O Círculo Vicioso — Pais ansiosos → Filhos Ansiosos → Pais mais Ansiosos
O Mistério (Que Talvez Você se Reconheça)
Quando recebi o contato de Marcos, 42 anos, pai de Sophia, 9 anos, ele estava visivelmente exausto — mas não apenas pelo trabalho.
“Dra., minha filha está com medo de tudo. Não quer ir para a escola, não quer dormir sozinha, não quer ficar em casa sem mim. E eu… eu estou começando a ficar do mesmo jeito. Toda vez que o celular toca e é a escola, meu coração dispara. Eu durmo mal pensando no dia seguinte. Minha esposa disse que eu estou ‘contagiando’ a Sophia. Ela tem razão?”
Marcos tem razões legítimas para se preocupar. A mãe de Sophia faleceu há dois anos, e desde então ele assumiu a criação sozinho, com ajuda da avó. A morte foi repentina, traumática. A ansiedade de Marcos não é “frescura” — é uma resposta real a uma perda real.
Mas o que ele não percebia é que, ao tentar proteger Sophia de tudo, estava ensinando a ela que o mundo é perigoso demais. E Sophia, ao demonstrar medo, estava ativando ainda mais a ansiedade de Marcos.
O círculo vicioso estava formado.
Marcos não está sozinho. A ciência tem mostrado, de forma consistente, que a ansiedade não é apenas uma experiência individual — ela circula entre pais e filhos, alimentando-se mutuamente .
A Investigação: O Ciclo Bidirecional da Ansiedade
O Que a Ciência Revela
Por muito tempo, acreditou-se que a ansiedade “passava” dos pais para os filhos — uma via de mão única. Estudos mais recentes, porém, mostram que a relação é bidirecional: pais ansiosos geram filhos ansiosos, mas filhos ansiosos também geram pais mais ansiosos .
Um estudo longitudinal publicado em 2025 na revista Frontiers in Psychiatry acompanhou mais de 6 mil crianças e seus pais ao longo de quatro anos . Os resultados são esclarecedores:
- Em todas as medições, a ansiedade dos pais previu significativamente a ansiedade dos filhos (isso os pesquisadores chamam de “modelo de efeito parental”)
- Em uma das transições, a ansiedade dos filhos também influenciou a ansiedade dos pais (o “modelo de efeito recíproco”)
- Ou seja: a relação é de mão dupla — um alimenta o outro
O estudo também encontrou diferenças importantes:
- O impacto da ansiedade dos pais sobre as meninas foi significativamente mais forte do que sobre os meninos
- O impacto foi maior em crianças do que em adolescentes — quanto mais novo o filho, mais vulnerável à ansiedade dos pais
Pesquisas anteriores já haviam mostrado que filhos de pais ansiosos têm até 50% mais risco de desenvolver transtornos de ansiedade . Mas a novidade é que a direção inversa também importa.
O Papel da Acomodação Parental
Um dos mecanismos centrais que mantém o ciclo vicioso é chamado de acomodação parental .
Acomodação é quando os pais mudam seu comportamento para evitar ou aliviar o sofrimento da criança ansiosa. Exemplos:
- Deixar a criança dormir na cama dos pais porque ela tem medo do escuro
- Responder dezenas de perguntas de segurança (“você vai voltar? e se acontecer algo?”)
- Evitar situações que geram ansiedade na criança (não ir a festas, não viajar)
- Fazer tarefas que a criança seria capaz de fazer sozinha (escovar os dentes, se vestir)
No curto prazo, a acomodação funciona — a criança se acalma, o pai se sente aliviado. No longo prazo, ela ensina à criança que o mundo é perigoso demais para ser enfrentado sozinho e que ela não tem capacidade de lidar com o desconforto .
A psicóloga Kelly Dunn explica: “Pais de crianças ansiosas estão fazendo o melhor que podem, mas as estratégias que trazem alívio no curto prazo — como dar segurança constante ou ajudar a criança a evitar situações que dão medo — podem, sem intenção, alimentar a ansiedade a longo prazo” .
Como a Ansiedade é “Ensinada” em Casa
Além da acomodação, outros comportamentos parentais contribuem para a transmissão da ansiedade :
| Comportamento Parental | Exemplo | Como Alimenta a Ansiedade |
|---|---|---|
| Modelagem ansiosa | “Vou ligar para a mãe de novo para ver se ela está bem, ela está 5 minutos atrasada” | A criança aprende que o mundo deve ser monitorado constantemente |
| Intolerância ao desconforto | “Você está bem, não chore” (em vez de validar a emoção) | A criança aprende que emoções negativas devem ser evitadas, não toleradas |
| Evitação de risco | “Sua amiga não vai à festa, então talvez você devesse ficar em casa” | A criança aprende que evitar é melhor que enfrentar |
| Inconsistência | Às vezes a criança pode dormir na cama dos pais, às vezes não | A criança não aprende que é capaz de lidar sozinha |
Por outro lado, os mesmos comportamentos feitos de forma diferente podem proteger a criança da ansiedade:
Intervenções Baseadas em Evidências
A boa notícia é que o ciclo pode ser quebrado.
Um estudo publicado no American Journal of Psychiatry testou uma intervenção de 8 sessões com famílias onde pelo menos um dos pais tinha ansiedade e uma criança entre 6 e 13 anos . Os resultados:
- Apenas 9% das crianças que participaram da intervenção desenvolveram ansiedade após um ano
- Em comparação, 21% no grupo que só recebeu instruções escritas desenvolveram ansiedade
- E 31% no grupo que não recebeu nenhuma intervenção desenvolveram ansiedade
Ou seja: intervir nos pais funciona. E funciona muito.
Duas abordagens têm se destacado:
SPACE (Supportive Parenting for Anxious Childhood Emotions) , desenvolvido no Yale Child Study Center, é um programa que trabalha apenas com os pais — a criança não precisa participar ativamente das sessões . Estudos mostram que o SPACE é tão eficaz quanto a terapia cognitivo-comportamental individual para a criança .
O programa ensina os pais a:
- Aumentar o suporte emocional (“Eu sei que é difícil”, “Eu acredito em você”)
- Reduzir gradualmente a acomodação (escolher UMA acomodação para trabalhar)
- Responder a escaladas (manter a calma quando a criança “testa” os novos limites)
ACT para Pais de Crianças Ansiosas é outra abordagem, focada em ajudar os pais a desenvolverem flexibilidade psicológica — a capacidade de tolerar o próprio desconforto sem agir impulsivamente . Em vez de “salvar” a criança do desconforto, os pais aprendem a fazer espaço para o desconforto e agir de acordo com seus valores. Um estudo piloto mostrou reduções significativas nos sintomas de ansiedade das crianças após o tratamento .
O Disfarce Perfeito (Quando o Círculo Mascara o Diagnóstico)
O círculo vicioso da ansiedade entre pais e filhos pode confundir o diagnóstico de várias maneiras.
Sintomas na Criança
| Sintoma na Criança | Pode ser confundido com… | Pode ser, na verdade… |
|---|---|---|
| Choro frequente, apego excessivo | Transtorno de ansiedade de separação primário | Resposta a pais que também estão ansiosos e superprotegendo |
| Dificuldade de dormir sozinha | Insônia, pesadelos | Acomodação parental (criança acostumada a dormir na cama dos pais) |
| Queixas físicas sem causa (dor de barriga, enjoo) | Sintomas somáticos de ansiedade | Medo internalizado que pode ter origem no ambiente familiar |
| Evita escola, festas, atividades sociais | Fobia social, ansiedade de desempenho | Aprendizado de que evitar é mais seguro (ensinado pelos pais) |
Sintomas nos Pais
| Sintoma no Pai | Pode ser confundido com… | Pode ser, na verdade… |
|---|---|---|
| Preocupação excessiva com o filho | Transtorno de ansiedade generalizada | Resposta à ansiedade do filho (ciclo recíproco) |
| Irritabilidade, dificuldade de concentração | Estresse crônico, burnout | Cansaço mental por gerenciar a ansiedade da criança o tempo todo |
| Insônia, pensamentos catastróficos | Transtorno de ansiedade primário | Ruminar sobre como proteger o filho de perigos (reais ou imaginários) |
| Isolamento social | Depressão | Evitar situações que ativam a ansiedade do filho (e, por tabela, a sua) |
A Armadilha do Diagnóstico Centrado na Criança
Quando um profissional avalia apenas a criança, sem olhar para os pais e para o ambiente familiar, corre o risco de:
- Diagnosticar a criança com um transtorno que é, na verdade, uma resposta adaptativa a um ambiente superprotetor
- Prescrever terapia para a criança sozinha, quando a intervenção mais eficaz seria focada nos pais
- Perder a oportunidade de tratar a ansiedade parental que está alimentando o ciclo
- Medicar a criança sem endereçar a causa ambiental
Como alertam os pesquisadores, “intervenções que consideram o papel da família no tratamento da ansiedade infantil podem ser limitadas quando não prestam atenção aos antecedentes do controle parental — especificamente, fatores internos dos pais, como evitação experiencial e fusão cognitiva” .
A Reviravolta: Quando o Pai Reconheceu o Ciclo
Voltemos a Marcos.
Depois de ouvirmos sua história, propus um exercício. Pedi que ele anotasse, por uma semana, três coisas:
- As situações em que Sophia demonstrava ansiedade
- O que ele fazia imediatamente depois (sua resposta)
- Como ele se sentia após cada resposta
O resultado foi revelador.
| Situação | Resposta de Marcos | Sentimento depois |
|---|---|---|
| Sophia não quer ir para a escola | Deixa ela ficar em casa | Alívio (não precisa brigar) |
| Sophia chora para dormir sozinha | Dorme no quarto dela | Alívio (ela se acalma) |
| Sophia pergunta “e se você morrer também?” | Abraça e diz “não vou morrer” | Ansiedade (a pergunta fica na cabeça) |
Marcos estava, sem saber, fazendo todas as coisas que mantêm o ciclo de ansiedade:
- Acomodava (deixava de ir à escola, dormia no quarto dela)
- Oferecia segurança excessiva (dizia “não vou morrer” — uma promessa que ele não pode cumprir)
- Evitava o desconforto dele mesmo (não suportava ver Sophia sofrendo)
O primeiro passo foi ajudar Marcos a entender que não é “abandono” deixar Sophia enfrentar o desconforto — é ensiná-la que ela é capaz.
“Marcos, quando você corre para resolver o medo dela, o que você está ensinando?”
“Que ela não consegue sozinha?”
“Exato. E o que você está ensinando sobre você mesmo?”
“Que eu também não consigo ver ela sofrer…”
A partir daí, construímos mudanças:
- Redução gradual da acomodação: em vez de dormir no quarto de Sophia, Marcos passou a sentar na porta por 5 minutos, depois 3, depois 1, até sair.
- Mudança na linguagem: em vez de “não vou morrer”, passou a dizer: “Eu vou fazer de tudo para ficar bem. E se algo acontecer, você tem a vovó, os tios, e vai ficar bem.”
- Validação sem resgate: “Eu sei que você está com medo. É normal sentir medo. Mas eu sei que você consegue.”
- Marcos buscou ajuda para si: iniciou terapia para lidar com o luto e a ansiedade que já existiam muito antes de Sophia apresentar sintomas.
Três meses depois, Marcos me enviou uma mensagem:
“A Sophia dormiu sozinha a semana inteira. E eu dormi também. Eu não sabia que o remédio para a ansiedade dela era… eu aprender a respirar.”
O Guia do Detetive (Para Famílias Presas no Círculo Vicioso)
1. Sinais de que o Círculo Está Ativo
- Você percebe que fica mais ansioso quando seu filho está ansioso
- Você muda sua rotina para evitar que seu filho fique ansioso
- Você responde às preocupações do seu filho dando segurança repetidamente (mesmo quando já respondeu a mesma pergunta várias vezes)
- Você evita situações (festa, viagem, escola) porque seu filho fica ansioso
- Você sente que não tem mais energia para lidar com a ansiedade do seu filho — e também com a sua
2. O Teste da Acomodação
Pergunte-se (com honestidade):
| Pergunta | Sim | Não |
|---|---|---|
| Seu filho dorme na sua cama (ou você dorme no quarto dele) porque ele tem medo? | ||
| Você responde à mesma pergunta de segurança várias vezes? (“você volta?” “vai dar tudo certo?”) | ||
| Você evita sair, viajar ou receber visitas porque seu filho fica ansioso? | ||
| Você faz tarefas pelo seu filho que ele já tem idade para fazer sozinho (escovar os dentes, se vestir, organizar a mochila)? | ||
| Você se sente aliviado quando seu filho “cede” e evita a situação que dá medo? |
Quanto mais “sim”, mais acomodação está presente.
3. O Papel Diferenciado por Idade e Gênero
A pesquisa mostra que o impacto da ansiedade dos pais é maior em crianças do que em adolescentes . Isso significa que:
- Para crianças pequenas (até 10-11 anos) : a intervenção focada nos pais é especialmente importante, pois elas são mais vulneráveis ao ambiente familiar
- Para adolescentes: o tratamento pode focar mais no próprio adolescente, mas os pais ainda têm um papel de suporte — não de controle
Além disso, o impacto dos pais sobre as meninas parece ser mais forte do que sobre os meninos . Isso não significa que meninos não sejam afetados — significa que, ao avaliar uma menina com ansiedade, é ainda mais essencial investigar o ambiente familiar.
4. Estratégias para Quebrar o Ciclo
5. Intervenções Baseadas em Evidências para Famílias
Se você se identificou com este texto, saiba que existem abordagens específicas para famílias presas no ciclo da ansiedade:
- SPACE (Supportive Parenting for Anxious Childhood Emotions) : trabalha apenas com os pais, ensinando a reduzir acomodação e aumentar suporte. A criança não precisa participar .
- Intervenção familiar de Ginsburg: 8 sessões com pais e filhos, ensinando a identificar sinais de ansiedade e reduzir evitação
- ACT para pais: foco na flexibilidade psicológica dos pais — aprender a tolerar o desconforto sem agir impulsivamente
6. O Primeiro Passo: Cuide de Você Primeiro
O conselho mais difícil, mas mais importante: antes de tentar “consertar” a ansiedade do seu filho, olhe para a sua própria.
Pais que tratam sua própria ansiedade:
- Têm mais paciência para responder às necessidades dos filhos
- Modelam regulação emocional (a criança aprende vendo, não ouvindo)
- Quebram o ciclo antes que ele se perpetue por mais uma geração
Como disse a psiquiatra Golda Ginsburg, que desenvolveu uma das intervenções familiares mais estudadas: “Se podemos identificar crianças em risco, vamos tentar prevenir isso” . E prevenir começa com os pais.
Marcos aprendeu algo que transformou sua relação com Sophia: ele não precisa ser “perfeito” para ajudá-la. Ele só precisa ser consciente.
Consciente de que sua ansiedade não é só “dele” — ela afeta Sophia. Consciente de que a ansiedade de Sophia não é só “dela” — ela também afeta Marcos. Consciente de que o caminho para sair do ciclo não é “proteger mais”, mas capacitar.
Capacitar Sophia a enfrentar o medo — em passos pequenos, com suporte, mas sem resgate.
Capacitar a si mesmo a tolerar o desconforto de ver o filho sofrer um pouco — porque esse “pouco” é o preço da autonomia.
O ciclo vicioso pode ser interrompido. Não exige pais perfeitos — exige pais dispostos a mudar seus comportamentos, um pequeno passo de cada vez.
Se você leu este texto e se reconheceu, saiba: o fato de você estar preocupado com a ansiedade do seu filho já é um sinal de que você se importa. E esse cuidado, direcionado da maneira certa, é exatamente o que pode quebrar o ciclo.
Como resume a abordagem SPACE: a mudança não vem de forçar a criança a mudar — vem de mudar o ambiente em que a ansiedade se instala . E você, pai ou mãe, é a pessoa mais importante para construir esse novo ambiente.
E você, já percebeu que às vezes a ansiedade do seu filho é também um reflexo da sua? Não para se culpar — mas para, reconhecendo o ciclo, finalmente quebrá-lo.
Compartilhe este texto com outros pais que também vivem o ciclo vicioso da ansiedade — não para culpá-los, mas para lembrá-los de que tratar a si mesmos é, muitas vezes, o melhor presente que podem dar aos filhos.
Para Saber Mais
- Shek, D. T. L., Li, X., Yang, B., & Yang, J. (2025). Is parental anxiety related to child anxiety? Insights from a four-wave longitudinal study in a Chinese context. Frontiers in Psychiatry, 16, 1570652.
- Ginsburg, G. et al. (2015). Family-based intervention for anxious parents raising anxious children. American Journal of Psychiatry.
- Dunn, K. (2025). How Supportive Parenting for Anxious Childhood Emotions (SPACE) Helps Families to Break the Cycle of Anxiety. Chicago Psychotherapy PLLC.
- Remberk, B. et al. (2024). ACT for Parents of Anxious Children (ACT-PAC): A pilot study. Frontiers in Child and Adolescent Psychiatry.
- SCCAP. (2025). Parenting and Child Anxiety: Assessment and Intervention Strategies. SCCAP Webinar.
