapêutico, logo a criança deve ser informada de que receberá os resultados do processo juntamente com os pais ou responsáveis.

9. Ao final, comumente após 50 minutos, a sessão lúdica é encerrada. Antes, porém, é solicitado que a criança guarde os materiais segundo os seus critérios. Tal procedimento tem como objetivo verificar como a criança lida com regras e analisar como ela consegue conter ou cuidar dos conteúdos expressos. Pode‑se considerar a recusa da criança a esse procedimento como a expressão de dificuldades em conter ou de tolerar o que foi expresso, deixando para o examinador fazê‑lo, na medida em que é ele o depositário da função de conter ou de cuidar do que se considera, supostamente, irreparável. É evidente que tais significados podem ser entendidos sob outros aspectos: dificuldade em aceitar a separação ou incapacidade para guardar os materiais, ou mesmo dificuldade na aceitação das instruções ou do que foi vivenciado naquela sessão ludodiagnóstica.

Fonte: Rosa Maria Lopes Affonso

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